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Resenha: Matrix Resurrections – Com spoilers

Matrix Resurrections é quarto e inesperado filme da franquia, e vem criando controvérsia ao desconstruir e aprimorar os conceitos originais

40 semanas atrás

"Spoilers, lots of spoilers"

Matrix foi um filme revolucionário. Isso é o mínimo que se pode dizer da obra que até hoje influencia a estética de cenas de ação no cinema. Suas continuações não foram tão bem recebidas, mas agora um novo filme veio para acertar o passado e preparar o futuro da franquia. Matrix Resurrections conseguiu o que se propôs? Vejamos...

#notMyMorpheus (Crédito: Warner Brothers Corporate Overlords)

Matrix é um filme que funciona por um motivo bem simples: Assim como ogros e cebolas, Matrix tem camadas. Ele pode ser pra muita gente, na definição do finado José Wilker um filme onde um sujeitinho aprende a brigar mais rápido, ou pode ser uma imensa discussão sobre a vida, o universo, livre arbítrio, destino, controle.

Está tudo lá, quando Neo pergunta se ele vai ser capaz de desviar de balas, e Morpheus explica que quando ele entender que é o Escolhido, não vai precisar.

Pra muita gente Matrix é isso (Crédito: Warner Brothers Corporate Overlords)

O conceito de Matrix, inclusive, foi kibado do livro A Cidade e as Estrelas, de Arthur Clarke. Na história, 2,5 bilhões de anos no futuro a humanidade se resume a uma única cidade, controlada por máquinas, que criam corpos para mentes humanas armazenadas no Computador Central. As pessoas vivem vidas hedonistas, quando morrem voltam pro banco de dados. De tempos em tempos um Único, uma Anomalia é criada, a função desse indivíduo é desestabilizar a sociedade, promovendo seu crescimento.

O grande problema de Matrix Revolutions nem foi matarem o Neo, foi o “futuro” ser estagnado. A promessa de paz com as Máquinas deixa impressão de algo incompleto, lembrando o diálogo em Watchmen, quando Ozymandias diz para o Dr. Manhattan “Eu fiz a coisa certa, não? Tudo deu certo no final” e Jon responde “No final? Nada acaba, Adrian. Nada jamais acaba”.

Morpheus versão cafetão americano dos Anos 70. (Crédito: Warner Bros.)

Uma técnica de literatura é saber quando acabar de contar sua história. Viveram felizes para sempre é algo que a gente finge que acredita se é dito na hora certa. O primeiro Matrix poderia ter sido um filme único, mas todo mundo ficaria revoltado atrás de respostas. Elas vieram, e eram óbvias. Muita gente não gostou.

Matrix Resurrections é uma espécie de soft reboot / retcon que funciona como uma crítica social às vezes de mão bem pesada, Lana Wachowski fala com todas as letras: vivemos uma era de continuações e reboots, queremos um loop de histórias familiares, ninguém sai de sua zona de conforto.

As corporações que controlam o entretenimento reforçarão mais ainda isso. O filme chega a citar a Warner Bros. nominalmente, ela basicamente diz que está fazendo o filme obrigada, pois seria feito com ou sem ela. É um dos fuck yous mais lindos do cinema desde que Reth Buttler soltou o “Frankly, my dear, I don’t give a Damn” no final de ...E o Vento Levou, acarretando uma multa equivalente a US$100 mil em 2021, paga com prazer pelos produtores.

Matrix Resurrections – sinopse

60 anos após o final de Matrix Revolutions, há uma Matrix 2.0, ou melhor, 7.0. Quando a Matrix 6.0, com Neo e seus amiguinhos foi resetada, as pessoas começaram a querer sair dela, isso acarretou uma grande perda de energia para as máquinas. Surgiu uma guerra civil entre máquinas que queriam manter a Matrix e outras que queriam voltar a escravizar humanos. Essas venceram.

A nova Matrix é mais moderna, bem parecida com o mundo de hoje, todo mundo entretido por seus celulares e tablets, a rotina do dia-a-dia é amenizada com as distrações que todos conhecemos.

A Matrix antiga era um mundo realista, mas com falhas, eventualmente pessoas começavam a sentir que não faziam parte dele, que havia algo errado. Dessa vez as máquinas tiveram uma idéia genial, muitas vezes repetida na Realidade. Às vezes, a melhor forma de esconder um segredo, é reforçar a voz de todo mundo que acredita nele.

Durante a Segunda Guerra, Hitler construiu a Muralha do Atlântico, reforçando especialmente a região da Pas-de-Calais, que é o ponto mais próximo entre o Reino Unido e a França. Os aliados criaram uma operação ultra-secreta, com um cadáver vestido de oficial naval levando planos de invasão na região de Calais.

Comunicações de rádio falsas foram feitas, redes de espiões fictícias informavam Berlim de que a invasão seria em Calais. Hitler ouviu o que queria ouvir, e muitas tropas que estariam na Normandia foram desviadas para o Norte.

