Resenha — Pantera Negra (sem spoilers)

Pantera Negra é uma promessa antiga da Marvel. O filme que mostraria o T’Challa, o rei de Wakanda resolvendo conflitos internos era esperado há anos, principalmente pela preocupação que o estúdio teria em representar a cultura africana de acordo ao mesmo tempo em que teria que vender um filme de super-heróis, ou seja: nem muito sério nem muito despreocupado.

A solução foi contratar o diretor Ryan Coogler (Creed: Nascido Para Lutar) como capitão do barco, e o resultado é uma película que diverte e entretém, mas ao mesmo possui uma sólida preocupação em apresentar um país avançadíssimo mas que é tão humano quanto qualquer outro, com problemas comuns a todos.

Descubra em nossa resenha sem spoilers se Coogler acertou a mão ou não.

Longa Vida ao Rei

A trama de Pantera Negra se passa pouco tempo depois dos eventos de Capitão América: Guerra Civil. Enquanto o mundo pega fogo com os desdobramentos dos heróis caindo na porrada uns com os outros, T’Challa (Chadwick Boseman) volta para casa de modo a assumir as obrigações que sua posição exige: seu pai, o rei T’Chaka está morto e dessa forma é sua missão assumir o trono e manter tudo no lugar, protegendo Wakanda dos olhos do mundo.

A Cidade Dourada é tudo aquilo que vimos a vida toda nos quadrinhos: uma maravilha tecnológica, avançadíssima em relação ao resto do planeta graças à uma fonte gigantesca de vibranium, o metal mais raro da Terra. Enquanto outros só o vêem como um minério para forjar armas e utensílios poderosos (como o escudo do Capitão América), os wakandianos o usam para quase tudo: eles tiveram séculos para extrair todo o seu potencial e aprenderam a emprega-lo das mais diversas formas. Eles o tecem em suas roupas, alimentam suas cidades com energia limpa, dominaram técnicas de magnetismo em supercondutores de forma mais eficiente que outros países e contam com ferramentas de comunicação que fazem o iPad Pro parecer uma tabuleta cuneiforme.

Não fosse uma nação da Terra, Wakanda poderia muito bem se passar por uma sociedade alienígena de tão avançados que são, mas ainda possuem fortes laços com as tradições do passado. Sua guarda de elite (totalmente feminina) não usa armas de fogo, mas lanças. As armas e armaduras de vibranium são tão versáteis que wakand vê pólvora como tecnologia da idade da pedra, enquanto o mundo se acaba com armas comuns ele já possuem canhões que fazem pewpewpew em larga escala.

Ainda assim eles não são belicosos, todo seu poder se fogo é puramente para defesa de suas fronteiras. A política do país é baseada absolutamente Dona Florinda, de não se misturar com a gentalha do resto do planeta e deter seus feitos e avanços só para si. O país sequer possui um programa de assistência humanitária ou de proteção a refugiados, tanto que escondem a capital com hologramas poderosos e vendem a ideia de que são outro paiseco africano como todos os outros.

Esse é talvez o ponto mais acertado do filme: Ryan Coogler mostra que qualquer um pode ser escroto mesmo sem perceber. A sociedade wakandiana é preconceituosa a beça com quem não é nativo, mesmo com outros povos africanos e o medo de serem conquistados por gente de fora os levou ao isolamento total, enganando o mundo à plena vista. Para quem é de fora eles não passam de outra nação agrícola paupérrima, quando na verdade estão mais próximos dos krees em termos de evolução.

E esse preconceito irá mordê-los de volta com força: Erik Killmonger, um assassino e ex-militar dos EUA está de olho em tomar Wakanda para si, de modo a utilizar seus recursos para cumprir um objetivo de outrem, levar a guerra contra todos aqueles que oprimem e segregam os mais fracos. Porém suas intenções não são nobres, ainda que a motivação original seja, ele quer vingança principalmente contra a família real e o rei de Wakanda, e como T’Chaka foi para o outro lado sobrou para T’Challa resolver a bucha.

Tecnicamente o filme é sólido, não é um festival de piadinhas e lida com temas mais sérios e realistas, mas ainda é uma aventura com gente usando roupas de panteras e gorilas, entre outras coisas. É um filme divertido, mas que mostra bem que Wakanda não era tão boazinha quanto poderia ser. Na minha opinião, em termos de entretenimento Pantera Negra é o melhor filme do MCU, enfim superando Capitão América: O Soldado Invernal.

Os personagens

Pode-se dizer que T’Challa está cercado de pessoas excelentes. A rainha-mãe Ramonda (a sempre excelente Angela Bassett) é uma mulher severa, que pega bastante no pé da filha mais nova Shuri (Letitia Wright, que ficou conhecida por Urban Hymn) e mesmo do rei, mas é justa e reconhece a posição em que seu filho agora se encontra; já a caçula é um gênio mesmo para os padrões de Wakanda, e é a responsável por todo o aparato tecnológico à disposição de seu irmão quando este precisa estar pronto para a ação. A cena em que ela dirige remotamente o carro de T’Challa, que está na Pior Coreia é bem divertida por sinal.

Já Nakia (Lupita Nyong’o, a Maz Kanata da nova trilogia Star Wars) é o interesse romântico de T’Challa mas também é uma guerreira, e mais: ela também não concorda com Wakanda dar as costas para o mundo e não compartilhar seus bens mesmo com seus vizinhos africanos, e não entende o medo que a família real e outros wakandianos têm de perder seu estilo de vida se forem mais pró-ativos e menos isolados.

