Ronaldo Gogoni 13 semanas atrás
Os ânimos da Sony para portar os games desenvolvidos por seus estúdios internos e parceiros próximos para o PC parecem estar esfriando. Dias atrás, o jornalista da Bloomberg Jason Scheirer levantou a possibilidade de que a companhia japonesa pretende retomar a estratégia de exclusivos para o PS5, e reinstaurar a política "o PlayStation é o melhor lugar para jogar".
A estratégia seria parcial e direcionada a títulos single player como Marvel's Wolverine, que já ficaria restrito ao console de mesa; segundo fontes, a divisão Sony Interactive Entertainment (SIE) teria chegado à conclusão de que games AAA com foco na história não vendem o bastante no PC para justificar ports.

Segundo fontes, Marvel's Wolverine será um exclusivo permanente do PS5 (Crédito: Divulgação/Insomniac Games/Sony Interactive Entertainment)
Durante entrevista ao podcast Triple Click, Scheirer disse ter a impressão de que a divisão PlayStation "está desistindo de lançar seus conteúdos exclusivos de console, como os jogos single player tradicionais, para o PC", e citou especificamente o esperado Marvel's Wolverine como o primeiro a ser submetido à nova estratégia, não sendo mais portado para fora do PS5. O jornalista, que possui fontes sólidas dentro da indústria e foi o primeiro a revelar o fim da Bluepoint Games, garantiu em postagem posterior no fórum ResetEra que sua fala não foi uma especulação.
UPDATE: em um artigo da Bloomberg, Scheirer elaborou que o plano já está em vigor e que tanto Ghost of Yōtei quanto Saros, além de Marvel's Wolverine e demais games single player desenvolvidos internamente daqui por diante, permanecerão como exclusivos do PS5 de modo permanente. Multiplayers de estúdios da SIE como Marathon (Bungie) e de parceiros como Marvel Tōkon: Fighting Souls (Ark System Works) serão distribuídos entre várias plataformas normalmente.
Scheirer não é o único a farejar mudanças dentro da SIE. John Linneman do Digital Foundry disse recentemente que a atual direção da divisão, com o CEO Hermen Hulst focado no lucro rápido e constante (daí a profusão de GaaS e o extermínio de estúdios que não servem para manter o fluxo de novos games voltados a drenar a carteira do jogador), o PC se tornou "menos interessante" e que toda a estratégia de portar títulos single player para a plataforma será encerrada.
O leaker Nate the Hate disse o mesmo no X, acrescentando que a decisão foi tomada 2025, e até mesmo Jez Corden do site Windows Central, que cobre especificamente notícias da Microsoft e Xbox, alegou meses atrás ter ouvido de uma fonte confiável que "a Sony está desistindo do PC". É de se supor que algo está realmente acontecendo dentro da divisão PlayStation e do comando da SIE, mas o que exatamente?

God of War Ragnarök, Marvel's Spider-Man 2 e Horizon: Forbidden West venderam bem menos que seus predecessores no PC (Crédito: Divulgação/Santa Monica Studio/Sony Interactive Entertainment)
Primeiro, vejamos o cenário atual. A Sony se agarrou por anos à estratégia do Jardim Murado, que funciona para a Nintendo e a Apple e também sempre a atendeu, mas rachaduras começaram a aparecer quando a pressão pelo crossplay em jogos multiplayer começou a se acumular, com as rivais devidamente colocando gasolina no fogo. Tempos depois, a estratégia expandida de levar games AAA até então exclusivos ao PC foi justificada como uma forma de aumentar a arrecadação, visto que os custos de produção dos games só crescem.
Note que essa abordagem exclui completamente o Xbox Series X|S e os Nintendo Switch 1 e 2, relegados a títulos multiplayer de estúdios internos ou parceiros, como Helldivers 2 (Arrowhead Game Studios), a série MLB: The Show (San Diego Studio), o recém-chegado Marathon e o esperado jogo de luta de 4 vs. 4 Marvel Tōkon: Fighting Souls.
O movimento da Sony parece estranho quando olhamos para a Microsoft (que tem seus próprios problemas para resolver) distribuindo seus games no Steam e na Microsoft Store, mas ao que parece a SIE chegou à conclusão de que portar títulos single player para o PC não é lucrativo o bastante. Tanto Jason Scheirer quanto Jez Corden acreditam que a iniciativa não fez nenhuma diferença em termos de receita, a expectativa de cobrir custos de desenvolvimento alcançando mais jogadores teria dado em nada.
Um relatório recente da companhia de análise financeira Alinea Analytics revelou que os games da SIE distribuídos pelo Steam geraram menos de US$ 1,5 bilhão (~R$ 7,9 bilhões, cotação de 04/03/2026) em receita, em que Helldivers 2 é o ponta-de-lança com 12,7 milhões de vendas. As versões para PC de God of War Ragnarök, Marvel's Spider-Man 2 e Horizon: Forbidden West todas venderam significativamente menos que os respectivos games predecessores na plataforma, e mesmo esses não saíram muito.

Stellar Blade foi a única exceção, mas a sequência será distribuída pela própria desenvolvedora, que quer firmar presença em mais plataformas (Crédito: Reprodução/Shift Up/Sony Interactive Entertainment)
É preciso lembrar também que, por muito tempo, a Sony restringiu a venda de seus títulos aos poucos mais de 100 países em que a PSN está disponível, por insistir que os jogadores precisam de uma conta no serviço para jogar seus games. Isso não mudou para os internos lançados antes de Marathon, e foi imposto inclusive a Helldivers 2 por um bom tempo. A Arrowhead e a Shift Up, desenvolvedora de Stellar Blade, foram cruciais no esforço de derrubar a exigência para lançamentos de parceiros distribuídos pela SIE.
Sem a obrigatoriedade de uma conta da PSN, a jornada dos gloriosos soldados da Super Terra e a aventura Booty Power da EVE venderam maravilhosamente bem no Steam; o game da Shift Up inclusive é o single player de maior sucesso da SIE no PC, mas a desenvolvedora sul-coreana, agora uma grande companhia, se prepara para autopublicar a sequência de modo a alcançar mais plataformas, com Stellar Blade igualmente chegando no futuro ao Xbox Series X|S e Nintendo Switch 2, provavelmente.
Outro fator que depôs contra a estratégia da Sony em levar games ao PC foi o delay de pelo menos um ano, de modo a garantir a exclusividade temporária do PS5; quem realmente quer jogá-los o faz em seus consoles e, quando eles chegam ao Steam, não há fator novidade. Os que não possuem o sistema se voltam a títulos novos multiplataforma ao invés de investir em um single player do ano anterior, por mais que fosse restrito.
É também importante notar que quem tem dinheiro para um PC gamer geralmente possui um console de mesa (se não todos) e também joga mobile, ou seja, de um jeito ou de outro, esse consumidor já jogou e não vê motivos para comprá-lo de novo no Steam. Uma forma de combater isso seria realizar lançamentos simultâneos de games single player nas duas plataformas, mas a Sony resiste veementemente a isso porque "o PlayStation é o melhor lugar para jogar"; se você quer jogar no lançamento, que compre um PS5.
E em breve, isso passará a valer novamente para jogos AAA single player a partir da jornada de Atsu em Ghost of Yōtei, e incluindo também tão esperada aventura sangrenta do carcaju em Marvel's Wolverine, ambos permanentemente restritos ao Jardim Murado da Sony.
Fonte: Polygon