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Echo — justiça silenciosa

Echo é a improvável minissérie que liga o MCU às finadas séries da Netflix, e a obra mais violenta que a Disney já produziu

12/01/2024 às 17:30

Echo (localizada no Brasil como Eco) marca um momento de virada para o Marvel Studios. A minissérie de 5 episódios é o primeiro reflexo das mudanças impostas pela Disney às suas propriedades, ao notar a debandada do público, cansado de histórias demais e mal-feitas.

Assim como aconteceu com a Lucasfilm em relação à Star Wars, a puxada no freio de mão veio com vontade. O ano de 2024 trará muito menos produções da casa (excluindo Sony), limitadas a um filme, Deadpool 3, que a rigor é um send-off do Foxverso e não uma obra do MCU, e duas séries, Echo e Agatha: Coven of Chaos.

Echo (Crédito: Divulgação/Marvel Studios/Disney)

Echo (Crédito: Divulgação/Marvel Studios/Disney)

Echo é a primeira obra do selo Marvel Spotlight, dedicado a produções com foco na narrativa, sem compromisso com a continuidade interligada, centrado em histórias mais urbanas e menos cósmicas. Com um orçamento mais limitado e prioridade na história, a trama é muito melhor construída do que muita coisa que veio antes, as produções em parceria com a Netflix, resgatadas aqui, inclusas.

De volta para casa

A trama de Echo se passa 5 meses após os eventos de Gavião Arqueiro. Maya Lopez (Alaqua Cox), a ex-líder da Gangue dos Agasalhos, está em rota de fuga após atirar na cara de Wilson Fisk (Vincent D'Onofrio), o Rei do Crime, que, ela não sabe, não morreu. Há uma recompensa enorme pela cabeça dela, e sem ter muitas opções, ela acaba voltando para a cidade de Tamaha, no Oklahoma, parte da nação Choctaw.

Aqui, é bom lembrar que Maya não é uma boa pessoa, e a princípio, continua não querendo ser. Após conseguir refúgio na cidade, ajudada por amigos e parentes, ela coloca em ação seu plano de desmantelar o reino de Fisk em Nova York, a fim de tomá-lo para si. O objetivo dela, no início, é se tornar a nova Rainha do Crime.

Claro, Maya aprende da pior maneira que Wilson Fisk não é alguém com quem você pode lidar de forma leviana. Ao retornar para o centro da trama, o Rei do Crime deixa bem claro que ele dita as regras, embora demonstre afeição (com interesses) pela sobrinha de criação, que ele moldou desde criança para ser seu braço direito. O que incluiu dar cabo do pai dela, colocando-o na rota de Clint Barton, quando ele atuava como o vigilante Ronin.

Quando Maya demonstra arrependimento pelas decisões erradas que tomou ao longo da vida, Fisk usa sua tática padrão de intimidação, colocando todos com quem se importa na linha de fogo. Porém, ela descobre (afinal, Disney+) que tem poderes, que a conectam com várias mulheres Choctaw das quais descende, podendo usar suas habilidades quando mais precisa.

Sim, Maya tem poderes, aceita que dói menos (Crédito: Reprodução/Marvel Studios/Disney)

Sim, Maya tem poderes, aceita que dói menos (Crédito: Reprodução/Marvel Studios/Disney)

Pode parecer estranho, Maya nunca demonstrou ter habilidades especiais em Gavião Arqueiro, ela só sabe lutar muito bem, é uma exímia atiradora e osso duro de roer, mesmo sendo surda e deficiente física, com uma perna a menos. Porém, é padrão nas narrativas da Disney+ que os protagonistas da Marvel tenham algum tipo de habilidade especial. Aqui, a Marvel Studios recebeu consultoria da verdadeira nação Choctaw de Oklahoma, para usar as referências direito.

