Meio Bit » Hardware » China: Nvidia é alvo de investigação antitruste

China: Nvidia é alvo de investigação antitruste

China acusa Nvidia de descumprir acordo para aquisição de empresa de infraestrutura, em novo capítulo da guerra comercial com os EUA

1 ano e meio atrás

Mais um dia, mais um capítulo da guerra comercial travada entre os Estados Unidos e a China, que agora arrastou mais um para o rolo, a Nvidia. A companhia de Jensen Huang é alvo de uma investigação antitruste no País do Meio, sob a acusação de violar acordos para a aquisição de uma empresa fornecedora de equipamentos de infraestrutura, autorizada pelo governo chinês em 2020.

A segunda empresa mais valiosa do mundo, graças à IA (Inteligência Artificial), a Nvidia se tornou um alvo fácil, e óbvio, na escalada de tensões entre os dois países.

Para a surpresa de ninguém, a Nvidia de Jensen Huang foi (outra vez) pega no fogo cruzado entre EUA e China (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Para a surpresa de ninguém, a Nvidia de Jensen Huang foi (outra vez) pega no fogo cruzado entre EUA e China (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Nvidia é novo alvo da China

Oficialmente, o centro do rolo entre a Nvidia e a China é a Mellanox Technologies, uma empresa fundada em 1999 por ex-executivos de origem israelense da Intel e Galileo Technology, e sediada na Califórnia; sua especialidade envolvia equipamentos para infraestrutura de redes, incluindo servidores de alto desempenho.

Em 2019, a Nvidia anunciou publicamente ter fechado um acordo para comprar a Mellanox por US$ 6,9 bilhões (~R$ 41,98 bilhões, cotação de 10/12/2024), um negócio concluído no ano seguinte, devidamente sancionado pelos órgãos antitruste dos EUA, da União Europeia (UE), e da China.

A Administração Estatal para a Regulação do Mercado (SAMR), o órgão chinês que atua como regulador antitruste, da mesma forma que a FTC (Comissão Federal de Comércio) nos EUA, e o CADE no Brasil, teria imposto condições para aprovar a compra, que incluem garantir o suprimento de equipamentos ao país, e evitar práticas anticompetitivas, o que o governo alega que foram violadas.

O que acontece, na verdade, a Nvidia foi pega no fogo cruzado. A guerra comercial travada entre os dois países, iniciada em 2019 quando a Huawei foi impedida de fazer negócios com empresas norte-americanas e outras que usam tecnologias desenvolvidas no país, já teve diversos capítulos, com um lado respondendo novas sanções do outro.

Jensen Huang chegou a ser diretamente repreendido pela secretária de Comércio dos EUA, Gina Raimondo, por sua teimosia em contornar restrições e desenvolver novos chips para continuar abastecendo empresas chinesas, enquanto Washington deseja manter a China atrasada em relação ao desenvolvimento tecnológico de chips e IA o máximo possível, "oficialmente", para evitar a evolução de suas capacidades militares; extraoficialmente, para manter a China comercialmente dependente, e evitar que Pequim abasteça desafetos políticos, como a Rússia.

A escalada de tensões teve capítulos desconcertantes em 2024, com o premiê Xi Jinping estatizando toda a produção de materiais essenciais para a produção de semicondutores, como gálio, germânio, e antimônio, e posteriormente proibindo completamente a exportação deles para os EUA (a China responde por 94% de todo o gálio usado comercialmente, e por 60% do germânio).

O governo de Joe Biden, por sua vez, incumbiu a DARPA de desenvolver novos chips com outros materiais, para não dar o braço a torcer, e taxou veículos elétricos chineses em 100%, graças ao lobby do bilionário Elon Musk, que não quer a BYD concorrendo com a Tesla em seu quintal.

Xi Jinping e Biden: nenhum dos lados quer ceder, e Trump já ameaçou escalar ainda mais o embate (Crédito: Kevin Lamarque/Reuters)

Xi Jinping e Biden: nenhum dos lados quer ceder, e Trump já ameaçou escalar ainda mais o embate (Crédito: Kevin Lamarque/Reuters)

Paralelo a isso, o presidente eleito Donald Trump, que inicia seu segundo mandato em 20 de janeiro de 2025, já disse que pretende aumentar as taxas de importação de todos os bens e materiais da China para os EUA, desta vez sem exceções, o que afetará diretamente o mercado de eletrônicos, no país e fora dele, em um efeito cascata, onde tudo vai ficar consideravelmente mais caro.

Ao mesmo tempo, as sanções dos EUA contra a China não estariam funcionando da maneira que a Casa Branca deseja. Companhias locais restritas, como a foundry (manufatura de semicondutores) SMIC, a Huawei e outras, continuam desenvolvendo novos produtos, que se não parelhos aos produzidos fora, não ficam muito atrás de concorrentes. De certa forma, as restrições motivaram o governo e técnicos locais a pensarem fora da caixa, o que inclui engenharia reversa e upgrades próprios em máquinas antigas da ASML, já que os chineses não podem mais adquirir novas.

Em uma situação ideal, EUA e China deveriam se aproximar e decidir suas diferenças, em prol de um mercado competitivo e que beneficie ambos mercados, mas tanto Washington quanto Pequim desejam ver o seu lado à frente do adversário, os EUA com o velho mote America First, e Trump reformulando a diplomacia do porrete de Teddy Roosevelt, agora batendo com poder econômico, e Jinping implementando o plano para posicionar a China como a primeira potência global em IA até 2030, com ou sem sanções.

Nesse rolo, bater na Nvidia era o próximo passo óbvio a ser tomado pela China. A companhia cresceu de forma exponencial nos últimos dois anos, ao direcionar todos os seus esforços ao mercado de chips de IA de alto desempenho (a linha GeForce de GPUs para o usuário final representa hoje uma fração de sua receita, e deixou de ser prioridade), logo, se tornou um alvo suculento demais para ser ignorado por Pequim.

Hoje, a Nvidia está avaliada em US$ 3,65 trilhões (~R$ 22,1 trilhões, dados de novembro/2024), e só fica atrás da Apple em valor de mercado, com US$ 3,668 trilhões (~R$ 22,2 trilhões, dados de dezembro/2024), com uma passando à frente da outra, conforme o mercado oscila; o anúncio do processo fez as ações caírem 2,6% nesta segunda-feira (6), embora a empresa de Santa Clara acumule um aumento de capital de 180% durante o ano de 2024.

Em nota, a Nvidia disse que "ficará feliz em responder" às dúvidas do governo chinês, e que trabalham duro para "fornecer os melhores produtos e honrar compromissos em todas as regiões" em que fazem negócios; vale lembrar que o SAMR processou no passado a Micron e a Qualcomm por acusações semelhantes, com a última sendo forçada a pagar uma multa de quase US$ 1 bilhão (~R$ 6,05 bilhões), mas isso foi bem antes do início da guerra comercial entre a China e os EUA.

Fonte: The New York Times

Leia mais sobre: , , .

relacionados


Comentários