Ronaldo Gogoni 52 semanas atrás
Fato: sexo vende. Não adianta quanto as pessoas tentem mascarar os desconversar, o pr0n é uma das forças motrizes da mídia, não importa o grau. Games não fogem à regra, estúdios desde sempre exploraram conteúdos sugestivos para vender mais, da Blaze mostrando a calcinha durante uma voadora em Streets of Rage, ou as protagonistas fortes, porém sensuais de títulos como Bayonetta, NieR: Automata, e mais recentemente, Stellar Blade.
O RPG de ação da desenvolvedora sul-coreana Shift Up vem batendo recordes desde sua chegada ao PC, com vendas altas e enorme quantidade de jogadores simultâneos no Steam, tendo se tornado o título single player distribuído pela Sony mais jogado na plataforma da Valve. E todo mundo sabe por quê.
A Shift Up se tornou conhecida (para alguns, infame) pelo seu amor por bundas expresso no gacha game Goddess of Victory: NIKKE, sentimento do qual a aventura de EVE compartilha; desde o anúncio em 2019, quando ainda se chamava Project EVE, Stellar Blade deixou evidente suas muitas semelhanças principalmente com NieR: Automata, da temática e roteiro ao visual.
O nível de atenção dado por Kim Hyung-Tae, produtor/diretor do game e CEO da Shift Up, ao derrière da EVE foi o mesmo que Yoko Taro dispensou ao da 2B, e o histórico do estúdio, de NIKKE ao gacha Destiny Child, que saiu do ar em 2021, deixa claro que a desenvolvedora dá grande foco ao design sensual/fofo/sexy de suas personagens, para atrair o público.
Essa estratégia não é nenhuma novidade e tampouco errada, ninguém jamais perdeu dinheiro apostando na libido alheia para lucrar mais, não importa o formato da mídia, mas sexo, ou mesmo a leve sugestão a ele, ainda é um tabu em games; tirando consoles, onde os marcados como "apenas para adultos" nunca serão permitidos, lojas como Steam e Epic Games Store têm critérios confusos, e até mesmo conflitantes, no que se refere à sua distribuição.

Uma das primeiras cenas do game; não, a EVE não está pelada (Crédito: Reprodução/Shift Up/Sony Interactive Entertainment)
Games sugestivos costumam ser indicados para jogadores a partir de 14 a até 18 anos (tal faixa foi também reservada a Mortal Kombat 1), dependendo do conteúdo; Stellar Blade recebeu classificação 16+ no Brasil, com alerta para a representação ingame de "violência extrema, conteúdo sexual, e drogas lícitas".
Até o lançamento de Stellar Blade, mesmo com o sucesso financeiro de NIKKE, um dos gachas mais lucrativos do mercado, a Shift Up era considerada uma desenvolvedora pequena, mas tão logo o game chegou ao PS5 em abril de 2024, ele se tornou um sucesso de vendas, que só precisou de dois meses para alcançar a marca de um milhão de cópias vendidas, baseado quase que puramente no fanservice, mas escorado em uma boa jogabilidade e um desafio decente, afinal, visual atraente com foco nos jogadores "degenerados" não sustenta um game por si só.
Como resultado, a Shift Up foi a IPO na bolsa sul-coreana, e no momento da publicação deste artigo, está avaliada em ₩ 3,02 trilhões (~R$ 12,16 bilhões, cotação de 17/06/2025); Kim Hyung-Tae hoje faz parte do seleto grupo de bilionários da Coreia do Sul, e controla 39% do estúdio.
A gigante Tencent, que distribui Stellar Blade na China e NIKKE globalmente (através da subsidiária Level Infinite, publisher de PUBG Mobile), detém 35% das ações, como não podia deixar de ser.
O que nos traz ao lançamento para Windows em junho de 2025, puxado por otimizações para o PC (apesar do Denuvo) e todos os conteúdos lançados para o PS5, aliados a uma disputa com a Sony Interactive Entertainment (SIE) que derrubou a exigência de login na PSN em alguns dos games por ela distribuídos.
