Carlos Cardoso 18 semanas atrás
Wonder Man é um personagem complexo com uma complicada história, surgindo como vilão, morrendo e voltando, galgando degrau a degrau seu espaço entre os Vingadores, e agora ele saiu da geladeira e virou série da Marvel.

Wonder Man não é o herói que a gente precisa nem o que a gente merece (Crédito: Marvel Studios/Disney)
Wonder Man foi um problema no Brasil; na época em que tradutores traduziam, Wonder Man seria Homem-Maravilha, o que seria gay demais até para os Anos 1980. Em Portugal dizem que ele se chama Homem-Maravilhoso, mas não julgamos.
Reza a lenda que o lendário Jotapê Martins ficou batendo cabeça até que reparou que Simon Williams, o Wonder Man, se ganhasse um bigode de ator pornô gay, ficaria bem parecido com Tom Selleck, que na época fazia imenso sucesso com a série Magnum PI.
Eureka! Wonder Man agora era o super-herói... Magnum!
Quer dizer, herói não. Criado em 1964 por Stan Lee, Don Heck e Jack Kirby, Wonder Man – digo, Magnum – apareceu em Vingadores Vol. 1 #9. Ele era herdeiro de uma indústria de armamentos que estava perdendo mercado para as Indústrias Stark. Convencido por seu irmão Eric, Simon adultera os livros-caixa da empresa, e é devidamente preso.
Sua fiança é paga pelo Barão Zemo e Encantor, ambos convencem Simon a ser cobaia em um experimento com “raios iônicos” que lhe dão superpoderes, inicialmente superforça, depois ele se tornou invulnerável, ganhou poder de voo, supervelocidade e várias outras capacidades, se tornando um dos membros mais poderosos dos Vingadores. Mas primeiro ele morre.

Significa? (Crédito: Marvel Comics/Disney)
Na história que apareceu, Magnum morreu, ao trair Zemo e salvar os Vingadores, The End, personagem descartável. Até 1968, quando surge Visão, e fazem um retcon onde Hank Pym gravou os padrões cerebrais de Simon, e os usou como parte do modelo para criar a mente do robô Visão.
Em 1972 é contado que Wonder Man está vivo, mas em coma, e ele permanece assim até 1975, quando é revivido temporariamente por Kang, o Conquistador.
Simon fica nesse vai-e-vem até 1976, quando permanece vivo e se une aos Vingadores, mas sempre foi crítico da falta de responsabilidade do grupo, que entre outras coisas criou Ultron, uma das maiores ameaças do Universo Marvel.
Em 2021 a Marvel começou a produzir uma série do Magnum, com tom de comédia e estrelada por Yahya Abdul-Mateen II. Uma ótima escolha, um excelente ator que foi o Morpheus no último (espero!) Matrix, mandou muito bem como o Manta Negra em Aquaman, e mostrou mais que o necessário como Doutor Manhattan na controversa Watchmen da HBO.
A série ficou dois anos na geladeira, enquanto a Marvel decidia o que fazer com o MCU, e não foi ajudada por fiascos como She-Hulk, Echo e Invasão Secreta. No final foi lançada de uma vez, no estilo Netflix, todos os oito episódios de mais ou menos meia-hora liberados de uma vez, como se quisessem se livrar logo dela, passar um pano e focar nos filmes, que é basicamente a estratégia atual.
Infelizmente Wonder Man é um dano colateral dessa estratégia. A série é uma pérola, quase um pocket show, sem nenhuma pretensão cósmica de salvar o Universo, sem supers voando para todo lado, sem Galactus andando por Nova York. É uma história menor envolvendo personagens menores e não tem nada, absolutamente NADA a ver com o Wonder Man dos quadrinhos, exceto nomes.
Sim, toda a informação que você leu acima sobre o Magnum é inútil, mas eu preciso sustentar meus garçons.
Na série, Simon Williams é um ator desempregado em Los Angeles. Nada demais, a taxa de desemprego na categoria fica acima de 90%. Mas ele não é um mau ator, na verdade, ele é muito bom, mas é focado demais nos personagens, questiona texto, blocking, motivações, exige backstory de qualquer ponta que esteja fazendo, e acaba perdendo empregos por causa disso.
Ele encontra por acaso com Trevor Slattery, interpretado por Sir Ben Kingsley. Trevor é o ator excêntrico contratado para ser o Mandarim em Homem de Ferro 3, que mais tarde apareceu em Shang-Chi e em um Marvel Shorts. Trevor conta que vai fazer um teste para um filme do Wonder Man, dirigido por um famoso e excêntrico (só tem gente excêntrica aqui) diretor premiado com o Oscar.
Wonder Man é um herói de infância de Simon, que adorava assistir aos filmes dos Anos 1980 do personagem, um clichezão com direito até a uma cena nas famosas Rochas Vasquez, tornadas famosas por Jornada nas Estrelas, a Série Clássica.

