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Ebola, Trump, OMS, fim do USAID e "vocês que se virem"

Trump impede americanos infectados por Ebola no Congo de voltarem para casa, e quer despachá-los para o Quênia; deu ruim, claro

12/06/2026 às 11:00

A febre hemorrágica causada pelo vírus Ebola é uma das doenças mais terríveis de que se tem notícia, por ser extremamente contagiosa e de letalidade altíssima, com uma taxa de mortalidade que varia entre 25% e 90%, dependendo da variante (há seis delas, mais e menos virulentas; a pior é a do Zaire) e de onde o paciente é tratado.

O surto mais recente estourou na República Democrática do Congo (RDC) em maio de 2025, e já conta com 676 casos registrados, 119 sob suspeita e 136 mortes, enquanto a vizinha Uganda registra 19 casos e duas mortes; a suspeita é que a variante de Bundibugyo (BDBV) de origem ugandense está circulando há meses na região.

Microfotografía de um vírion (partícula inerte e infecciosa) do vírus Ebola (Crédito: Cynthia Goldsmith/U.S. Centers for Disease Control and Prevention)

Você definitivamente não quer chegar perto desse carinha (Crédito: Cynthia Goldsmith/U.S. Centers for Disease Control and Prevention)

Muitos entendem que a situação poderia ter sido melhor enfrentada por médicos e pesquisadores se Donald Trump não tivesse removido os Estados Unidos da Organização Mundial de Saúde (OMS) e aniquilado a Agência para Desenvolvimento Internacional (USAID), outrora a maior organização de ajuda humanitária do planeta. Como se não bastasse, o Topknot Man pretende proibir cidadãos americanos que foram infectados na área de voltarem para casa.

A solução que Trump deu para que sejam tratados é despachá-los para o Quênia, em um acordo fechado com o governo local para a construção de uma zona de quarentena; o problema é que os quenianos não querem nem saber disso.

Trump sobre Ebola: "Essa é do aspira (África)"

A doença por Ebola é caracterizada inicialmente por febre, cansaço, dores no corpo e dor de cabeça, que rapidamente evolui para vômitos, diarreia e manchas na pele, culminando em hemorragia generalizada, interna e externa; o paciente começa a sangrar por todos os orifícios do corpo, incluindo os olhos. O tempo entre a infecção e morte por perda generalizada de fluidos corporais varia entre 6 dias e duas semanas.

A RDC, país antes conhecido como Zaire, já passou por vários surtos de Ebola ao longo dos anos, desde que a doença foi identificada pela primeira vez em 1976. O paciente zero ainda não foi identificado, mas há suspeitas de um "superpropagador" (infectado que contamina um grande número de pessoas, desproporcionalmente maior ao da média de contágios), um pastor morto em fevereiro de 2026 por infecção abdominal, que não chegou a ser testado para a doença.

Mais de 80 pessoas compareceram ao funeral, e duas semanas depois, cerca de 50 pessoas da região haviam morrido, muitos com sintomas similares aos do Ebola, incluindo o mais óbvio, hemorragia.

A situação como um todo não é nada boa: um modelo recente de dados CDC (Centro para Controle de Doenças), o órgão dos EUA equivalente à Anvisa no Brasil, estima que no pior cenário possível, isolando apenas 20% dos casos, cerca de 20 mil pessoas serão infectadas e 4 mil morrerão nos próximos três meses. Como a região subsaariana historicamente carece de tudo, é importante o apoio e auxílio de órgãos externos no combate à infecção e amparo dos doentes, como os Médicos Sem Fronteiras (MSF) e a USAID.

Exceto que essa última foi desmantelada pelo DOGE (Departamento de Eficiência Governamental) em 2025, sob tutelagem do bilionário Elon Musk e ordens expressas de Trump, cortando milhões de dólares em financiamento para ações de saúde pública, como combate ao Ebola, AIDS e à fome, sob a desculpa de "cortar gastos"; para piorar a situação, o presidente removeu os EUA da OMS, limitando o que organizações e profissionais do país podem fazer fora de suas fronteiras.

Profissional de saúde desinfeta ambulância usada para transportar paciente com suspeita de Ebola para o centro de tratamento de Mongbwalu, na RDC (Crédito: Moses Sewasawa/AP)

Profissional de saúde desinfeta ambulância usada para transportar paciente com suspeita de Ebola para o centro de tratamento de Mongbwalu, na RDC (Crédito: Moses Sewasawa/AP)

Por mais que alguns digam que "cada país que cuide de si", a USAID realizava ações cruciais na África e em outras regiões do globo, inclusive nas áreas mais pobres do território brasileiro, especificamente no combate e prevenção à AIDS, provendo auxílio quando o Estado não consegue (ou não quer) ajudar a população; segundo estimativa da Universidade de Harvard, o fim do órgão teria matado "centenas de milhares" de pessoas ao redor do mundo, de fome ou doenças.

Piora? Claro que piora.

Mesmo sem a USAID, há profissionais americanos na RDC ajudando no combate ao surto, bem como existem nativos americanos residindo no país. Como Murphy não perdoa, alguns desses foram infectados e, por razões mais do que óbvias, têm o direito de serem repatriados para os EUA de modo a receberem tratamento de primeira linha.

Só tem um pequeno problema: o governo Trump já avisou que não vai permitir a entrada deles, mesmo se forem cidadãos americanos nascidos no território, sob a justificativa de bloquear a "importação" do vírus do Ebola. A solução dada chega a ser bem mesquinha e provinciana: mover os doentes para o Quênia que, vale lembrar, tem zero casos de Ebola até o momento.

A iniciativa, que estaria sendo discutida com o governo queniano, envolveria a construção de um centro de quarentena no país para mover os doentes americanos e tratá-los longe do foco na RDC, e igualmente o mais longe possível dos EUA. A Suprema Corte do Quênia foi contra a proposta, ao emitir uma ordem de suspensão temporária da construção, que continua em curso em uma base aérea, tocada pelo Comando Africano dos EUA, que está usando trocas americanas estacionadas no Djibouti e adicionais da Europa.

Como era de se esperar, o povo do Quênia não curtiu muito.

Uma onda de protestos explodiu na cidade de Nanyuki, a mais próxima da base onde o centro está sendo construído, e pelo menos três pessoas já foram mortas em confrontos com a polícia, que está respondendo com a truculência habitual.

Ao que tudo indica, o Poder Executivo local não vê problema com os EUA cuidando de seus doentes em seu território, porque não querem recebê-los em casa, enquanto os quenianos temem (com justa razão) o surgimento de um novo foco do Ebola, em um país que até o momento não registrou nenhum caso.

A ordem temporária de restrição imposta pela Suprema Corte do Quênia deve durar até 23 de junho, quando o governo seria (em tese) obrigado a apresentar justificativas para a obra ao Judiciário, mas dado que os planos de Trump para não ter que tratar ninguém com Ebola seguem sem problemas, fica difícil esperar por uma resolução diferente dos EUA se repassando problemas para outros, mesmo que estes sejam seus próprios cidadãos.

Fonte: Ars Technica

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