Carlos Cardoso 17/06/2026 às 17:07
Spider-Noir é um projeto da Sony que deu certo, usando a fórmula “coloca o dinheiro na mão da MGM e cale a boca, volte quando estiver pronto”, em uma aposta toda focada no ego do Nicolas Cage, que é liberado para correr solto em uma viagem completamente diferente de tudo que se refere ao Homem-Aranha. Felizmente, Cage é um nerd de responsa, ama essa bagaça e o resultado é magnífico.

Noir and Ready! (Crédito: Divulgação/Pascal Pictures/Lord Miller Productions/Bohemian Risk Productions/Oren/Amazon MGM Studios/Sony Pictures Television)
Lançada em 2009, a mini-série em quadrinhos Homem-Aranha Noir, criada por David Hine e Fabrice Sapolsky, e desenhada por Carmine Di Giandomenico trazia uma versão alternativa do Peter Parker passada em 1933, durante a Grande Depressão.
Era um Homem-Aranha muito mais dark, lidando com gangsters e outros vilões, e violando uma das regras básicas do personagem: ele mata gente.

Claro que Spider-Noir era em preto-e-branco (Crédito: Reprodução/Marvel Comics/Disney)
Em um multiverso de variantes e alternativas, o Homem-Aranha Noir se destaca por ter um pé bem firme na realidade, algo que funcionou muito bem na excelente série do Pinguim, que tem todo o cheiro de ter servido de inspiração, ou pelo menos validação para Spider-Noir.
O projeto da Sony/MGM+ foi ousado (e caro, as menores estimativas falam em US$ 150 milhões pelos oito episódios) ao se propor a criar uma história em estilo Noir, aquele estilo cinematográfico criado nos EUA nos anos 1940, com visual bastante inspirado no expressionismo alemão, com cenas elaboradas, contrastes fortes em preto-e-branco, com tom pessimista, protagonistas moralmente dúbios, cenários urbanos e sombrios.

Bogart e o Falcão Maltês, a quintessência do herói — ok, protagonista — noir (Crédito: Divulgação/Warner Bros. Pictures)
O estilo se encaixou muito bem em histórias de detetive e em atores como Humphrey Bogart, em filmes como O Falcão Maltês (localizado como Relíquia Macabra no Brasil), The Big Sleep (À Beira do Abismo), Sunset Boulevard (Crepúsculo dos Deuses) e tantos outros.
É algo mais que parodiado, todo mundo reconhece o detetive com contas atrasadas, escritório deprimente e caindo aos pedaços, uma secretária fazendo mágica para manter a coisa flutuando, e a inevitável cliente femme fatale. Esse cenário é familiar a todo mundo que já viu Uma Cilada para Roger Rabbit, Eddie Valiant é a quintessência do detetive noir.
É uma trope tão forte que até no Brasil funciona, com personagens como Ed Mort e Mário Fofoca.
Nicolas Cage ama quadrinhos e ama cinema, principalmente cinema noir. Ele dublou o Homem-Aranha Noir na animação do Aranhaverso, então o convite para Spider-Noir foi mais que automático, bem como seu aceite.
Exceto que Nicolas Cage não é mais um garoto, então sua história teve que ser adaptada, e o foi, direitinho, ah, se foi.
Ben Reilly é um detetive particular em fim de carreira, mais endividado que o rapaz alegre na piada do Costinha. O que poucos sabem é que ele é também o Aranha, um vigilante com superpoderes que tocou o terror entre as gangues de criminosos em Nova Iorque durante os anos 1920. Ele abandonou a carreira depois que não conseguiu salvar Gwen digo, Ruby, sua noiva, morta em um atentado de um de seus inimigos.
Ele é contratado por um sujeito para investigar Cat Hardy, sua esposa, uma cantora de cabaré que aparentemente tem um caso com o prefeito.
Como sempre, nada é o que parece ser, Ben acaba se envolvendo com Cat (uma variante de Felícia Hardy, a Gata Negra, mas sem poderes aqui) e descobre que ela é uma espécie de sugar baby celibatária do Silvermane, o chefão mafioso local.

Sim, claro que os dublês iriam zoar o meme do Aranha (Crédito: Divulgação/Pascal Pictures/Lord Miller Productions/Bohemian Risk Productions/Oren/Amazon MGM Studios/Sony Pictures Television)
Silvermane tem capangas com superpoderes, inclusive Flint Marko, o Homem-Areia, e com o passar da história outros da galeria de vilões do Aranha aparecem, incluindo o raro Megawatt, mas apesar de boas cenas de combate e do Spider-Noir usar bastante suas teias orgânicas, o foco não é a parte super.
Spider-Noir é uma clássica história de detetive, com traições, reviravoltas, femme fatales, carros antigos, chuva e Nova Iorque. Apesar dos passeios de teia entre os arranha-céus, é uma história bem pé-no-chão, o (ok, um) Aranha enfrentando bandidos comuns (e seus vilões de sempre), como parte dos heróis do dia a dia como Demolidor, Punho de Ferro e Luke Cage.
Quando começaram a produzir a série, Nicolas Cage lembrou que o Jovem™ tem ojeriza a filmes preto-e-branco, e seria interessante fazer uma versão colorida da série. Só que há um problema. Transformar uma imagem em preto-e-branco não é tão simples quando reduzir a intensidade das cores no Photoshop.

A quase Gata Negra, uma japinha* de respeito (Crédito: Divulgação/Pascal Pictures/Lord Miller Productions/Bohemian Risk Productions/Oren/Amazon MGM Studios/Sony Pictures Television)
*EU SEI
O filme preto-e-branco “converte” as cores originais em tons de cinza, mas não é uma conversão intuitiva. Cores próximas se mesclam no mesmo tom de cinza, e a tendência é as imagens ficarem lavadas.
Isso fica evidente na maquiagem. Um batom vermelho-sangue fica clarinho no preto-e-branco. Sombras e bases desaparecem, mesmo que ao vivo em cores a maquiagem esteja perfeita. O cinema aprendeu e desenvolveu técnicas para lidar com isso, e o resultado parece até exagerado para quem está de fora.
Os contornos são realçados com delineador verde ou azul, batom é verde, todo mundo fica parecendo filho do Coringa, mas no preto e branco, o resultado é ótimo.
Os cenários também têm esse tipo de contraste, e em cores se pareceriam com uma penteadeira de dama que troca favores por dinheiro.
Dinheiro, aliás, foi a solução. Usaram um caminhão de dólares para pesquisar um meio-termo de maquiagem, cenários e cores para que fosse mantido o estilo visual do filme noir, e o colorido menos carnavalesco. O resultado foi batizado de “True-Hue Full Color”, e ficou igualmente lindo.
Spider-Noir é uma linda homenagem aos filmes noir e uma declaração de amor aos quadrinhos, um raro caso em que todos os envolvidos amam seu trabalho e o material original, só comprovando que o Aranhaverso ainda tem muita história para contar.
Menos a Saga do Clone, pulem a Saga do Clone!
5/5 Ilsas
O seriado do personagem da Marvel, hoje da Disney, sob controle criativo da Sony Pictures, pode ser assistido na Amazon, logicamente.