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"Xbox precisa dar lucro", diz CEO da Microsoft [ATUALIZADO]

Satya Nadella reclama que Xbox "tem menos monetização que o YouTube", e dá a entender que a Microsoft não vai mais subsidiar a divisão

15/06/2026 às 10:45

ATUALIZAÇÃO: além de ex-executivos da Rare estarem de saída, o site Bloomberg reporta que pelo menos três estúdios do Xbox Game Studios, sendo Compulsion Games, Double Fine e Ninja Theory, estariam negociando com a Microsoft para se comprarem de volta e voltarem a ser independentes, de modo a evitar fechamentos e/ou demissões.

Tão logo o primeiro reporte saiu, uma fonte teria afirmado ao site The Verge que a Ninja Theory será encerrada caso não encontre um comprador, o que deixa o destino do recém-anunciado Senua em aberto; os estúdios teriam orientado seus funcionários a buscar empregos em outros lugares, visto que tais negociações podem não ser bem-sucedidas.

As contas oficiais da Double Fine no X e BlueSky reagiram à situação com um único emoji, enquanto representantes da Microsoft, Xbox, Ninja Theory e Compulsion Games não teceram nenhum comentário até o momento.

Segue abaixo a notícia original.


Os últimos meses têm sido desconcertantes para a base instalada de jogadores do Xbox. Desde que Asha Sharma assumiu o posto de chefe da divisão, os sentimentos em torno do futuro da plataforma oscilaram tal qual uma montanha-russa a cada passo novo dado.

A recente estratégia de retomada dos exclusivos, similar ao que a divisão PlayStation fez, o recuo nos preços das assinaturas do Game Pass, e o extermínio da campanha de marketing que depreciou sua linha de consoles aos olhos do público, foram medidas consideradas em geral positivas.

Xbox Series X (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

A trajetória recente da divisão Xbox tem sido bem turbulenta (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

No entanto, é preciso lembrar que Sharma responde a Satya Nadella. O CEO da Microsoft, obcecado com soluções generativas de Inteligência Artificial (IA) ao ponto de ver tudo o que a companhia construiu em meio século como irrelevante, impôs o mesmo regime de margens de lucro altas de outras divisões ao Xbox, de no mínimo 30%.

Nadella para Xbox: "a fonte secou"

Segundo informes, a fixação de Nadella com IA beira o doentio, chegando ao ponto de o executivo empregar soluções generativas em todos os aspectos de sua vida diária. Em um artigo publicado em maio de 2025 pelo site Bloomberg, Charles Lamanna, presidente da divisão que gerencia o Copilot, relatou ter ouvido o CEO da Microsoft dizer que "nada que a companhia construiu nos últimos cinco anos (de 2020 até então) tem mais importância", seja Windows, Office ou Xbox. Azure seria a única exceção, afinal, soluções de nuvem são essenciais para IA.

O pavor de Nadella de que a Microsoft perca o bonde da inovação e fique para trás em relação a outras gigantes como OpenAI, Meta, Apple e cia. é tamanho, que ele teme que a companhia não sobreviva se não tomar as rédeas da situação. Isso teria motivado o indiano a dar a ordem de "queimar os navios" aos gerentes e SVPs da gigante de Redmond, no sentido de recriar todos os produtos da empresa ao redor de soluções generativas, o produto focal de agora em diante.

O problema disso para a divisão Xbox é simples: enquanto outras divisões da Microsoft possuem margens de lucro estáveis entre 30% e 40%, games sempre trabalharam com índices mais baixos, em que 10% é um número considerado saudável; a norma do mercado é lucrar com games e não com consoles, a tradição dos fabricantes foi de vender hardware com prejuízo e fazer dinheiro com software e serviços, seja desenvolvendo jogos internamente, distribuindo os de terceiros, ou abarcando-os em suas plataformas e recolhendo uma porcentagem sobre as vendas.

Essa relação mudou na atual geração, seja por necessidade de lucrar ou pela crise de componentes, mas tanto a Microsoft quanto Sony e Nintendo elevaram consideravelmente os preços de seus consoles após o lançamento, quando o normal em gerações passadas era justamente o contrário. Os preços dos games também subiram, e há quem defenda cobrar ainda mais caro por eles.

Asha Sharma, CEO da divisão Xbox (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Asha Sharma tem um nó górdio para desatar: fazer o Xbox ter lucro na casa de 30%, sob risco de venda ou desmembramento da divisão (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

A imposição da margem de 30% em 2023 à divisão Xbox pela CFO Amy Hood teve efeitos devastadores: ela teria sido a responsável pelo aumento insano que chegou a 100% nas mensalidades do Game Pass, cancelamento de projetos, fechamento de estúdios como Arkane Austin (Redfall, série Dishonored) e Tango Gameworks (Hi-Fi Rush, série The Evil Within, Ghostwire: Tokyo) e, claro, demissões em massa.

Quando Sharma assumiu a posição de Phil Spencer e Sarah Bond, muitos temeram pelo fato de ela ser uma executiva vinda da divisão da IA da Microsoft, mas ela não só vem ouvindo os jogadores e chegou a remover o Copilot do console, como vem tomando decisões simpáticas à base instalada. No entanto, tudo mudou com a publicação de um e-mail, compartilhado abertamente no site Xbox Wire, avaliando seus 100 primeiros dias como CEO da divisão.