Vale lembrar que, mesmo nas HQs, Maya tem habilidades especiais. Também deficiente auditiva, a personagem que surgiu como uma capanga do Fisk e antagonizando o Demolidor, possui "reflexo fotográfico", ela pode copiar qualquer proeza física que veja, o que inclui proeficiência em leitura labial, que a versão do MCU não tem.

A personagem em live-action foi escrita para Alaqua Cox, sendo este seu primeiro papel. Na época de Gavião Arqueiro, ela contou como Jeremy Renner (Clint Barton/Gavião Arqueiro) e Hailee Steinfeld (Kate Bishop) se esforçaram para aprender a ASL (Linguagem Americana de Sinais), a fim de se comunicarem melhor com ela. Curiosamente Cox não é Choctaw, mas descende da tribo Menominee, sendo ainda nativo-americana.

Nas HQs, Maya foi a mais competente hospedeira da Fênix, uma das entidades mais poderosas do Universo Marvel (Crédito: Reprodução/Marvel Comics/Disney)

Nas HQs, Maya foi a mais competente hospedeira da Fênix, uma das entidades mais poderosas do Universo Marvel (Crédito: Reprodução/Marvel Comics/Disney)

Assim como aconteceu com o curta Werewolf by Night, Echo é uma história fechada em si, seu grande poder é não se preocupar com outras tramas e eventos. A série se foca em contar uma história da Maya, e dar a ela um novo rumo na vida. E faz isso muito bem.

Marvelfix 2.0

Echo vem sendo comparada com as produções da parceria entre ABC Studios e a finada divisão Marvel TV com a Netflix, por mais de um motivo. O mais óbvio é o resgate de Wilson Fisk e Matt Murdock/Demolidor (Charlie Cox), que aqui faz uma participação relâmpago com o uniforme certo, e não aquela aberração vista em Mulher-Hulk: Defensora de Heróis. Os produtores da série chegaram a dizer que Demolidor, ou algumas coisas abordadas na série, passaram a ser canônicas no MCU.

Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage, Punho de Ferro, Justiceiro e Defensores, e outras produções da ABC, como Agentes da S.H.I.E.L.D. e Agente Carter, caíram no selo Marvel Legends devido o conflito entre Kevin Feige, chefe da Marvel Studios, e o líder da Marvel TV Jeph Loeb, que escreveu Superman: As Quatro Estações, Batman: O Longo Dia das Bruxas, e a maravilhosa série Cores da Marvel Comics, todas com o artista Tim Sale (RIP), mas é injustamente lembrado, e crucificado, por transformar o general Thaddeus "Thunderbolt" Ross no Hulk vermelho.

Feige e Loeb se detestavam, ao ponto do primeiro barrar referências ao MCU nas obras do segundo; quando Feige assumiu o comando total da divisão, passando a mandar até mesmo em C.B. Cebulski, editor-chefe da Marvel Comics, Loeb pediu o boné, por não querer de jeito nenhum responder ao desafeto.

Como resultado, a Marvel TV foi encerrada e todas as suas produções foram "descanonizadas", passando para o que hoje é conhecido como o análogo ao antigo Universo Expandido de Star Wars, não por acaso, chamado oficialmente Star Wars Legends.

Focando nas séries da Netflix, elas sofriam de um problema de roteiro onde quase todas tinham um piloto de temporada ótimo, os demais episódios enchendo linguiça, e o último criando um gancho gigantesco para a próxima temporada, ou outra série. Quando o serviço de streaming passou o facão, houve a esperança de que esses personagens e histórias seriam integrados ao MCU, mas a criação do selo Legends deixou claro que a intenção era rebootar tudo.

Maya continua descendo o sarrafo geral (Crédito: Reprodução/Marvel Studios/Disney)

Maya continua descendo o sarrafo geral (Crédito: Reprodução/Marvel Studios/Disney)

Porém, os atores envolvidos eram bons demais para serem dispensados. Charlie Cox reapareceu como Matt Murdock em Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa, e rumores começaram a aparecer que Krysten Ritter (Jessica Jones) e Jon Bernthal (Frank Castle/Justiceiro) também seriam reabilitados. Vincent D'Onofrio então era uma barbada, seu Wilson Fisk/Rei do Crime era uma presença opressiva sempre que aparecia na tela, mesmo que fosse apenas olhando para um quadro, ou preparando uma omelete.

