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Resenha: Ms. Marvel e o perigo do didatismo no entretenimento

Ms. Marvel chegou na metade da temporada, já dá para ter uma boa idéia da série, seus altos e seus baixos. Infelizmente, muitos baixos

28/06/2022 às 16:52

Ms. Marvel confirma uma regra básica de produção cultural: toda e qualquer obra criada com o objetivo de educar E divertir, não faz nenhum dos dois.

O uniforme ficou legal, mas até o 3.º episódio ainda não apareceu (Crédito: Disney+)

A série da Disney+, contando as aventuras da jovem americana de origem paquistanesa Kamala Khan traz para a telinha (do celular) a popular personagem dos quadrinhos, que consegue ser divertida, original e mostrar a cultura paquistanesa e muçulmana de forma orgânica.

Kamala foi adotada como símbolo de diversidade nos quadrinhos, o que para quem acompanha a mídia não faz muito sentido, mas deixe o pessoal que não lê gibi celebrar, mais personagens são sempre bem-vindos, e quando são bons, como Ms. Marvel e Miles Morales, melhor ainda.

Ms. Marvel, a série, infelizmente, não passa essa sensação.

A culpa não é da Iman Vellani, ela está ótima como Kamala Khan, e a personagem está bem dosada também. Ela não é uma adolescente chata e rebelde sem causa. Ela tem conflitos com os pais, por querer mais liberdade, mas está no mesmo padrão de todo adolescente.

Seus pais por sua vez tentam protegê-la do mundo, mas não há ranço religioso, eles não são muçulmanos fanáticos, suas tentativas para manter Kamala em casa soam familiares para qualquer adolescente ocidental.

Kamala tenta convencer os pais a liberá-la para ir a uma convenção de nerds. Todo mundo já passou por isso (Crédito: Disney+)

Eles inclusive não reclamam de Kamala andar o tempo todo com Bruno, seu amigo de infância que tem o superpoder de sobreviver em uma Friendzone tão profunda que nem Reed Richards consegue criar um teleportador para chegar até lá.

Bruno é um nerd de eletrônica, criando gadgets para o cosplay de Kamala, e ela por sua vez é uma nerd de super-heróis, mais precisamente da Capitã Marvel. Ela sonha em ser uma super, e consegue realizar o sonho quando um bracelete de sua avó chega pelo correio.

Aqui a origem se separa dos quadrinhos. No gibi Kamala é uma inumana, que tem seus poderes latentes despertados. Ela inicialmente ganha poder de assumir a forma de qualquer pessoa, mas rapidamente passa a conseguir aumentar e diminuir seu tamanho, e ampliar partes do corpo, poderes que funcionam nos quadrinhos, mas em uma série live action ficariam ridículos, ou tenebrosos, se não tiverem um orçamento monstruoso.

Isso dificilmente funcionaria na TV (Crédito: Marvel Comics)

Kevin Feige preferiu uma variação. O tal bracelete, que é ligado aos Krees, dá a Kamala o poder de criar construtos de “luz sólida”, e ela chega a criar punhos gigantes, como nos quadrinhos, mas de luz. Foi uma boa saída.

Na série, Kamala, que ainda não é Ms. Marvel salva uma colega em uma convenção de marvetes, depois resgata um garoto caindo de um minarete, sendo perseguida pela Damage Control, a agência do MCU que limpa a sujeira deixada pelos supers.

Também há um grupo de alienígenas com centenas de anos que se identificam como djinns (traduzido no ocidente como Gênio, mas djinns são melhor descritos como demônios menores).

Dito isso, a série parece ser legal, e é, mas Ms. Marvel requer esforço, e não no bom sentido como Cavaleiro da Lua, que a gente assistia, não entendia nada, mas gostava.

Do mesmo jeito que a Militância hoje pensa 3 vezes antes de falar qualquer coisa, com medo de não ser virtuoso o suficiente e atrair cancelamento, Ms. Marvel é um texto feito com muito cuidado, com muito medo de ofender, de ser mal-entendido.

O Iman é um dos melhores personagens, idêntico ao dos quadrinhos. Ironicamente, ele é o personagem que fala menos "didaticamente" (Crédito: Disney+)

Toda interação entre os personagens muçulmanos é cheia de explicações, eles ficam se justificando uns aos outros.

Nos quadrinhos o irmão mais velho de Kamala é bem mais — radical não é o termo — tradicional. Ele critica os hábitos da irmã, mas na série ele é bem mais benigno, tornando-se um personagem redundante.

Bruno, que convive com os Khans desde criança e até fala um pouco de Urdu, recebe explicações de conceitos básicos da cultura muçulmana, em benefício do espectador. E isso irrita.

A ação para o tempo todo para um pouco de trívia, para uma aula de História. Há uma preocupação didática de expor novas culturas ao expectador, e essa preocupação é prioritária. Avançar a narrativa se torna secundário.

O terceiro episódio gira em torno de um casamento paquistanês, e vemos da Kamala acompanhando a mãe nas compras, a uma dancinha completa, é uma cena que se arrasta tanto que nem os vilões se infiltrando para tentar pegar Kamala a tornam mais curta.