Sim, o Wonder Man da série é totalmente o original dos quadrinhos (Crédito: MArvel Studios/Disney)
Aos poucos eles vão desenvolvendo uma amizade, e Trevor deixa de ser uma caricatura para se tornar um tespiano, um acteur, um amante da Arte. Sim, ele é meio mau-caráter e piroquinha das ideias, mas ele ama sua arte e é extremamente bom no que faz.
Nesse ponto sabemos que Trevor foi preso quando voltou para os EUA, e está à mercê do Damage Control, uma divisão do Governo dos EUA criada para lidar com o problema dos Super-Heróis.
NOTA: Nos quadrinhos a Damage Control é uma ONG bancada principalmente por Tony Stark, que cuida dos danos causados pelas frequentes batalhas entre heróis e vilões. Eles pagam seguros, reconstroem prédios, arrumam pensões, esse tipo de coisa.
O Damage Control acha que Simon Williams tem superpoderes e é extremamente preguiçoso. Trevor deve se aproximar e conseguir provas, para que Simon possa ser preso.
O resto da série é Simon revelando que tem sim poderes, que se descontrola fácil e provoca danos por causa disso, mas toda essa parte é... inconsequente. Irrelevante.
Sim, isso mesmo. O super na série da Marvel é a parte menos interessante.
A série toda é um tour de force entre dois atores maravilhosos, brinca com a obsessão de Los Angeles com Hollywood, a excentricidade forçada do povo que atingiu o sucesso e a inveja de quem não vive nesse mundo.
Há momentos engraçados, mas não é comédia pastelão. Há momentos dramáticos, mas Simon é um realista, ele não passa a série deprimido por levar um pé na bunda da namorada e viver com ajuda de dinheiro enviado pela mãe. Ele persiste, mesmo cheio de dúvidas.

Dois grandes atores (Crédito: Marvel Studios/Disney)
Apesar do Damage Control atrás dele, Simon é o verdadeiro vilão, sua insegurança em aceitar que é tão bom quanto acha que é, seu descontrole emocional causam todos os danos, a série é sobre um homem aprendendo a lidar com seus limites.
Também é um maravilhoso arco de redenção para Trevor Slattery, o ator canastrão niilista e mulherengo do Homem de Ferro 3 se tornou um mentor, ensinando Simon a ser um grande ator, sacrificando tudo pela Arte.
Há momentos sublimes entre os dois. Em uma cena eles estão no apartamento de Simon, e começam a declamar monólogos famosos. É arrepiante Sir Ben Kingsley interpretando o monólogo de Salieri em Amadeus. Só essa cena valeu a série toda.
Há referências pipocando para quem quiser encontrar. Agentes do Damage Control apareceram em outras séries, há cartazes para Rogers – O Musical, mas não há gente voando por todo lado, navinha pewpewpew, essas coisas. É como a série do Demolidor; sabemos que é no mesmo universo, mas é uma história pequena, focada. Não dá para parar tudo para os personagens apontarem “ALÁ O MIRANHA!”
Não! A beleza é que não precisa. Nem toda história precisa ser um espetáculo visual envolvendo ameaças de proporções cósmicas. Há um arco delicioso onde Thanos decide visitar um humano comum, David, um sujeito totalmente sem importância. Todo ano, no dia de seu aniversário, Thanos aparece e estraga o dia. David tem uma vida miserável por puro capricho do Titã Louco, que nunca explica sua motivação.

Thanos é um canalha (Crédito: Marvel Comics/Marvel Comics)
Como série de super-herói, não nem um pouco. Não tem super-briga, não tem coisas gigantes caindo do céu, não tem skybeam, e copiando a Netflix, ele só aparece de uniforme no final. Não há discurso grandes poderes grandes responsabilidades, não explicam a origem dos poderes e se ele fosse zero empoderado, a série seria basicamente a mesma.
Por isso funciona muito bem como... história. Wonder Man não tem muletas, não se apoia nos poderes. É uma série sobre atores sem ser autoindulgente, mas que também não é cínica. É uma série que não quer destruir o status quo do MCU ou de Hollywood. Se pudesse resumir Wonder Man em uma frase, eu diria:
“Olhe, é isso que a gente faz e é muito legal!”
Wonder Man é uma das séries da Marvel menos Marvel e por isso é uma das melhores séries da Marvel.
5/5 Morrises