Fisk foi o primeiro a dar as caras em uma série do MCU, embora que de forma meio caricata, mas seu retorno em Echo, atribuída como uma produção mais séria, a primeira 18+ dentro do Disney+ (nos EUA, ela foi distribuída também no Hulu), era esperadíssimo, e não decepcionou. O ator provou, mais uma vez, ser um dos melhores vilões da Marvel em live-action, apavorando só com seu tom de voz e linguagem corporal.

Quando Fisk franze o cenho, você já sabe que não vem coisa boa. Nada mal para quem é a encarnação do meme herói/vilão, se levarmos em conta o seu "Thor" em Uma Noite de Aventuras.

Na parte de ação, Echo é violento até dizer chega, como Demolidor foi. Tem tiro a queima-roupa, sangue jorrando, espancamentos brutais, nada do que você poderia esperar dentro do serviço de streaming familiar da Disney. Ela é a única série que conta com um disclaimer, no início de cada episódio, avisando o espectador da violência excessiva e da avaliação prévia por responsáveis, para que ela não seja assistida por jovens abaixo da faixa etária indicada.

Porém, a narrativa é o forte aqui. Não há barrigas, não há enrolação, os 5 episódios (seriam 6, mas a Disney cortou um para condensar a história, e focar no que interessa) cobrem tudo o que há para se saber de Maya, seu passado e suas origens ancestrais, o elenco de apoio funciona muito bem, e não há piadinhas desnecessárias ou subtramas que levam do nada ao lugar nenhum.

O Wilson Fisk de Vincent D'Onofrio remete aos bons tempos da parceria Marvel/Netflix (Crédito: Reprodução/Marvel Studios/Disney)

O Wilson Fisk de Vincent D'Onofrio remete aos bons tempos da parceria Marvel/Netflix (Crédito: Reprodução/Marvel Studios/Disney)

Conclusão

Echo pode ser uma minissérie menor (heh), mas é uma indicação de que o MCU talvez esteja começando a se preocupar mais com as histórias que deseja contar, e menos com as conexões intermídia. Isso foi especialmente sentido em As Marvels, o filme com a pior bilheteria do Marvel Studios em seus 15 anos de história, por exigir conhecimento prévio de duas séries, Ms. Marvel e WandaVision, para ser plenamente compreendido, ao invés de se focar em ser uma sequência de Capitã Marvel.

As consequências disso incluem a nova série do Demolidor, que não tem data e promete adaptar a antológica HQ A Queda de Murdock, de Frank Miller e David Mazzucchelli, ter recomeçado do zero, com episódios gravados indo para o lixo, para que a história fosse reescrita. O mesmo pode ser dito do cinema, com Wade, aquele desbocado, tendo que segurar 2024 sozinho nas telonas, ao bancar a mulher gorda e cantar o fim do mutanteverso da Fox. Sim, eu sei que teremos mais um Aranhaverso, Venom 3 e Madame Teia, mas essas são produções da Sony.

Se a série da Agatha Harkness seguirá a fórmula de Echo, é cedo para dizer, mas independente disso, a jornada pessoal de Maya Lopez é excelente e funciona sozinha, e se o retorno for bom, talvez abra a porteira para produções centradas em personagens da Marvel menos badalados, mas igualmente interessantes.

Nota:

Crédito: Divulgação/Marvel Studios/Disney

5/5 Demolidores ketchup com mostarda de Mulher-Hulk: Defensora de Heróis, que a Disney percebeu rapidinho ser uma péssima ideia.

Onde assistir:

Todos os episódios de Echo estão disponíveis no Disney+.

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