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Resenha: Agente Carter — a heroína mulher que não é homem

Agent Carter — nova mini-série da Marvel, com todo cheiro de virar série, estréia dia 15 agora com Hayley Atwell chutando bundas igual em Capitão América. Leia e entenda o motivo dessa série feminista entusiasmar até este porco chauvinista que vos escreve. ^CC

5 anos atrás

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No remoto ano de 1989 o mundo assistia extasiado o primeiro filme decente de super-heróis desde Superman, em 1977. Se descontarmos Howard The Duck em 1986, claro. Os fãs de Batman viam na Gotham de Tim Burton algo muito mais próximo do Cavaleiro das Trevas de Frank Miller do que do Batman de Adam West, que todos amamos mas em outro contexto.

A única coisa que destoava era a INÚTIL Kim Bassinger. Que Tim Burton não entende de mulher é um fato, foi casado com a Helena Bonham Carter por 13 anos e não percebeu que ela queria uma escova de presente. Vicky Vale é quase literalmente um peso morto. Não avança a história, não faz nada de útil. Uma das mulheres mais sexy de seu tempo, presente na imaginação de 10 entre 10 adolescentes heteros e mesmo assim ela era CHATA. Como um amigo comentou na época: “Ela só sabe gritar”.

Peggy Carter não é Vicky Vale.

Existe um discurso de que Hollywood odeia protagonistas femininas. O que acontece é diferente. Os cineastas têm medo de criar protagonistas femininas e fazer errado. Pior, quanto mais se preocupam em acertar, quanto mais elaboram a mensagem, mais didático, pedagógico, mais falso e artificial fica. É fácil de encontrar essas tentativas, a personagem parece uma personagem do Aaron Sorkin, em um roteiro não escrito por ele.

Quando erram para o outro lado criam personagens masculinos que por acaso fazem xixi sentado. Nada exceto as características sexuais primárias as diferenciam de homens. A personalidade é masculina, só é mulher no papel, pra cumprir cota. 90% das personagens femininas em desenhos são assim.

Há uma resistência do público? Com certeza, ainda mais quando a imagem que se faz de personagens femininas são caricaturas panfletárias. No momento em que a personagem foge desse clichê, é abraçada pelo público, que aliás está de saco cheio das Vicky Vales e mocinhas indefesas amarradas em trilhos por vilões de bigode. E isso não vem nem de hoje.

Em 1977 a molecada se apaixonou por uma princesa da Disney (tecnicamente). No que até hoje é visto como filme de “meninos” a Princesa chutava bundas, e princesas até então eram um tipo de personagem cujo único talento consistia em ficar descalça esperando príncipe, deixar o cabelo crescer esperando príncipe ou dormir esperando que o príncipe chegue antes do Bill Cosby.

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Há excelentes personagens femininas amadas pelo público, tanto em cinema quanto em televisão. Arnold que me desculpe mas ninguém chuta bundas alienígenas como a Tenente Ripley, e por falar em Arnold, Grace Jones peitou o sujeito, lembram?

O medo de errar, claro, fez com que Hollywood se acomodasse e essas personagens escasseassem (medo de errar e perder bilheteria por causa disso, claro). Quando Scarlett Johansson foi escolhida como Viúva Negra em Homem de Ferro todo mundo achou que seria mais um adereço de cena, mas Favreau e a Marvel inteligentemente perceberam que 51% da população mundial é composta de mulheres, elas assistem filmes e mesmo os homens, que com a invenção da internet não estão mais tão desesperados para ver uma bunda, podemos nos dar ao luxo de querer personagens menos unidimensionais.

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Como resultado além de chutar bundas magistralmente a Viúva Negra consegue manipular o Deus da Mentira, em Vingadores. No Capitão América 2, para desespero de um monte de haters ela mantém um relacionamento de amizade adulto com Steve Rogers, fugindo de TODOS os clichês de cinemão.

