Carlos Cardoso 20/06/2026 às 18:35
He-Man foi um fenômeno difícil de explicar, mas fácil de entender, se você entender a psicologia do público-alvo e como era o cenário de brinquedos do começo dos anos 1980.

Dessa vez ele tem até a Cruz de Malta! (Crédito: Divulgação/Metro-Goldwyn-Mayer/Mattel Studios/Escape Artists/Amazon MGM Studios/Sony Pictures)
Na época, a Mattel imprimia o próprio dinheiro com a Barbie, mas não era forte no segmento de bonecos para meninos. Alguns anos antes o CEO da empresa, em uma das decisões mais estúpidas da história dos negócios, rejeitou licenciar bonecos de Star Wars, e agora precisavam entrar no nicho dos meninos de 5 a 8 anos de qualquer jeito, o que pensando bem não ficou uma frase bem estruturada.
Eles tentaram licenciar outras franquias, como Flash Gordon e Battlestar Galactica, mas nenhuma tinha o mesmo apelo. Não ter controle sobre a propriedade intelectual também era um problema, sempre ficariam presos a uma licença. A decisão então foi criar algo original, com vários designers da empresa oferecendo ideias, mas as principais vieram de Mark Taylor (1941-2011), que baseou o Esqueleto em um... esqueleto, que ele viu em uma Casa do Espanto em um parque de diversões quando criança, e o apavorou (com razão, depois descobriram que era um cadáver de verdade).

Torak, uma das bases para o He-Man (Crédito: Netflix)
O visual básico de He-Man veio de Torak, um guerreiro bárbaro genérico que Mark criou quando era adolescente. Em uma deliciosa homenagem, Torak tem um lugar de destaque no filme de 2026.
Depois de inúmeras iterações, a Mattel fechou em um conjunto de personagens e uma história de fundo, com Eternia, um planeta no centro do Universo, com heróis defendendo um poder imenso que manteria o Universo unido, algo bem vago, mas para dar importância ao grupo e justificar o nome Mestres do Universo, por si só extremamente pretensioso para um povo que na maioria nem havia inventado as calças.

Esboço original que se tornou a Teela (Crédito: Netflix)
O visual dos personagens era BEM atraente, e seja lá o que os criadores da Mattel fumassem, provavelmente vinha do Ceará, era material de primeira, os bonecos saíam criativos, originais e diferentes de tudo que as crianças estavam acostumadas.
Um problema que os lojistas apontaram foi a falta de contexto, eles achavam que as crianças não saberiam o que fazer com os bonecos. Os executivos da Mattel bullshitaram que haveria revistas em quadrinhos acompanhando os bonecos, e foi uma correria danada para produzir os gibis.
No primeiro ano, em 1982, as estimativas internas eram de US$ 12 milhões (US$ 41,4 milhões em 2026) em vendas de bonecos do He-Man. Venderam US$ 40 milhões (US$ 138 milhões em 2026), o que foi excelente, mas a Barbie vendia US$ 250 milhões (US$ 862,7 milhões em 2026), e Star Wars vendia US$ 150 milhões (US$ 517,6 milhões em 2026). Havia mercado a ser explorado.
Nisso a Toys-R-Us, maior cadeia de lojas de brinquedos dos EUA apontou um pequeno problema: garotos de 5 anos não leem gibis. Outras franquias vendiam muito bem pois tinham desenhos atrelados a elas. A solução? Lançar um desenho do He-Man.
Os personagens e a história foram “amansados”, He-Man não era mais um bárbaro meio sanguinário, foi adicionado bastante humor, personagens secundários mais leves, e o próprio príncipe Adam foi criado para mostrar um lado mais “civilizado” do He-Man.
Produzido pela Filmation, He-Man and the Masters of the Universe era feito com orçamento de conserto de geladeira, ninguém queria — nem tinha capacidade — de ser uma Disney. A produção, como quase tudo na época, era terceirizada com estúdios de animação nas Filipinas, Japão e Pior Coreia.
Mesmo crianças, percebíamos que havia muitos truques para economizar grana no desenho; os corpos dos personagens eram padronizados, a Teela e a Maligna eram iguais até nos detalhes das roupas.

