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NASA: Isaacman barrado por "falta de lealdade" a Trump

Jared Isaacman, que doou dinheiro a democratas, perdeu proteção com saída de Elon Musk; diretor da NASA deve ser "totalmente alinhado" a Trump

1 ano atrás

No último sábado (31), a Casa Branca anunciou a retirada da indicação de Jared Isaacman, o bilionário financiador do projeto Polaris Dawn, para o cargo de administrador da NASA, apenas alguns dias antes do Senado dos Estados Unidos confirmá-lo em votação; a ação foi confirmada após fontes próximas vazarem o ocorrido à imprensa.

Segundo o informe oficial, Isaacman teria sido dispensado por "não se alinhar" completamente com a agenda America First do presidente Donald Trump, que deverá anunciar um novo indicado em breve.

Jared Isaacman, então indicado ao cargo de administrador da NASA, durante audiência no Senado dos EUA em abril de 2025 (Crédito: Ken Cedeno/Reuters)

Jared Isaacman, então indicado ao cargo de administrador da NASA, durante audiência no Senado dos EUA em abril de 2025 (Crédito: Ken Cedeno/Reuters)

Jared Isaacman não é MAGA o bastante

As primeiras informações sobre a dispensa de Isaacman foram noticiadas pelo site Semafor, o que pegou todo mundo de surpresa. Embora inicialmente recebido com certa resistência no Congresso, principalmente por sua proximidade com Elon Musk, que viabilizou o voo da Polaris Dawn (e que para quem ele ainda deveria dinheiro), seu perfil de empreendedor pé-no-chão teria acalmado os ânimos dos parlamentares, principalmente por se comprometer com o Programa Artemis e o foguete SLS.

No entanto, o governo Trump já havia declarado anteriormente (talvez por influência de Musk, que quer sua Starship favorecida) a intenção de cancelar completamente o programa de retorno à Lua, incluindo as duas próximas missões, Artemis II (voo lunar orbital tripulado) e Artemis III (pouso na Lua), e mandar tanto o SLS, quanto a cápsula Orion e a estação Gateway para a vala. E a Boeing que se rale.

Se Jared Isaacman estava fazendo promessas que iam de encontro com o que Trump demonstrava ser o foco, de priorizar um voo tripulado a Marte, como que o empresário ainda continuava indicado para assumir a NASA? A resposta novamente repousa em Elon Musk: por mais que o dono da SpaceX seja detestado no Congresso, sua proximidade com o presidente, através do DOGE, deu ao amigo costas quentes, permitindo inclusive que ele driblasse "critérios de pureza" impostos por republicanos.

Uma dessas "gafes", Isaacman fez doações para campanhas de democratas em eleições anteriores, ainda que ele tenha também direcionado US$ 2 milhões para o comitê de Trump em 2024, em especial; outra é sua oposição aos cortes propostos pelo governo à NASA, que serão violentos (mais a seguir).

Isaacman podia ser visto de soslaio pelos republicanos, mas a presença de Musk dentro do governo lhe garantiu proteção; tão logo este deixou o DOGE (como contratado especial, ele só poderia permanecer 130 dias no cargo, e o prazo se encerrou dia 30/05/2025), membros mais radicais da ala republicana iniciaram um lobby para derrubar a indicação do fundador da Shift4, indiretamente, para punir o amigo.

O bilionário teria sido comunicado da decisão por telefone; procurado, ele não quis comentar o assunto.

Remoção de Isaacman seria punição a Musk, por ambos "não serem America First o bastante" para o GOP (Crédito: Divulgação/SpaceX)

Remoção de Isaacman seria punição a Musk, por ambos "não serem America First o bastante" para o GOP (Crédito: Divulgação/SpaceX)

No anúncio oficial da Casa Branca, realizado pela porta-voz Liz Hudson, a dispensa de Isaacman foi justificada da seguinte forma:

O administrador da NASA deve ajudar a humanidade a ir ao Espaço, e a executar a ousada missão do presidente Trump de fincar a bandeira americana em Marte (...).

É essencial que o próximo lider da NASA seja completamente alinhado à agenda America First do presidente Trump; um substituto será anunciado pelo presidente em breve.

Trocando em miúdos, Isaacman levou um pé na bunda por não ser MAGA o bastante.

Sem Musk por perto, suas ações públicas (questionar os cortes) e atos passados (doações a democratas) voltaram para mordê-lo com força, no que ele foi considerado inadequado para a função.

Um dos cotados para preencher o cargo de administrador da NASA, o tenente-general reformado da Força Aérea Steven L. Kwast, defende a militarização do Espaço, e uma tecnologia de transporte que mais parece coisa de história em quadrinhos; de qualquer forma, Trump deve indicar um novo candidato, que terá que passar pelo escrutínio do Congresso, nos próximos dias.