Na Matrix, era impossível acabar com a sensação de que algo estava errado, então o que as Máquinas fizeram? Criaram todo um arcabouço para justificar a tal sensação. Neo foi ressuscitado (tecnologia, uai) e reintroduzido (ui!) na Matrix. Ele era um criador de videogames, seu maior sucesso? A trilogia... Matrix.

O jogo era um sucesso mundial, todo mundo conhecia Matrix, se alguém tivesse uma sensação estranha, associava ao jogo, como meus sonhos estranhos com aliens, culpa da TV ligada no History Channel.

Ao transformar a história de Neo em ficção, ele foi roubado de sua agência. Suas próprias dúvidas eram tratadas como um problema mental, seu psiquiatra (Neil Patrick Harris) receita pílulas azuis (nada contra. Dizem) que o mantém preso à “realidade”.

Hoje tem. (Crédito: Warner Bros.)

Em vários momentos do filme chegamos a achar que aquela pode realmente ser a Matrix original, e Neo nunca viveu o que vivemos nos outros filmes.

Então percebemos que há todo um equilíbrio nessa Matrix. Neo continua obcecado com Trinity, ou “Tiffany”, como ela se chama na versão. Casada, com filhos. O sócio de Neo na empresa de videogames é ninguém menos que o Agente Smith, ou uma versão dele adaptada para servir de contraponto e ajudar Neo a criar os jogos.

O mundo de Neo muda quando ele encontra Morpheus, mas não “o” Morpheus, uma versão criada em um Modal (na realidade uma máquina virtual rodando MatrixOS) executando em loop até Morpheus desenvolver consciência.

Junto com humanos do mundo real, Morpheus resgata Neo, e descobrimos que nós, fãs dos filmes originais somos egoístas e simplórios. Nós nos contentamos com Zion, um lugar onde todo mundo se veste como mendigo e come papinha, enquanto se prepara para enfrentar as Máquinas. Zion era binária.

Em Matrix IV vemos o material de marketing de Matrix IV (Crédito: Warner Bros.)

Na nova cidade, IO, humanos pesquisam e se aprimoram, não só para a guerra, mas principalmente para melhorar a qualidade de vida de todo mundo. E convivem em paz com as Máquinas, ou melhor, Synthients, como preferem ser chamados. Isto é, ao menos a facção que queria manter a Matrix original, mesmo sofrendo com falta de energia.

Mais tarde o Analista (NPH) explica que em todas as simulações que testaram, Neo e Trinity quando acabavam juntos desestabilizavam a Matrix, mas sem eles não tinham energia suficiente. A presença dos dois gerava conflito e angústia, emoções fortes e sim não faz muito sentido, mas usar gente como Duracell também não.

O coringa, de novo, é o Agente Smith, que odeia o Neo mas odeia ter sido colocado em um loop, com suas memórias apagadas, controlado pelo Analista. A missão agora é salvar Trinity, em uma Matrix reprogramada para remover ou pelo menos nerfar profundamente os poderes de Neo.

As Metáforas, ah, as metáforas

Em uma cena Neo enfrenta vários Exilados, programas antigos que perderam sua função. Entre eles o Merovíngio, com aparência de um mendigo daqueles xexelentos d'A Praça é Nossa, revoltado com a nova Matrix, com entretenimento descartável, todo mundo conectado em seus tablets e celulares, acompanhando histórias sem substância.

“Nós tínhamos livros, músicas, filmes, nós tínhamos estilo, tínhamos conversas, não esse bipbipbipbipbip”.

Se o primeiro Matrix era uma crítica ao Sistema, que cria papéis sociais e nos mantém neles, Matrix Resurrections é um tapa na cara, mostrando que o povo quer esses papéis sociais, é muito mais fácil chegar em casa de um emprego frustrante e descarregar a raiva num videogame, numa thread de twitter ou nos comentários do YouTube, do que fazer alguma coisa.

Ah, Trinity... (Crédito: Warner Bros.)

As versões da Matrix que eram utopias foram um fracasso. Pessoas não conseguem ser felizes por muito tempo sem desafios. As versões onde só havia problemas, pereceram também. A versão onde vivemos em eternos loops casa/trabalho mas temos onde descarregar as frustrações, essa tem potencial de durar para sempre.

Meta, mas Meta Muito

Matrix Resurrections é talvez o filme mais cínico que já vi. No bom sentido, claro. As reuniões de marketing são sensacionais, com executivos millenials discutindo... Matrix IV. Em dado momento uma executiva fala com a cara mais séria do mundo:

"O material na sua frente tem o resultado da nossa pesquisa de foco grupal.

Dentro, vocês encontrarão um breakdown. incluindo associação de palavras-chave com a marca.

As duas primeiras são 'originalidade' e 'novo', que eu acho que são coisas ótimas para manter em mente quando vocês começarem a trabalhar no Matrix IV. E em quem sabe quantos outros?"

É assim que blockbusters são feitos, com pesquisas, mapas, tabelas e gráficos. O contraste é que minutos antes Neo estava tomando café com um colega de trabalho, que contava como Matrix havia sido importante para ele, como as discussões filosóficas o fizeram ver o mundo de forma diferente, como Matrix era importante para milhões de pessoas e – você está se sentindo meio mal de ter comprado aqueles livros sobre A Filosofia de Matrix, acertei?