Eles nem tentavam... (Crédito: Reprodução/Filmation/Mattel)
Também havia muita reutilização de cenas, cenários e movimentos, mas quer saber? NINGUÉM LIGAVA, e a popularidade do He-Man estourou com o desenho. Em 1983 as vendas dobraram para US$ 80 milhões, e em 1986 atingiram um pico de insanos US$ 400 milhões. Isso provocou um climão interno com a turma da Barbie, que viu He-Man vender mais do que a boneca-símbolo da empresa. Pior: 40% do público do He-Man eram... meninas.
She-Ra: Princess of Power foi lançada em 1986 para faturar um pedaço desse mercado, e os “meninos” da Mattel não gostaram nada, foi uma ciumeira geral, mas o importante é que em 1987 He-Man foi DIZIMADO nas lojas, as crianças simplesmente pararam de comprar bonecos, as vendas caíram de US$ 400 milhões para US$ 7 milhões.
De lá para cá, foram várias séries, mas nenhuma chegou perto do impacto cultural e econômico do original:
A queda de popularidade do He-Man tem várias explicações: fadiga dos personagens, excesso de bonecos com personagens totalmente irrelevantes, o surgimento de novas franquias e crianças com mais opções, pulverizando as escolhas. Pessoalmente acho que He-Man virou “mais do mesmo”, não havia desenvolvimento de personagens, ninguém evoluía como nos desenhos clássicos, havia um Grande Reset e o Status quo era revertido ao do início da história.
As crianças cresceram, a história não e, ao contrário dos livros, o público não se renovou.
Mesmo assim He-Man marcou uma geração, pois do ponto de vista de uma criança de 9, 10 anos, He-Man era a fantasia escapista perfeita, repleta de arquétipos. Temos o jovem príncipe incompreendido e menosprezado por todos, mas que secretamente é o herói mais forte do Universo. Temos o Mal, mau feito o Pica-Pau, sem nenhuma possibilidade ou desejo de redenção, He-Man é totalmente maniqueísta, mas é justo e entende que o Esqueleto merece ser respeitado enquanto pessoa, e tem seus direitos.
Temos monstros, dragões, magia, mistérios, tigres falantes e espadas mágicas. Por um lado a história simples e repetitiva dava às crianças espaço para usar a imaginação e criar nossas próprias histórias, não havia um “fim” objetivo.
Para a turma preocupada com a “lacração” dos filmes de hoje, aviso que He-Man sempre “lacrou”. Ele era forte, mas justo, defendia os oprimidos, lutava contra a injustiça e a discriminação. Tratava todos com respeito e aceitava as diferenças. He-Man nunca foi um brucutu. He-Man nunca impôs sua vontade usando a força.
Em 1987 fomos surpreendidos com um FILME de He-Man, era a realização de um sonho. Como He-Man, ninguém menos que Dolph Lundgren, um sujeito que não era mouca perda não, ele havia matado Apollo Creed! Frank Langella como Esqueleto, elenco promissor, mas assim que o filme começa, há algo errado. É um filme sabor He-Man. Alguém não entendeu ou se interessou muito pelo material original, e ao temos um He-Man da Shopee...
Todo mundo saiu do cinema se sentindo enganado, e que diabos é um Gwildor?
Décadas se passaram, e mesmo várias séries depois, He-Man nunca mais foi o mesmo. Algumas chegaram perto, a do Kevin Smith, Masters of the Universe Revelation/Revolution foi bem legal, com direito ao Gorpo chutando bundas!
O que ninguém esperava era um novo filme do He-Man, e definitivamente ninguém pediu um filme com o famoso quem Nicholas Galitzine como He-Man, o problemático (quando EU uso esse termo, a coisa é séria) Jared Leto como Esqueleto e direção de Travis Knight, um sujeito que antes disso só dirigiu Bumblebee e... Kubo e as Cordas Mágicas.
OK, Idris Elba como Mentor ninguém pediu, mas pelo menos dessa ninguém reclamou.
O trailer parecia correto, o He-Man estava meio magrelo, e o visual todo era meio genérico, e o tempo todo, a grande pergunta era “para quem é esse filme?” Crianças? Não, o estilo era realista demais. Fãs da antiga? Talvez, mas estamos mais que queimados, sabendo o tratamento que Hollywood dá a essas histórias antigas.
Eu e basicamente todo mundo que conhecia He-Man fomos assistir ao filme com uns três pés atrás, má-vontade no 11, mas um milagre de Natal fora de época aconteceu.
He-Man é uma história complicada de adaptar sem perder o tom original. É uma história de bem contra o mal, feita para garotos de cinco, seis anos de idade, acima disso o que vier é (literalmente) lucro. Os personagens são bobos. Os nomes são bobos. He-Man é literalmente tão bobo quando “Ele-Homem”. Não é Spider-Man, Ultraman, é Man-Man. Até a Teela, que tinha um nome decente, nos bonecos ganhou o título de Deusa Guerreira.
É como se Star Wars passasse com C3PO e R2D2 conhecidos como Dourado e Latinha.
No filme as tropas do Esqueleto invadem a capital de Eternia, Mentor falha em proteger a Família Real. No último momento o jovem Príncipe Adam e a Espaça Justiceira do Poder são mandados para a Terra, planeta-natal da Rainha Malena, mãe de Adam.
Eternia sofre nas mãos do Esqueleto, enquanto Adam cresce entre humanos, se esquecendo de suas origens, com suas memórias de um garoto de nove anos preenchendo as lacunas, desenhando seus amigos do passado, e dando a eles nomes bizarros como Mandíbula, Fisto, Aríete.

