Ronaldo Gogoni 17/06/2026 às 14:51
As canetinhas mágicas de Ozempic, o medicamento "milagroso" do momento, renderam um curioso meme que as liga à mítica Panaceia, o remédio que cura tudo, até unha encravada e coração partido (OK, esse mal talvez não). No entanto, estudos recentes apontam que ela pode ter mesmo mais aplicações além do combate à obesidade e controle do diabetes.
Cientistas recentemente encontraram evidências de que drogas à base do hormônio GLP-1 (Peptídeo 1 Semelhante ao Glucagon) como a semaglutida, princípio ativo do Ozempic e similares, podem inibir o impulso pelo consumo de álcool, e agora um novo estudo revela que o medicamento também pode conter tendências a comportamentos violentos.

Estudos recentes revelaram que o GLP-1 pode diminuir a necessidade pelo consumo de álcool; novas evidências sugerem que ele também conteria comportamentos violentos (Crédito: Fernanda/Adobe Stock)
No artigo (cuidado, PDF), pesquisadores da Universidade Rutgers em Nova Jérsei, nos Estados Unidos, compararam dados clínicos entre pacientes atuais e passados que se trataram com GLP-1, de modo a analisar a tendência a comportamentos ou violentos, e notaram que o link entre impulsividade e agressividade era bem menor nos indivíduos que ainda consomem o medicamento.
Como o estudo ainda é preliminar e não foi aprofundado, tudo se resume a uma suspeita, embora haja evidências de que o remédio pode levar a alterações comportamentais, além de outros quadros em que a semaglutida e outros medicamentos semelhantes já demonstraram ter. Por exemplo, eles têm efeitos benéficos em outras doenças ligadas à obesidade, como alívio nas dores em casos de osteoartrite nos joelhos, causada pelo excesso de peso.
Ao mesmo tempo, um estudo publicado em maio de 2026 por pesquisadores da Dinamarca encontrou evidências de que Ozempic e cia. não só inibem o apetite do usuário, mas também diminuem a necessidade de consumir bebidas alcoólicas: em um teste duplo-cego, voluntários tratados com semaglutida bebiam menos do que os que recebiam placebos e passaram por menos quadros de bebedeiras (mais de quatro drinques por dia). Outros cientistas agora testam se o GLP-1 pode desencadear o mesmo efeito em opioides como o fentanil.
Em verdade, como o Ozempic e outros medicamentos do tipo atuam diretamente no mecanismo de recompensa do cérebro, que é movido a dopamina (o hormônio do bem-estar e sensação de prazer) e de modo a cortar a boa sensação ao comer demais, cientistas têm notado que pacientes diminuem o consumo de outras substâncias em geral. Dessa forma, pesquisas direcionadas se dividiram no estudo dos efeitos sobre o consumo de álcool, tabaco e opioides.

Cientistas estudam se efeitos inibidores do apetite do GLP-1 também se aplicam ao impulso pelo consumo de álcool, tabaco e opioides (Crédito: Luis Angel Garcia/Adobe Stock)
Cientistas também observaram na pesquisa, que reuniu entrevistas de 821 adultos que já usaram GLP-1 pelo menos uma vez, que a relação nítida entre o impulsividade e consumo de álcool, que leva a comportamentos agressivos e violentos, era bem mais fraca entre aqueles em tratamento quando comparados àqueles que já pararam de se medicar.
Não para por aí: mesmo que um medicado venha a beber e aja de forma impulsiva, as chances de tal comportamento escalar para um cenário de agressão ou outros crimes ligados à violência e agressividade são bem menores; a droga aparentemente atua mais em controlar a impulsividade do que inibir o efeito de "infusão de coragem" (ou estupidez) conferida pelo álcool.
É preciso notar duas coisas: primeiro, o estudo é absolutamente preliminar e apenas aponta uma suspeita de que remédios como o Ozempic podem funcionar como inibidores de comportamentos impulsivos que podem escalar para atitudes violentas sob o efeito de bebidas alcoólicas, o mesmo valendo para a aparente habilidade de suprimir o desejo no usuário de beber, fumar ou de se entupir de fentanil.
Segundo, o GLP-1 não seria nem de longe uma "droga da obediência" como alguns histéricos andam alardeando; o usuário continuará tendo impulsos, mas ou eles serão menos suscetíveis, ou terão menos chances de escalar para um quadro mais sério. E, de novo, todas as descobertas são preliminares e carecem de mais estudos.
Até lá, a canetinha mágica continuará sendo mais indicada para o tratamento original de diabetes tipos 2 e acessoriamente no controle da obesidade, podendo conferir alguns bônus no meio do caminho.
SEMENZA, D. C., THOMAS, C. Glucagon-like peptide-1 receptor agonist use and violent crime among US adults. Criminology, 16 páginas, 17 de junho de 2026.
Fonte: EurekAlert!