Ronaldo Gogoni 11/06/2026 às 11:05
A Vanillaware é um daqueles estúdios em que é possível identificar seus títulos apenas com uma passada rápida de olhos. Sua identidade visual única e belíssima e mecânicas refinadas de jogabilidade levam a games que, não raro, são exemplos de maestria em diversos gêneros, de plataforma a beat 'em up, de RTS a RPG tático.
Só tinha um único problema: sabe-se lá por quê, em quase três décadas desenvolvendo títulos próprios (considerando Princess Crown), a Vanillaware sempre privilegiou consoles da Sony e Nintendo, e nunca lançou nenhum game para o PC, o que vai mudar em 2027 com a versão definitiva de Muramasa: The Demon Blade, agora chamado Muramasa: Revenant Blades.

Muramasa: The Demon Blade faz parte do seleto grupo de games com uma belíssima direção artística (Crédito: Divulgação/Vanillaware/Marvelous)
Fundada em 2002, a Vanillaware definitivamente não é uma desenvolvedora prolífica. Ela lançou apenas 7 games originais em sua história, desconsiderando ports, remakes e remasterizações; em comum, todos eles foram dedicados a consoles de mesa ou portáteis, especificamente da Sony e Nintendo.
O ranço específico contra a Microsoft pode ser explicado pelo típico bairrismo dos japoneses, que preferem dar preferência a sistemas Made in Japan para prestigiar o cenário local e desenvolvedores/criadores compatriotas; outro motivo pode ser o estigma de "videogame de otakus" que o Xbox carregou lá por muito tempo, graças a games questionáveis como Gal Gun e outros de nicho, como os shmups estilo Bullet Hell da Cave (os dois Mushihime-sama, série Dodonpachi).
Já a ojeriza com o PC tem raízes mais profundas. Uma explicação foi o penoso processo de desenvolvimento de Fantasy Earth Zero (2006), um MMORPG para Windows feito sob encomenda da Enix, em que George Kamitani fundou a então chamada Puraguru para viabilizar o trabalho, em parceria com outro estúdio chamado Multiterm. Resumindo a história, quando em 2003 a Enix se fundiu à Squaresoft, formando a atual Square Enix, o projeto foi simplesmente tomado de suas mãos e passado para outros, que ficaram com os créditos.
O rompimento foi feio a ponto de Kamitani jurar que nunca mais trabalharia com a desenvolvedora de Final Fantasy e Dragon Quest novamente; o trauma foi severo, levando à mudança de nome de seu estúdio de Puraguru para Vanillaware, que iniciou os trabalhos de um sucessor espiritual de Princess Crown, lançado em 1997 para o Sega Saturn quando o japonês trabalhava na Atlus.

Odin Sphere (aqui, o remake Leifthrasir) herdou diversos elementos de Princess Crown, que nunca foi localizado fora do Japão (Crédito: Divulgação/Vanillaware/Atlus/NIS America)
O resultado foi o belíssimo ARPG Odin Sphere (PS2, 2007), o segundo game original da desenvolvedora; o RTS GrimGrimoire chegou ao console de 128 bits da Sony um mês antes, por insistência da Nipon Ichi Software (seu braço ocidental é a bem conhecida NIS America) em distribuir um game do novo estúdio de Kamitani.
Dois anos depois, Muramasa: The Demon Blade foi lançado como um belíssimo plataforma de combate com espadas exclusivo para o Wii, que em 2013 foi expandido como Muramasa Rebirth no PS Vita; os gráficos em 480p foram retrabalhados para a tela de 544p do portátil (ele suportava saída de 720p no PlayStation TV), e quatro novos protagonistas foram adicionados como DLCs, cada um com uma história, jornada e jogabilidade próprias.
Outros títulos da Vanillaware incluem o RPG tático Grand Knights Story (2011), com arte de Kouichi Maenou; o ARPG com elementos de RPGs de mesa Dragon's Crown (2013, o último em que Kamitani atuou como artista), que nasceu de rascunhos de uma sequência cancelada de Princess Crown para o Dreamcast; o RTS 13 Sentinels: Aegis Rim (2019, arte de Yukiko Hirai e Emika Kida); e o também RPG tático Unicorn Overload (2024, arte de Masami Yanagi e Takafumi Noma, que também dirigiu o game). Todos passando longe do Xbox e do PC.
Então veio o anúncio em junho de 2026 de Muramasa: Revenant Blades, a versão definitiva de Muramasa: The Demon Blade com gráficos em 4K e todos os DLCs do PS Vita inclusos. O game chega no início de 2027 para PS5, Nintendo Switch e Switch 2 e, a grande surpresa, Windows; como nem tudo é perfeito, ainda não foi a vez do Xbox.
O game terá localização em português brasileiro nas legendas e interface, ao lado de mais 9 outros idiomas; as opções de dublagem são as mesmas de Muramasa Rebirth, inglês e japonês.
Esse anúncio é relevante pelo fato de que, pela primeira vez em mais de 20 anos, a Vanillaware vai testar as águas da audiência de jogadores de PCs, seja no Windows ou no Linux em plataformas como o Steam Deck, rodando via camadas de compatibilidade. Seus games sempre foram elogiados como exemplos refinados em determinados gêneros que nunca puderam ser apreciados em computadores por meios legais; emulação não conta, por razões óbvias.
Ao mesmo tempo, a chegada de Muramasa: Revenant Blades servirá também para avaliar se há a possibilidade não só de lançar novos títulos em mais sistemas, mas de também portar outros antigos da mesma forma; games como Unicorn Overload extrairiam muito mais fazendo uso de controles com teclado e mouse, enquanto Dragon's Crown é uma carta de amor ao RPG de mesa, um gênero que foi adaptado inicialmente em computadores.
Muramasa: The Demon Blade é considerado o melhor título da desenvolvedora japonesa mas, por um infortúnio do destino, ficou relegado a duas plataformas descontinuadas por anos a fio, sem nenhum indício de que a Vanillaware pretendia resgatá-lo e disponibilizá-lo para novos jogadores em sistemas modernos. Levou quase 14 anos, mas antes tarde do que nunca.

Quem sabe um dia, Dragon's Crown não apareça no PC ou mesmo em consoles Xbox? (Crédito: Divulgação/Vanillaware/Atlus)
De qualquer forma, a chegada de Muramasa: Revenant Blades ao PC é algo a celebrar, pois abre a possibilidade de a Vanillaware se tornar mais flexível e vislumbrar mais sistemas para futuros games e remakes/remasterizações, o que pode servir para incentivar outros estúdios a fazerem o mesmo. Claro, vai depender da resposta do público, o que acredito que será positiva.
Enquanto isso, aos jogadores no Xbox só resta torcer para serem lembrados em uma próxima oportunidade.