Ninguém merece. Puxaram o freio de mão na história para mostrar dancinha. Até em Eternos (Jesus, estou elogiando Eternos) a dancinha do Kingo serviu para avançar a narrativa. (Crédito: Disney+)

Imagine aquela hilária peça de teatro do Loki, em Thor: Ragnarok. Agora imagine que passam a peça inteira.

Ms. Marvel tem muito pouco de Ms. Marvel, e paradoxalmente menos ainda de Kamala Khan. Em determinado momento falam da Partição da Índia, em 1947, quando os ingleses criaram na canetada Bangladesh e Paquistão, gerando um êxodo forçado que matou milhares de pessoas. É um momento sombrio na história da região, mas da forma como é apresentado na série, chega uma hora que você fala "OK, eu entendi, Partição ruim, avança a história, caceta".

As cenas de Ms. Marvel discutindo a Partição, por seu didatismo, acabaram tendo menos impacto emocional do que a conversa de Diana com o índio, em Mulher-Maravilha. Uma cena muito mais forte.

O roteiro do filme da Maravilhosa respeita a inteligência do espectador, acredita que a gente vai preencher as lacunas, e a ficha cai de forma muito mais orgânica. Thanks, Pat Jenkins.

Ms. Marvel é bem-sucedida em apresentar a comunidade muçulmana como um grupo de pessoas normais, mas isso não é novidade. A deliciosa e inofensiva Little Mosque on the Prairie fez isso muito bem, no longínquo ano de 2007. Exceto que aqui eles são normais demais.

Visualmente a série é ótima, mesmo meu lado nerd, que odeia mudanças, aceitou os novos poderes (Crédito: Disney+)

Há excesso de interação entre personagens secundários, tramas de fundo como Nakia, amiga de Kamala se candidatar ao Conselho da Mesquita, e, bem... como você se sentiria se interrompessem O Senhor dos Anéis para falar sobre as diversas variedades de ervas que os hobbits fumam? Sim, isso existe no livro e foi devidamente limado do roteiro, grazadeu.

Ms. Marvel foi escrita por gente bem-intencionada que não sabe haver um motivo para nenhum filme mostrar personagens indo ao banheiro, desligando telefone ou procurando estacionamento. A TRAMA tem que ser a Rainha. Tudo tem que se dedicar a avançar a história.

Black Panther foi um filme muito mais bem-sucedido em apresentar uma cultura diferente, sem ser didático nem parar a trama para isso, e uma cultura fictícia, que é bem mais complicado, pois o espectador médio não tem uma referência para se alinhar ou identificar.

Ela ganhou uma máscara (Crédito: Disney+)

Como a maior parte do tempo é gasta com outras coisas, há pouco espaço para desenvolvimento de personagens. Kamala é feliz em casa, dentro do possível, mas no colégio ela é ignorada, ela não é popular. É a nerdinha que ninguém dá atenção, professores erram o nome dela, as colegas mal tomam conhecimento de sua existência.

Aí um dia ela salva a rival usando seus poderes, os vídeos viralizam e mesmo oculta por sua identidade secreta, Kamala adora toda a atenção que seu alter-ego ganhou. Kamala agora é autoconfiante, decidida, chega no colégio, briga com o professor que errou seu nome, se impõe diante das bullyas, Kamala mudou completamente. Em 24h.

Isso é um roteiro quase criminosamente preguiçoso.

As más-línguas dizem que Ms. Marvel é O Clone da Marvel, que tem cara de novela. Maldade. Ms. Marvel é a Malhação da Marvel, uma historinha adolescente, inofensiva, que não questiona nada, todos os personagens que não são vilões são do Bem, e com uma profunda intenção de educar o espectador.

Ironicamente, por mais que eu deteste a personagem nos quadrinhos, no MCU America Chavez é muito mais legal do que a Ms. Marvel e sua vidinha de subúrbio. Chavez tem potencial de se tornar extremamente importante e uma das personagens mais poderosas do MCU, e ela conquistou esse direito.

O lado bom de Ms. Marvel

Fora o elenco, que é ótimo, o visual da série é excelente, os grafismos quando Kamala troca mensagens de celular, com o texto se integrando no cenário, grafites ganhando vida, a Joie de vivre da personagem, é tudo muito bom. Kamala sou eu, Kamala é você, ela é a fangirl dos super-heróis que existem de verdade em seu mundo.

A produção por sua vez está fazendo o dever de casa, não é mais aqueles filmes dos anos 60/70 passados em algum lugar “exótico”, mas com todo mundo comendo Sucrilhos. Há muitas músicas de artistas paquistaneses bem escolhidas, referências a filmes locais, a mitologia está correta e o elenco está cheio de bons atores paquistaneses.

Isso ficou muito legal, não há como negar (Crédito: Disney+)

Diversidade boa é isso, é acrescentar, não mudar o passado.

Kamala tem um longo futuro pela frente, ela vai aparecer em The Marvels, em 2023, e com certeza fará parte dos Young Avengers, consolidando a nova fase do MCU. Ela só não deu a sorte de ter uma boa primeira história, mas convenhamos, isso acontece nas melhores famílias, mesmo nos Khans.

Trailer:

Cotação:

1,5 de 5 preguicinhas voadoras

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