Por falar em Capitão América, foi no primeiro filme que surgiu a personagem Peggy Carter, baseada vagamente em uma criação do Stan Lee em 1966. Major do Exército Inglês e oficial de ligação com os EUA, ela acompanha o projeto de super-soldados que acabou criando o Capitão América. Ela já começa o filme socando um sujeito abusado, mostrando que não é nenhuma dama a ser resgatada.

Peggy conhece um Steve Rogers fracote, mas percebe que por dentro ele é acima de tudo uma boa pessoa, de coração puro, e que nem os Raios Vita ou o assédio das futuras fãs lhe tirou isso.

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Carmem Sandiego é o cacete!

Com a “morte” do Capitão América e o fim da Guerra Peggy segue com sua vida, como contado no curta Agente Carter, disponível no DVD do Homem de Ferro 3 e na locadora do Paulo Coelho. Nele ela é colocada para trabalhar na Strategic Scientific Reserve — SSR, agência que dará origem à SHIELD, sediada em NY, apenas para descobrir que para todo mundo no escritório ela não é a agente britânica que combateu Hitler e a Hydra junto do Capitão América. Lá ela é apenas uma mulher, sendo tratada como uma secretária de Mad Men, que conseguiu aquela vaga por ser lanchinho de herói.

A série começa com Howard Stark sendo acusado de espionagem, em uma alusão ao período Macartista da História dos EUA. Várias de suas invenções são encontradas em mãos inimigas, o Governo acredita que ele as esteja vendendo.

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Nada como ser um Stark sem o George R.R. Martin por perto.

Com Stark foragido, Peggy é cercada em um beco por um estranho, onde depois de uma briga, na velha tradição de personagens de quadrinhos sempre caírem na porrada no primeiro encontro, ele se apresenta como o mordomo de Stark, Edwin… Jarvis.

Ele a leva até Stark, que pede ajuda para limpar seu nome, pois estará ocupado na Europa, procurando quem está por trás do roubo de suas invenções. Isso foi uma excelente estratégia dos roteiristas para evitar que a série virasse Howard Stark e sua Ajudante Carter.

Nos dois primeiros episódios ela vai atrás de um grupo que roubou o McGuffin da vez, a fórmula de Nitramino, um mega-power explosivo, etc, etc. Para isso ela abre cofres, se disfarça de Jessica Rabbit loura, conversa com o Dr Anton Vanko (sim, o pai do Mickey Rourke em Homem de Ferro 2) e visita a Roxxon Oil, nome conhecido de todo leitor da Marvel.

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YES ela também se disfarça de loura fatal.

No melhor estilo das boas e velhas histórias de espionagem ela faz trabalho de detetive, usa disfarces, sotaques, gadgets dignos do Q. Carter é inteligente, não resolve tudo na porrada.

O Clima

A série começa em 1946, com uma ambientação que lembra muito Manhattan, mas sem a fodelança generalizada daqueles cientistas pervertidos. A América do Pós-Guerra está começando sua curva para o conservadorismo que atingirá o auge no começo dos Anos 60, para então levar ao bundalelê da contra-cultura e do amor livre nos Anos 60/70.

Uma parte dessa época, raramente comentada é que todo o avanço feminino durante a guerra, quando as mulheres foram pra rua, passaram a trabalhar, ter o próprio dinheiro, sustentar suas famílias sofreu um retrocesso.

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A lição, crianças, é: anabolizantes funcionam.

Sejamos realistas, a cabeça dos homens em 1946 não mudou magicamente, eles só contratavam mulheres por falta de opção. Com a volta dos soldados era patriótico dar um pé na bunda da Rosie e contratar o irmão dela. Só que depois de construir B17s as mulheres se recusaram a apenas pilotar fogão.