Lana (Lana? LANAAA!!) não tem medo de mostrar que Matrix pode ser, sim, apenas um blockbuster com belas cenas de luta e uma história bem fininha. Bancada por um mega-estúdio.

Não se preocupe, eles estão bem, as máquinas usaram o código dos helicópteros do Battlefield 2042 (Crédito: Warner Bros.)

A ausência de Laurence Fishburne e Hugo Weaving, mesmo não sendo escolha da Diretora, serve para mostrar que ninguém é insubstituível, e em determinado momento vemos o reflexo de Trinity em um espelho, e naquela Matrix sua imagem é de uma mulher completamente diferente.

Ela e Neo externamente são vistos como NPCs, por isso os humanos levaram décadas até encontrá-los, e a vida de Neo é a de um NPC. Em uma magnífica sequência ao som de White Rabbit, de Jefferson Airplane, Neo vive seu loop diário enquanto os game designers discutem Matrix, com alguns defendendo que o jogo é sobre filosofia, outros que é anti-capitalista, e no final um deles diz:

"Se você mencionar Matrix pra qualquer pessoa no mundo, a primeira coisa que ela vai se lembrar é... bullet time."

Lana Wachowski enganou todo mundo, inclusive a Warner Brothers (e a Irmã Warner). Ela conseguiu um orçamento polpudo para fazer o primeiro filme de ação blockbuster intimista da História.

Matrix Resurrections é uma forma de Matrix conhecer a si mesmo. O filme é um ensaio sobre o efeito da Sociedade no filme, como as pessoas enxergam Matrix, e como ter uma opinião não quer dizer que ela seja a única, ou mesmo que seja a única certa. Em nenhum momento é dito que A ou B estão errados, acho que nem os criadores sabem o que é a Matrix.

Isso, claro, gerou muita divisão. Há gente vomitando lava contra o filme, outros rasgando elogios. No Rotten Tomatoes há uma rara unanimidade entre crítica e público, colocando o filme como controverso.

Vox Populi, Vox Deus Ex Machina (Crédito: Reprodução Internet)

E aqui, de novo, vale a lição do próprio filme: Não há resposta certa. Você pode odiar por não ser o que esperava, ou adorar pelos mesmos motivos.

É um reboot? Sim, literalmente a Matrix foi rebootada, alterada e atualizada. Temos uma nova geração de personagens, temos uma humanidade mais complexa e não-estagnada, ao mesmo tempo que temos humanos totalmente gadificados em seus casulos, felizes com suas vidas infelizes.

E como todo bom reboot, Matrix Resurrections termina exatamente como o primeiro filme, com pequenas alterações para parecer original e novo.

E antes que você pergunte se tem bastante ação, tem sim, há bastante tiro porrada e bomba, não espere algo revolucionário como Bullet Time, claro. Esse tipo de revolução tecnológica acontece uma vez a cada geração, mas as lutas estão boas, Trinity usa o Chute-Escorpião e em tempos politicamente corretos é reconfortante ver a turma do Neo metralhando alegremente  todo mundo, mesmo que tecnicamente sejam bots com skins de humanos (Agentes são caros de clonar).

O filme faz bastante uso de flashbacks, mas em imagens e frases curtas, várias vezes os personagens repetem frases da trilogia original, para espanto de Neo, que tem que aceitar que as mais importantes experiências de sua vida ou nunca aconteceram ou aconteceram e foram trivializadas em um videogame, por isso você nunca deve mostrar Battlefield V para seu bisavô que lutou na 2ª Guerra.

Conclusão

Matrix Resurrections pode significar muita coisa diferente para muita gente. Há quem diga que gostou pois foi com as expectativas no chão. Eu não gosto dessa estratégia do Bode na Sala. Eu parti do princípio que não tinha a menor idéia do que esperar, sem idéias pré-concebidas.

Deu certo, eu legitimamente gostei do filme, gostei da nova tripulação, gostei de ter meu maniqueísmo exposto, ao nunca ter cogitado uma sociedade harmoniosa entre humanos e máquinas –desculpe – Synthients.

Gostei de ver Keanu Reeves e Carrie-Anne Moss mais uma vez chutando bundas. E Neil Patrick Harris sempre fez ótimos vilões, desde o Dr. Horrible's Sing-Along Blog.

Há espaço para mais filmes? Talvez, mas ao mesmo tempo acho que a grande lição desse reboot seja justamente que o autor deve saber a hora certa de terminar a história. Ao percorrer todo o círculo, Resurrections termina junto com o Matrix de 1999, e esse ponto é perfeito para um “E viveram felizes para sempre”.

Exceto que se eu aprendi alguma coisa com esse filme, é que os “corporate overlords” vão ordenhar essa vaca até secar.

Cotação:

4/5 Gatos chamados Déjà Vu, pois Lana Wachowiski pode ser uma moça mas tem uma senhora mão pesada para metáforas e referências.

Trailer:

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