NASA: cortes, cancelamentos, e demissões

Um dos temas que levaram à queda de Isaacman, os cortes propostos no orçamento da NASA para o próximo ano, seguirão da maneira proposta e foram melhor detalhados na requisição mais recente. Dos US$ 24,8 bilhões (~R$ 141,2 bilhões, cotação de 02/06/2025) direcionados à agência em 2025, ela deverá receber US$ 18,8 bilhões (~R$ 106,9 bilhões) em 2026, uma redução de 24,2%.

Segundo a proposta (cuidado, PDF), apenas o departamento de Exploração Espacial receberá um incremento de verba, de US$ 7,7 bilhões para US$ 8,3 bilhões, o foco na missão tripulada à Marte, e com a Lua mantida, mas não sendo prioridade. Tudo o mais receberá menos grana, com destaque para o encerramento do escritório de incentivo a estudantes buscarem carreiras em STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia, e Matemática).

A justificativa (cuidado, PDF) se alinha com os planos de Trump em acabar com os esforços de DEI (Diversidade, Equidade, e Inclusão) em todas as agências governamentais:

O papel principal da NASA é a exploração espacial e, semelhante às gerações anteriores que foram inspiradas pelos pousos lunares da Apollo, a NASA inspirará a próxima geração de exploradores por meio de missões espaciais empolgantes e ambiciosas, e não por meio de subsídios a um programa woke de pesquisa em STEM, que prioriza alguns grupos de estudantes (leia-se minorias) em detrimento de outros, que tiveram impacto mínimo na força de trabalho aeroespacial.

Cortes na NASA afetarão tudo que não envolve a missão tripulada rumo a Marte (Crédito: NASA)

Cortes na NASA afetarão tudo que não envolve a missão tripulada rumo a Marte (Crédito: NASA)

O departamento mais afetado com cortes é o de Ciência, que terá reedução de 47% na verba, de US$ 7,3 bilhões para US$ 3,9 bilhões no próximo ano. Entre as mudanças, o governo Trump tem a intenção de cancelar a missão Mars Sample Return, mesmo ela sendo uma joint com a Agência Espacial Europeia (ESA), alegando que amostras de Marte deverão ser recolhidas durante a missão tripulada, agora prevista para a próxima década.

Outras missões que deverão ser canceladas são a New Horizons, a sonda que fotografou Plutão e está explorando o Sistema Solar exterior, e a Juno, que orbita Júpiter; o plano visa não mais deslocar verba para ambas, e encerrar todas as operações de monitoramento e coleta de dados;. Da mesma forma, a ISS deverá ser movida para o modo de manutenção, onde receberá menos missões, até ser descomissionada em 2030, e substituída por estações orbitais de terceiros.

Outros cancelamentos envolvem as sondas Mars Odyssey e MAVEN, bem como o lander Rosalind Franklin projetado para a missão ExoMars, aquela que seria realizada com a Rússia, não fosse uma certa "operação militar especial". O Telescópio Espacial Nancy Grace Roman está mantido, mas sofrerá redução de aproximadamente 50% da verba, tendo apenas US$ 156 milhões à disposição em 2026.

A proposta de orçamento também cita a intenção de colocar astronautas na Lua antes da China, mas, ao mesmo tempo, propõe o cancelamento do SLS, da cápsula Orion, e da estação Gateway, em prol de "sistemas comerciais com melhor relação custo/benefício", um provável aceno à Starship de Elon Musk; ao que tudo indica, a Casa Branca não acredita que Pequim será capaz de mandar uma missão tripulada à Lua antes da NASA, mesmo tendo que mudar todo o programa e dispensando o foguete pronto e seguro da Boeing, por ser "caro demais".

Por fim, os cortes preveem uma redução violenta de pessoal, o corpo de profissionais da NASA deverá ser reduzido em pelo menos 32%.

Um sênior da NASA, quando questionado pelo site Ars Technica sobre a situação, disse que a agência "está fodida" (sim, nesses termos); já um ex-profissional comentou que ela deverá operar em "modo de manutenção" sem Isaacman para fomentar inovação, tendo dinheiro apenas para operações básicas e fiscalização, exceto no que tange à missão Marte.

A proposta de orçamento ainda aguarda apreciação pelo Congresso; a ONG Planetary Society, fundada por Carl Sagan, acredita que ela não será aprovada, por ser um "Evento de Extinção em Massa" que efetivamente impediria a NASA de fazer mesmo o básico em Ciência, e por mexer em plataformas políticas como o SLS.

Fonte: Semafor, Space.com

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