Fisto. Sério, meu... (Crédito: Divulgação/Metro-Goldwyn-Mayer/Mattel Studios/Escape Artists/Amazon MGM Studios/Sony Pictures)
Sim, foi uma solução BRILHANTE para justificar os nomes bobos, que só uma criança acharia legais. Uma criança criou os nomes.
Teela rouba uma nave, e vai atrás de Adam, agora um homem adulto, obcecado em encontrar sua espada. Temos ótimas cenas do Adam no RH da empresa, tomando chamada da chefe, e uma participação especial afetiva na academia, onde Adam recebe conselhos de um coroa louro, e foi uma passada de tocha linda e digna, estou olhando para vocês, minas do Ghostbusters 2016.
Quando Adam acha a espada, um sinal é emitido, Teela a localiza, junto com forças do Esqueleto. Depois de uma briga na Terra, eles voam para Etérnia, onde He-Man se junta à Resistência, que inclui um Mentor amargurado deprimido que se entregou à cachaça.

Mentor chuta bundas nesse filme. (Crédito: Divulgação/Metro-Goldwyn-Mayer/Mattel Studios/Escape Artists/Amazon MGM Studios/Sony Pictures)
Adam descobre como a espada funciona, com ajuda da Feiticeira de Grayskull, e se prepara para enfrentar as tropas do Esqueleto, quando este revela que os pais de Adam ainda estão vivos, e ele deve se render.
Confusões acontecem, brigas acontecem, tragédias acontecem, e no final o Esqueleto é derrotado, como em todo episódio, e este também termina com liçãozinha de moral.
Colocando assim, He-Man parece um simples episódio do desenho, e vou contar um segredo: É! A estrutura narrativa é bem simples, mas assim como o Arqueiro, He-Man tem coração, e muito.

He-Man está de volta! (Crédito: Divulgação/Metro-Goldwyn-Mayer/Mattel Studios/Escape Artists/Amazon MGM Studios/Sony Pictures)
Adam é mostrado como um menino frágil e tímido, forçado pelo pai a ser um guerreiro, ele é treinado pelo Mentor com outros meninos e meninas, e apanha de todo mundo. O pai não aceita que ele seja frágil e indefeso. Há toda uma discussão sobre masculinidade tóxica, mas mais tarde o Rei Randor explica que ele estava protegendo Adam, o mundo era um lugar cruel e ele precisava saber se defender.
Mentor, bem, o que é o Mentor? Idris Elba virou um Mandaloriano. Há uma longa sequência onde ele usa todos os seus truques e armas, e fiquei querendo pelo menos uma trilogia solo do personagem. Ter toda aquela habilidade e perder foi demais para ele, e entendemos perfeitamente sua decadência. A volta de Adam é o catalisador para sua redenção.
Temos um sujeito chamado Mecaneck que estica um pescoço biônico, um fistador chamado Fisto, Homem-Fera, uma vilã chamada Maligna e um sujeito que é uma caveira. He-Man NUNCA poderia ser feito a sério, mas existe uma linha tênue entre não se levar a sério e se autoridicularizar. He-Man não é uma paródia. He-Man tem o pedigree e a alma de Galaxy Quest, outro filme que parece zoeira, mas é uma declaração de amor ao material original.
Os personagens reclamam dos nomes criados por Adam, mas não falam seus nomes verdadeiros. Há várias cenas que remetem a momentos familiares; Adam ri como no clássico meme. Ainda no tema da risada, no final alguém faz uma piadinha e todos riem em conjunto, mas riem muito, e ficam se entreolhando, uma zoada na clássica cena final de desenhos dos Anos 80.
He-Man está sempre a alguns milímetros da zoeira, mas para na beiradinha, com um afago, “olha, eu sei que é bobo, mas eu gostava”.
Jared Leto é o pior Coringa de todos os tempos, um sujeito insuportável, com acusações complicadas de desvios morais, profissionais, sexuais, artesanais, sei lá. Só que sabe-se lá o motivo, ele ficou perfeito como Esqueleto. Ele deu o tom idêntico ao original, um vilão devorador de cenários, exagerado ao extremo e que o povo em volta às vezes não consegue acompanhar.