Motivo? Uma vez liberado para ser vendido em mais de 200 países, ao invés dos pouco mais de 100 onde a PSN está disponível, Stellar Blade alcançou a marca de 1 milhão de cópias vendidas no PC em apenas 72 horas; somando o PS5, a Shift Up diz que o título vendeu 3 milhões de unidades, o que é uma marca ótima.
Vale anotar que, assim como aconteceu com Black Myth: Wukong, a China é uma força considerável na venda de títulos mais voltados ao público oriental, já que o País do Meio responde por 56% da base instalada de Stellar Blade. Não por acaso, ele ganhou dublagem e legendas em chinês ausentes no lançamento original, com direito a sincronia labial tal qual os demais idiomas presentes, incluindo o japonês, dublagem agora liberada para todos e não mais restrita ao Japão.

EVE é tão sexy quanto 2B e Bayonetta, e também tão boba quanto Dante, de Devil May Cry (Crédito: Reprodução/Shift Up/Sony Interactive Entertainment)
Não só isso, o game bateu todos os recordes no Steam entre os títulos distribuídos pela SIE, se tornando o single player com o maior número de jogadores simultâneos; o pico atual, no momento em que este post vai ao ar, é de 192.078 jogadores, contra 77.154 da versão Director's Cut de Ghost of Tsushima.
Helldivers 2, graças à sua natureza multiplayer, é sem surpresa o campeão entre os games da SIE nesse quesito (458.709 jogadores), mas até mesmo os gloriosos soldados da Super Terra foram superados pelo Booty Power da EVE, que reina isolado com o maior número de jogadores num espaço de 24 horas, anotando 170.880 contra 67.486, de novo, apenas entre os games mais populares distribuídos pela Sony no Steam, sem contar os de outras desenvolvedoras.
Embora Stellar Blade seja um ARPG excelente, ainda que clichê, é preciso admitir que a popularidade imediata do game se dá ao seu foco no visual e fanservice, como tantos outros games antes dele; não surpreende ele marcar mais de 350 mil downloads no site Nexus Mods (que foi recentemente vendido), a grande maioria dos mods obviamente pr0n ou sensuais, incluindo os óbvios que deixam EVE e outras personagens femininas nuas, que alteram seus dotes físicos, ou que introduzem roupas mais sugestivas que as originais.
No meio disso tudo, chega a ser curiosa a declaração de Kim Hyung-Tae de que ele prefere mods que adicionem à jogabilidade de Stellar Blade no PC, ao invés do pr0n, e que o público deverá conscientemente se afastar de alterações "antissociais", enquanto diz que a Shift Up fez melhor no geral, com conteúdos como as colaborações de NieR: Automata e Goddess of Victory: NIKKE.
Curiosamente, o mod favorito do produtor é o que transforma Doro, um NPC introduzido pelo DLC de NIKKE (que surgiu de um meme, mas acabou "adotado" pelo gacha) em um companheiro.
Pode até parecer que o CEO da Shift Up está cuspindo no prato que comeu, diminuindo a importância dos gamers que se interessaram por Stellar Blade pelo apelo sexual em primeiro lugar, que são muitos, mas eu entendo que o diretor/produtor não quer que o game, que receberá uma sequência no futuro, fique conhecido apenas por isso, da mesma forma que NieR: Automata e a série Bayonetta, excelentes títulos de ação por mérito próprio, tanto quanto a jornada da EVE.
Ao mesmo tempo, não dá para dissociar a impressão inicial, nem negar o fato que boa parte de seu sucesso se deve aos jogadores que adoram bundas tanto quanto a equipe da Shift Up, seja em Stellar Blade ou em NIKKE, ou no futuro Project Spirits, que também será distribuído globalmente pela Tencent e muito provavelmente seguirá a mesma fórmula, afinal, sexo vende.
E continuará vendendo.