A Agente Carter sofre isso na pele. No escritório da SSR a única pessoa que a enxerga como mais que uma secretária é o Agente Souza, e aí mais uma vez o brilhantismo do texto. Fosse uma série panfletária ele seria “o” iluminado, progressista fazendo altos discursos de justiça social. Na série ele é um veterano de guerra, com uma perna mecânica, que “esteve lá” e respeita Carter por isso. Ao contrário de seus colegas ele olha para Carter e consegue enxergar um ser humano.

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Ela se ressente do tratamento de seus pares e da sociedade e responde, com delicioso sarcasmo ou, em uma ótima cena onde uma amiga garçonete é assediada por um babaca, ameaçando furar o infeliz se ele não deixar uma ótima gorjeta, ir embora e nunca mais voltar.

A Pessoa

Poucas vezes uma personagem foi tão detalhada em tão pouco tempo. Fica claro que ela ainda sofre com a morte de Steve Rogers, mas sua vida não parou por causa disso. Ela também não tenta se enganar, não é escrita como um robô sem emoções. Quando algo terrível acontece com a colega de quarto Peggy se permite um momento de emoção, um lindo desabafo bem interpretado por Hayley Atwell.

Ela não tem nenhum interesse romântico, e pelo visto não rolará nada com Howard Stark, ele é galinha demais pro estilo dela. Jarvis é casado, quando não está tomando conta da esposa. está auxiliando a Agente Carter ou cuidando dos interesses do Patrão Stark. A química entre os dois é excelente, James D'Arcy consegue não ser um Alfred genérico, e mantém boa parte do sarcasmo que Paul Bettany deu ao J.A.R.V.I.S. nos filmes da Marvel.

Quanto ao SSR eles não são incompetentes, só são lentinhos mas muito amados. Violentos como os policiais da época, rapidamente percebemos que não estão na série como exemplos do pior que pode existir em termos de sexismo e escrotidão. Eles são homens medianos de seu tempo. Não é justo vilanizar o grupo, mas não quer dizer que não possamos nos divertir vendo a Carter dar voltas em torno deles.

A Série é Feminista?

Depende. Se você entende como feminismo aquela misandria histérica do Tumblr, ou bobagens como o Teste Bechdel, não, não é. O chefe da repartição é homem, cis hetero e branco, as personagens não discutem a problemática do heteropatriarcado, e como prova final da misoginia uma mulher é assassinada. Sem falar na falta de diversidade. Não há orientais e afro-americanos só aparecem em posições subalternas. Um Universo que tem árvores falantes não pode colocar um negro em posição empoderada? Essa série é um lixo.

Já se você entende como feminismo uma série que mostra problemas reais vividos por mulheres nos anos 40 (e 50, 60, 70…), uma série que mostra uma personagem humana, tridimensional, que é a melhor no que faz, sem depender de heróis para salvá-la, que não objetifica a personagem, que não é panfletária para meninos ou meninas, que expõe a parte suja e sexista daquela época, sem didatismo ou coitadismo, então Agente Carter é uma série feminista.

Agent Carter é uma série para meninas? Não. É uma série pra todo mundo que gosta de boas histórias e não se sente ameaçado pela idéia de uma protagonista feminina forte.

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"Get off my bitch, ship!"

Fica assim: se te incomoda ver Starbuck, Lara Croft, Katniss, Mara Jade, Sarah Connor, Éowyn, Pepper Potts, Hit Girl, Elektra, Beatrix Kiddo, Buffy,  Cheetara, Diana, Ahsoka Tano, Ellen Ripley, Nikita, Trinity, Mística, Tempestade, Jean Gray, Vampira, Natasha Romanoff, Babydoll, Daenerys, Olivia Benson, Leia ou a Agente May chutando bundas, Agente Carter não é para você. Melhor continuar assistindo só reality shows de fisiculturismo, com muito óleo.

Agente Carter estréia dia 15 agora na Sony, no Brasil. Em teoria é uma mini-série de oito episódios, mas eu aposto um jantar com a Anita Sarkeesian que vão renovar e transformar em série regular.

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