O Esqueleto está PER-FEI-TO (Crédito: Divulgação/Metro-Goldwyn-Mayer/Mattel Studios/Escape Artists/Amazon MGM Studios/Sony Pictures)
Esqueleto ri das próprias piadas, pede para os capangas acompanharem, faz observações inadequadas quanto à tanguinha e à espada do He-Man, ele é quase uma caricatura de um vilão, só não o é porque o original já era, o que gera o sentimento conflitante de vermos uma atuação exagerada e canastrona, mas ao mesmo tempo 100% fiel ao que estamos acostumados.
Só que esse esqueleto tem dentes, ele não é o vilão inofensivo do desenho, restrito por toneladas de regras de conduta, censura interna e o FCC. Esqueleto mata e é cruel, não fica só na ameaça. Mas tudo bem, as crianças de hoje em dia agüentam.
Uma quantidade insalubre de velhos filmes e desenhos foram refeitos com um toque de cinismo, com um desejo de transformar as histórias antigas em versões modernosas, sempre com um componente destrutivo. Um dos remakes dos Thundercats transformou a civilização de Thundera em opressores, todas as outras espécies eram subjugadas pelos gatos.
Em Star Wars: Os Últimos Jedi, Luke Skywalker vira um velho cínico e derrotado que abandonou os Jedi. Em Masters of the Universe: Revelation, Kevin Smith mata o He-Man logo no primeiro episódio e usa o universo para fazer uma desconstrução adulta e pessimista da história original, focando em outros personagens. O Coringa deixa de ser um vilão insano e se torna uma incompreendida vítima da sociedade. Pombas, até Cobra Kai, uma farofa que eu adoro, transforma Daniel LaRusso no babaca da história.
Tudo precisa ser sombrio e político, como um filme do DCU.
He-Man não desconstrói nada. Absolutamente tudo é como no original, todo mundo reclamando de “lacração” não assistiu aos desenhos na Globo. Ele não é bárbaro sanguinário, ele é um arquétipo de um homem bom, puro e justo, que também é o Homem mais poderoso do Universo.
He-Man ensinou que força por força não é o caminho, He-Man é o Jedi que usa seus poderes nunca para o ataque, mas está pronto para usá-los na defesa dos oprimidos. Sim, ele tenta conversar com o Esqueleto, essa é a Natureza do He-Man, mas o que os reclamões não falam é que quando o Esqueleto se recusa a ser razoável, e reafirma que é do Mal e gosta disso, He-Man SENTA A PORRADA nele como sempre desejamos ver, e ele não decepciona.
Teela nunca foi mocinha indefesa, ela sempre lutou lado a lado de He-Man, se no filme ela parece mais confiante, é porque ela é uma rebelde veterana e ele um sujeito deslocado que passou 15 anos na Terra, vivendo como órfão.

"Pacato" talvez não seja o nome mais adequado (Crédito: Divulgação/Metro-Goldwyn-Mayer/Mattel Studios/Escape Artists/Amazon MGM Studios/Sony Pictures)
Ele é um herói puro dos anos 1980, atualizado sem perder sua essência, sem cair no cinismo ou na agenda militante. Quem diz que o filme do He-Man agora faz campanha contra “masculinidade tóxica” nunca viu o desenho. He-Man NUNCA foi a favor de masculinidade tóxica, He-Man não é um bully, e Adam nunca foi um banana, esse papel era do Pacato, e sim, ele, admito, mudou um pouco. Ele continua redundante mas pombas, um tigre é um tigre, e ele vai pra porrada quando é preciso “mas da próxima vez eu quero uma armadura”.
Pacato, aliás foi um momento triste do filme, que nos leva à Diretriz Básica:
Foi chato saber que veria — e ouviria — o Pacato sem a voz do Orlando Drummond, mas quando a Sony confirmou que parou com uma Kombi cheia de dinheiro na porta do Garcia Jr. e falou “você vai dublar o He-Man e pronto”, ficou definido que só a versão dublada seria possível.
A voz de Adam/He-Man é algo que está marcado nas mentes e corações de gerações, ver He-Man dublado é algo natural, orgânico, e, bem, É o He-Man.
As outras vozes mudaram, a vida é assim, mas o Mário Jorge Andrade também voltou para seu personagenzinho na primeira cena pós-crédito. E o cinema adorou.
Há 3, uma logo após a cena final, uma no meio com o teaser para o próximo filme, e uma no finalzinho com o momento clássico de toda série com vilões recorrentes.
He-Man não é um filme cínico feito para desconstruir e “modernizar” personagens, He-Man não destrói o passado, ele o atualiza. He-Man não tem Midichlorians, He-Man não é Highlander 2, He-Man é — repito — Galaxy Quest.
Quem não conhece a mitologia da série vai achar um filme legalzinho, com belos efeitos visuais mas, sinceramente, uma Sessão da Tarde. Quem conhece vai ver uma rara reimaginação de um desenho de sua infância feita por gente que também o ama.
4,5/5 Geninhos
Sim, a Sony colocou a música do Trem da Alegria. Reclamações com a Diretoria.