Ronaldo Gogoni 14/07/2026 às 14:06
Já se passaram seis anos desde que o "trampolim" da NASA, mais precisamente a cápsula Dragon 2 da SpaceX, entrou em funcionamento. As versões Crew Dragon (tripulada) e Cargo Dragon (transporte de, obviamente, carga) realizaram 19 missões bem-sucedidas em direção à Estação Espacial Internacional (ISS) de lá para cá, com a 20.ª atualmente em curso (a 12.ª operacional) e sem contar os três testes anteriores.
Se por um lado a agência espacial norte-americana se livrou da dependência das Soyuz russas, por outro ela também não vê com bons olhos a falta de alternativas às cápsulas da companhia de Elon Musk entre os parceiros mais próximos; o plano original visava o desenvolvimento de duas plataformas, mas só a SpaceX entregou, enquanto a Boeing, que recebeu (muito) mais grana... bem, todo mundo viu o que aconteceu.

Crew Dragon funciona muito bem, mas a NASA não curte ficar sem alternativas (Crédito: Divulgação/NASA)
O Programa de Tripulações Comerciais era bem sucinto em sua proposta: estabelecer plataformas de lançamento em direção à ISS para levar astronautas e carga para a estação, de modo a se livrar da dependência da Roscosmos, que chegou a cobrar valores altíssimos por cabeça transportada. O projeto em si só foi viabilizado pela entrada da Boeing na concorrência, visto que o Congresso não ia (e não vai até hoje, sejamos sinceros) com a cara de Musk.
Isso foi tão verdade que a companhia tradicional foi várias vezes agraciada com mais dinheiro no desenvolvimento da CST-100 Starliner; a Boeing embolsou ao todo US$ 4,93 bilhões (~R$ 25,07 bilhões, cotação de 14/07/2026) para realizar 6 lançamentos (~US$ 731,7 bilhões, ou ~R$ 3,72 bilhões por missão), contra US$ 4,93 bilhões (~R$ 25,08 bilhões) destinados à SpaceX para 15 voos, que sairão muito mais baratos (~US$ 328,7 milhões, ou ~R$ 1,67 bilhão por missão).
No entanto, a sucessão de trapalhadas da Boeing no desenvolvimento da Starliner, que atrasou horrores, sofreu falhas crassas e culminou em um lançamento que por muito pouco não acabou em uma tragédia nível Challenger ou Columbia, deixou a NASA apenas com as Dragon como opção viável. Dando razão a quem tem, o trabalho da SpaceX foi tão bem feito que convenceu a agência a rever o plano original, que era descartar cada módulo após um único uso, autorizando dessa forma a reutilização das cápsulas.
O cenário atual é menos do que o ideal para a NASA. Na melhor das hipóteses e como forma de justificar a grana gasta, a Starliner terá que voar de todo jeito, mas isso só deverá acontecer por volta de 2028 e olhe lá. De qualquer forma, a ISS deverá ser descomissionada até o fim de 2030, usando uma manobra de derrubada coordenada; a agência até considerou a proposta maluca de movê-la para uma órbita mais elevada, mas a classificou como inviável.
E não, a NASA não vai permitir que os russos desacoplem seu módulo; vai tudo mergulhar no oceano (muito provavelmente o Pacífico) e ponto final.
Com a ISS perto do fim, a NASA está promovendo a construção de estações espaciais comerciais, em que as atuais empresas envolvidas no esforço são Axiom Space, Vast Space, Voyager e Blue Origin. Dessas, Axiom Space e Vast Space já usaram ou usarão as Dragon em suas operações.
A SpaceX muito provavelmente também entrará nessa seara, mas com uma proposta diferente: usar uma Starship como estação E como cápsula para outras plataformas; a CEO Gwynne Shotwell já declarou anteriormente que tanto a Crew Dragon quanto a Cargo Dragon serão "operadas por um número finito de anos", no máximo por 10 anos ao todo, e eventualmente a companhia irá transitar para seu foguete que, quando operacional, será o mais poderoso da história.
O grande problema, se é que podemos chamar assim, é a SpaceX aderindo à mesma filosofia da Boeing com o SLS, que é tratá-lo como um "martelo" e usá-lo para resolver todos os problemas, vistos como "pregos". A Starship está sendo posicionada hoje como plataforma de lançamento para carga e astronautas, lander lunar e marciano e, com o tempo, será movida para cumprir as mesmas funções da Dragon, acoplando-se a estações (na maioria das vezes, muito menores) em órbita baixa.
A NASA prefere que a SpaceX mantenha as Dragon por mais tempo, mas ao mesmo tempo, não é ideal depender de apenas uma contratante, já que a Boeing não apresentou nada funcional e a Blue Origin, que estaria desenvolvendo um módulo para uso com o foguete New Glenn, não fez parte do programa original; os custos para manter o Falcon 9 e as cápsulas teriam subido ao longo dos anos, embora a empresa de Elon Musk não dê detalhes.
Segundo uma fonte próxima, se as Dragon forem mesmo descontinuadas em 2030, a NASA se veria numa situação delicada ou, usando os termos mencionados, teria em mãos "um desastre anunciado".
Nesse meio tempo, a pan-europeia The Exploration Company (TEC) está considerando montar uma base de operações em Dallas, para especificamente desenvolver uma cápsula concorrente das Dragon. Financiada pela Agência Espacial Europeia (ESA), a companhia da CEO Hélène Huby é responsável pela Nyx, modelo que passou por uns probleminhas em 2025 em um teste preliminar que por acaso, foi perdido com as cinzas de 166 pessoas, para tristeza de seus entes em terra firme.
A TEC acredita que uma versão da Nyx compatível com a ISS, e posteriormente com outras estações comerciais, estará pronta para testes entre 2028 e 2029, mas até lá a NASA não tem muitas opções, exceto convencer Musk e Shotwell a manterem as Dragon voando pelo máximo de tempo possível, e talvez um pouco além disso.
Fonte: Ars Technica