O ponto de ligação entre o mundo externo e Wakanda é justamente o agente da CIA Everett Ross (Martin Freeman, da trilogia O Hobbit), que o Pantera já conhece de Guerra Civil e que ainda não se sentou para bater um papo com o Dr. Estranho. Por uma série de acontecimentos ele vai parar na cidade e o medo que se instaura em alguns por ele ser um agente de inteligência que tem que contar o que viu a seus superiores é geral. Ele é visto por alguns não como um forasteiro, mas como um “primitivo”, um humano atrasado incapaz de assimilar o que vê.

Ainda assim, Ross é um aliado importante e prova sua utilidade e lealdade a seus amigos em um momento decisivo do filme, ainda que bastante engraçado por ele não entender completamente como utilizar os brinquedinhos wakandianos da maneira mais acertada.

Sobre a Okoye, basta dizer que se você está acostumado a ver Danai Gurira chutar bundas em The Walking Dead e espera pelo mesmo aqui, não ficará decepcionado. A capitã das Dora Milaje, a guarda de elite do rei é uma porradeira de primeira que não leva desaforo para casa, mas é sua lealdade ao trono sua maior força e ao mesmo tempo maior fraqueza. Ela é uma militar, uma guerreira nata como todas de sua classe que não utilizam “primitivas” armas de fogo, e confiam totalmente em suas habilidades de combate corpo a corpo. E acredite, isso não é uma desvantagem.

As cenas de confronto do filme são em sua essência batalhas campais, quase não há gente atirando e há desde lanceiras e escudeiros a rinocerontes blindados. Sério.

Sobre Andy Serkis: seu Ulysses Klaue é mau como o Pica-Pau, um explorador ganancioso que vê Wakanda como uma fonte de recursos inesgotáveis a serem pilhados e saqueados, mas ele o faz para proveito próprio e não porque acredita em algum ideal, como seus parceiros de crime no filme. A prótese que ele usa (roubada de Wakanda, para variar) é na verdade um canhão sônico disfarçado mas ele ainda está muito longe de se tornar o Garra Sônica dos quadrinhos, um vilão feito de som puro.

Klaue é uma figura desprezível, um homenzinho pequeno que só visa o lucro e não se importa com quem for pego no fogo cruzado, e só está ajudando Killmonger a cumprir com seus objetivos porque está de olho na potencial bolada que receberá, que eventualmente usará para roubar Wakanda mais uma vez.

Numa participação menor há um velho inimigo do Pantera Negra no filme: M’Baku, líder da tribo rival Jabari e uma figura sempre de olho no trono de Wakanda. A solução para o figurino do ator Winston Duke foi até em convincente, muito melhor do que fazê-lo vestir a pele de um gorila albino como nas HQs, algo completamente impraticável.

Aliás, falando sobre o figurino em si é interessante notar referências a diversos povos africanos, desde o traje das Dora Milaje às roupas cermoniais, tudo é uma mistura harmoniosa do velho com o novo. Mesmo as cicatrizes auto-inflingidas de Killmonger também encontram paralelos nos povos Surma e Mursi, por exemplo.

E falando no diabo…

O vilão

Michael B. Jordan, que trabalhou com Ryan Coogler em Creed deu vida ao melhor antagonista do MCU até agora. A Marvel Studios fez a lição de casa com o Abutre de Michael Keaton, e da mesma forma você simpatiza com a causa de Erik Killmonger até certo ponto. Ele defende que Wakanda pode fazer muito mais pelos oprimidos mundo afora do que se esconder do resto do planeta, mas diferente do primeiro ele é uma massa de ódio e ressentimento, um ex-Black Ops obstinado e bastante ambicioso. Ele odeia todos que lhe viraram as costas e fará tudo ao seu alcance para tomar o trono usar toda a tecnologia de Wakanda para empreender uma campanha global de vingança e conquista.

Você pode não concordar com suas ações, mas entende por que ele faz o que faz no filme. Ele é ambicioso, fato mas fome por poder não é sua única motivação.

Conclusão

Ryan Coogler apresenta uma aventura sólida, com momentos divertidos mas acima de tudo, Pantera Negra é um filme sobre trilhar novos caminhos. T’Challa pagará um preço alto pelos erros dos monarcas passados e dele próprio, de manter uma política isolacionista e não se envolver com os assuntos externos, se recusando a compartilhar seus maiores bens com o mundo. Wakanda é de tirar o fôlego, fazendo jus à versão dos quadrinhos de uma sociedade mais alienígena do que humana de tão avançada, mas ainda atada às tradições africanas que lhe dão uma forte identidade.

Os personagens são excelentes, as cenas de ação são muito boas e o vilão rivaliza com o Abutre, não sendo bidimensional e com uma série de nuances que o fazem entendê-lo e até simpatizar com ele. No fim Pantera Negra é o melhor filme do MCU, uma história sobre corrigir erros do passado e seguir rumo a um futuro grandioso. Quer dizer, pelo menos até Thanos bater na porta da Terra em Os Vingadores: Guerra Infinita.

E como de praxe não saia da sala de cinema até o fim, pois há duas cenas pós-créditos.

Nota:

5/5 Grace Jones.

Pantera Negra estreia nos cinemas brasileiros na próxima quinta-feira, dia 15 de fevereiro. Deixe a grana da pipoca separada desde já.


BRAMarvel — Pantera Negra – Trailer Oficial | 15 de Fevereiro nos Cinemas

O Meio Bit compareceu à cabine de imprensa de Pantera Negra a convite da Disney.

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Autor: Ronaldo Gogoni

Profissional de TI auto-didata, blogueiro que acha que é jornalista e careca por opção. Autor do Meio Bit e Portal Deviante, podcaster/membro fundador/Mestre Ancião do SciCast e host/podcaster do Sala da Justiça.

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