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Finja surpresa: Trump não desistiu de cortar orçamento da NASA

Casa Branca apresenta proposta de orçamento da NASA para 2027, buscando novamente reduzir dinheiro destinado à Ciência pela metade

06/04/2026 às 8:30

Fato: a NASA não tem um segundo de paz, mesmo quando tudo parece estar dando certo. Enquanto a agência espacial comemora uma missão para lá de tranquila com a Artemis II, prestes a realizar o primeiro flyby lunar tripulado em décadas, o presidente dos Estados Unidos Donald Trump preparava a proposta de orçamento do governo para o ano de 2027.

Se você imaginou que o Topknot Man repetiu os mesmos cortes que tentou da última vez, acertou: o documento apresentado pela Casa Branca sugere uma redução geral de 23% na verba destinada à NASA no próximo ano, incluindo mais uma vez um corte violento de quase 50% em tudo relacionado à Ciência, que a deixaria virtualmente sem grana para manter qualquer tipo de projeto ou missão atual.

Logo da NASA no Centro Espacial Kennedy, Flórida, EUA (Crédito: Jessie Hodge/Flickr)

No que depender de Trump, desta vez a NASA não vai escapar de apertar o cinto (Crédito: Jessie Hodge/Flickr)

A diferença é que, desta vez, o administrador da NASA Jared Isaacman concorda com os cortes e deve endossá-los, como forma de focar o trabalho da agência naquilo que Trump quer: Lua e Marte.

NASA vs. Trump, Round 2

O documento que delineia a proposta de orçamento para o ano fiscal de 2027 (cuidado, PDF) traz algumas obviedades, como o aumento substancial de 44% no orçamento do Departamento de Guerra, sempre o setor que fica com a maior fatia do bolo, que saltaria de US$ 1 trilhão (~R$ 5,16 trilhões, cotação de 06/04/2026) em 2026 para US$ 1,44 trilhão (~R$ 7,43 trilhões) em 2027.

A justificativa para isso é o Golden Dome, uma constelação global de satélites interceptadores de mísseis (sim, armas no Espaço), voltados a derrubar qualquer coisa lançada contra os EUA, uma versão atualizada do Programa Guerra nas Estrelas de Ronald Reagan.

A NASA recebeu em 2026 US$ 24,438 bilhões (~R$ 126,1 bilhões), ou 2,44% do montante dedicado ao Departamento de Guerra, e isso após meses de brigas entre o Executivo, que queria liberar apenas US$ 18,809 (~R$ 97,07 bilhões), e o Congresso, que, por um motivo ou outro, era contra os cortes que se concentrariam em projetos científicos, o setor mais afetado. No fim, valeu a proposta do Legislativo, mas era certo que Trump não gostou nem um pouco disso.

Com a proposta de 2027, o presidente voltou a bater na mesma tecla e restaurou todas as propostas de redução de orçamento originalmente apresentadas no último ano: a verba geral seria limitada a US$ 18,8 bilhões (~R$ 97,02 bilhões), uma redução de 23% ou US$ 5,6 bilhões (~R$ 28,9 bilhões). O setor mais afetado é novamente o de Ciências Terrestres, que de US$ 7,25 bilhões em 2026 (~R$ 37,4 bilhões) receberia apenas US$ 3,85 bilhões (~R$ 19,9 bilhões), um corte de US$ 3,4 bilhões (~R$ 17,5 bilhões) ou 47%.

Outros cortes envolvem uma redução de US$ 1,1 bilhão (~R$ 5,7 bilhões) no orçamento da Estação Espacial Internacional (ISS), cujo cronograma para descomissionamento seguiria o plano original de derrubá-la em 2030, ignorando a ideia de estender seu uso até 2032, e zerar a verba destinada a programas de DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão) voltados ao incentivo de minorias para carreiras em STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática)

Este seria um lembrete de que a cartilha do Projeto 2025 da Heritage Foundation deve ser seguida à risca, mesmo sendo uma imbecilidade completa.