Sharma e Matt Booty, atual chefe do Xbox Game Studios, avaliam a situação atual do setor como "insustentável", devido a decisões erradas ou controversas vistas aos olhos de hoje (como gastar bilhões de dólares em estúdios), e completam dizendo que a atual margem lucrativa, que fechará o ano fiscal de 2026 em 3% (o que não é um índice ruim para empresas menores, mas é péssimo para a Microsoft como um todo), "não pode continuar".

Ambos anunciaram um "reset" total na divisão que, segundo o Bloomberg, levará a mais uma onda de demissões em massa, projetos cancelados e estúdios fechados; alvos preferenciais seriam desenvolvedoras pequenas, e muitos temem que a Double Fine de Tim Schafer esteja na mira; outros candidatos a rodar seriam a Compulsion Games (South of Midnight, We Happy Few) e, surpreendentemente, a Ninja Theory (série Senua/Hellblade).

E então, em uma entrevista concedida durante o evento Hard Fork do jornal The New York Times em 10 de junho de 2026, Satya Nadella afirmou que o Xbox precisa se tornar uma divisão lucrativa, dando a entender que a companhia não mais irá bancá-la.

"O desafio daqui por diante para nós (a Microsoft) é pensar em como inovar tanto em hardware quanto em games, de uma forma economicamente viável (...). Acho que uma das coisas que a Asha (Sharma), que acabou de assumir a divisão Xbox, destacou é que investimos muito. Ninguém pode nos acusar de não termos investido na divisão nos últimos 25 anos. E agora precisamos transformar isso em um negócio sustentável, que ofereça o que é fundamentalmente uma das melhores fontes de entretenimento.

O desafio é que ainda não conseguimos monetizar esse formato de entretenimento; na verdade, nós só o temos subsidiado. Há mais monetização de games do Xbox acontecendo no YouTube do que na Microsoft.

Isso não significa que devemos fazer coisas que não sejam naturais. Queremos fazer o que realmente é nosso trabalho, que é criar ótimos games e hardware, mas precisamos fazer isso de uma forma economicamente sustentável. Então, acho que a Asha já está há 100 dias no projeto, e ela publicou um post dizendo que nos próximos 100 dias vai reavaliar a situação, de modo a garantir que atendamos às expectativas dos nossos fãs, tanto em relação ao hardware quanto à distribuição (de games)."

O e-mail de Sharma e Booty foi bem sincero, mais do que tinha o direito de ser: ele deixou claro que, por mais amigável que o atual corpo executivo da divisão Xbox seja ao público, a Microsoft é uma empresa e, como tal, tem como missão dar lucro e tudo o mais é secundário. Na visão de Nadella, a quem a dupla responde e precisa prestar contas, se o setor inteiro não fizer mais dinheiro que youtubers (fato esse que nitidamente incomoda o CEO da Microsoft), ele será jogado fora sem cerimônia.

Nadella menciona que a Microsoft "investiu muito" no Xbox ao longo de 25 anos e deixou claro que a divisão é deficitária e vem sendo subsidiada, o que não mais será o caso, pois a fonte secou. Daqui por diante, o setor será obrigado a se tornar lucrativo e dentro da margem mínima de 30%, mas essa é uma marca insana para qualquer divisão de games; ninguém no mercado opera dentro desses parâmetros, o que muitos entenderam como uma sentença de morte: o indiano quer se livrar do Xbox para investir mais em IA.

As opções são poucas: uma delas seria transformar o Xbox em uma subsidiária com capital e operação separados da Microsoft, da mesma forma que a divisão PlayStation é hoje administrada; a outra e um tanto improvável, mas não impossível, seria vender a divisão inteira para terceiros, em que poucos teriam bolsos fundos para bancá-la.

Sem surpresa, o nome do príncipe saudita Mohammed bin Salman (MBS), que gosta de seus jornalistas bem picadinhos, voltou a rondar a mídia, mesmo após seu Fundo Público de Investimentos (PIF) gastar US$ 55 bilhões na compra da Electronic Arts, onde assumirá o controle da desenvolvedora da mesma forma que gere a SNK, cujas promessas de independência não foram cumpridas (contextualizando: CR7 joga no Al-Nassr, time que pertence a MBS, enquanto Salvatore Ganacci é basicamente o "DJ pessoal" da família real saudita).

A EA jura que manterá o controle criativo mesmo sob a gestão do PIF, mas ninguém acredita nisso; no pior cenário possível, caso a divisão Xbox seja mesmo posta à venda e acabe sendo comprada pelo fundo saudita, ela poderá ter o mesmo destino.

Xbox terá que mudar, de um jeito ou de outro (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Xbox está mudando, mas não como o público queria ou esperava (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

A situação atual é a seguinte: Satya Nadella está perdendo a paciência com o fato de que o Xbox não consegue retornar receita de modo a compensar os mais de US$ 80 bilhões gastos na compra de estúdios, de pequenos como a Double Fine a gigantes como a Zenimax e a Activision Blizzard King.

Asha Sharma e Matt Booty irão reestruturar totalmente a divisão nos próximos meses, por meio de demissões e outras medidas antipáticas, a fim de aumentar a lucratividade da maneira que o CEO da Microsoft quer; do contrário, o setor pode acabar desmembrado ou mesmo vendido, de modo a liberar a grana destinada a games para que seja investida na única coisa com a qual Nadella se importa, IA.

Enquanto isso, MBS esfrega as mãos.

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