Administrador da NASA Jared Isaacman, durante audiência no Senado dos EUA em abril de 2025 (Crédito: Ken Cedeno/Reuters)

Jared Isaacman, o atual administrador da NASA, defende os cortes propostos como necessários para manter os EUA na posição de potência espacial (Crédito: Ken Cedeno/Reuters)

O documento detalha o fim dos programas SLS e Orion, ditos como "terrivelmente caros e atrasados", que serão substituídos por plataformas comerciais de companhias como SpaceX e Blue Origin; o intuito é poupar terceirizando tudo e reservar mais grana para a base lunar permanente, parte da Ordem Executiva 14.369 destinada a "assegurar a supremacia americana no Espaço", o que inclui os desenvolvimentos ligados ao Golden Dome.

O orçamento também cita o cancelamento da problemática missão Mars Sample Return e da estação Gateway, cujas partes já construídas serão redirecionadas para outros propósitos.

No que tange aos cortes voltados às Ciências Terrestres, Trump outra vez não quis nem saber e ordenou que mais de 40 missões "de baixa prioridade" sejam encerradas, incluindo o programa SERVIR em parceria com a USAID, agência virtualmente desmantelada pelo DOGE de Elon Musk, pondo em risco milhões de pessoas ao redor do mundo.

Assim como aconteceu no último ano, as propostas de cortes visam o único objetivo de focar os esforços da NASA única e simplesmente na exploração espacial, tanto que o programa voltado ao retorno de astronautas à Lua até 2028 foi o único que recebeu um incremento de US$ 731 milhões (~R$ 3,78 bilhões). Tudo o que não for ligado ao estabelecimento de tecnologias que garantam American boots on the Moon and Mars, e antes da China, Rússia ou qualquer outro país (Trump deixou até a ESA de fora), será posto de lado e descartado.

Embora a proposta de 2027 não faça menção, é possível que boa parte dos planos "sabotados" pelo Congresso em 2026, que previam o encerramento de missões em curso como a Juno, CHANDRA e outras, a consolidação de departamentos (que poderia culminar no fechamento inclusive do Centro Goddard, que controla as missões dos telescópios espaciais Hubble e James Webb) e demissões em massa voltem eventualmente à pauta.

A grande diferença entre o ocorrido antes e agora é que a NASA tem um administrador efetivo, Jared Isaacman, que será incumbido de endossar a proposta de Trump diante do Congresso. Em nota acessória, ele disse que os cortes e redirecionamento da NASA em direção à Lua e Marte, e menos foco em Ciência na Terra e no Espaço, "enfatizam a liderança americana na exploração do espaço profundo, fortalecem a base industrial da nação e aceleram o desenvolvimento de inovações tecnológicas que beneficiarão o povo americano".

Isaacman, que já foi preterido do cargo uma vez, basicamente não quer irritar Trump de novo por "falta de lealdade" e, desta vez, fará tudo o que o chefe mandar.

Donald Trump, 47.º presidente dos EUA (Crédito: Chip Somodevilla/Getty Images)

Donald Trump quer dominância dos EUA no Espaço, não Ciência (Crédito: Chip Somodevilla/Getty Images)

Considerando que tanto a Casa dos Representantes quanto o Senado dos EUA não gostaram nem um pouco da proposta de cortes apresentada por Trump da última vez, e até a ala republicana (especialmente o senador do Texas Ted "Zodíaco" Cruz, atual líder do comitê de Comércio, Ciência e Transporte) ficou contra o presidente, ainda que por motivos de redução de vantagens e controle de propriedades (leia-se o cancelamento do SLS), é fato que o Executivo e o Legislativo vão bater cabeça outra vez.

Na ocasião, o presidente até ameaçou passar por cima dos legisladores com uma ordem executiva a ser endossada pela Suprema Corte (SCOTUS), e o arranca-rabo geral entre as partes sobre a proposta como um todo (não limitada à NASA) levou ao shutdown mais longo da história dos EUA, que durou 43 dias.

Fonte: Ars Technica

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