Ronaldo Gogoni 09/07/2026 às 19:20
The Ghost in the Shell, o mangá de Masamune Shirow publicado em 1989, é uma das pedras angulares do gênero cyberpunk, ao lado de clássicos como Neuromancer, Akira e os contos de Philip K. Dick, que deram origem a Blade Runner.
Sua bela e complexa arte, aliada ao texto inteligente que questiona temas como humanidade e inteligência artificial, consciência e livre-arbítrio, ressoa ao longo das décadas e gerou inúmeras adaptações, desde o excelente longa animado dirigido por Mamoru Oshii, às séries anime Stand Alone Complex e Arise, e sim, o polêmico filme estrelado por Scarlett Johansson também entra na conta.

Bem-vinda de volta, Motoko (Crédito: Reprodução/Kodansha/Bandai Namco Filmworks/Science Saru/Amazon)
Desde 1995, a maioria das adaptações se baseou fortemente no roteiro de Oshii para o filme, que é bem mais sério que o mangá original de Shirow, o que nos traz ao novo anime que acaba de desembarcar no streaming, uma fantástica versão ipsis-litteris e desenhada à mão da obra que deu origem a tudo.
A trama de The Ghost in the Shell segue os eventos do mangá, casos investigados por uma unidade de combate de elite comandada em campo pela major Motoko Kusanagi. No "futuro distante" de 2029 (dá um desconto, a obra original tem quase quatro décadas), implantes, próteses e interfaces cérebro-máquina se tornaram comuns, o mundo é totalmente interconectado por vastas redes de comunicações, similar à ideia da World Wide Web que, por "coincidência", surgiu no mesmo ano.
Como comentamos antes, Shirow estava bem antenado com os desenvolvimentos tecnológicos da época e extrapolou conceitos reais para uma sociedade em que todo mundo tem acesso a qualquer tipo de informação online. Neste mundo, em vez de computadores ou smartphones, o principal meio de navegação é usando o cérebro, que também pode ser parcial ou totalmente sintético, no caso de IAs autônomas (mas não sencientes) com corpos artificiais.
Aqui se aplica o conceito de "fantasma", o termo usado para a alma, e o questionamento sobre até onde a humanidade sobrevive em um corpo quase totalmente mecânico, como no caso de Motoko ou Batou, ou se um ser artificial pode adquirir consciência e se declarar um ser vivo e pensante, quando a Ciência moderna não pode sequer dizer onde a consciência começa ou termina, ou se ela pode ou não ser computada.

O visual é lindo... e a Major está bem à vontade (Crédito: Reprodução/Kodansha/Bandai Namco Filmworks/Science Saru/Amazon)
Voltando a GITS, cada adaptação viu o mangá de Masamune Shirow de um modo diferente, mas é fato que o filme de 1995 e sua sequência, Ghost in the Shell: Innocence (2004), influenciaram tudo o que veio depois (e outras coisas mais, como Matrix), principalmente no roteiro. As séries Stand Alone Complex e Arise eram todas mais sérias e sóbrias, enquanto a obra original tinha muitos maneirismos dos anos 1980, especialmente no humor e erotismo, incluindo "aquelas" duas páginas podadas em várias localizações, edição brasileira inclusa.
The Ghost in Shell, a série nova usa o nome original em inglês com o "The", nunca aplicado em nenhuma outra adaptação, o que dá o tom logo de cara: a produção do estúdio Science SARU (Dandadan, Scott Pilgrim Takes Off!, Star Wars: Visions) busca resgatar o clima e ambientação do mangá de Shirow, e para isso algumas decisões curiosas foram tomadas.
Primeiro, a animação em si é quase totalmente feita à mão; o uso de CGIs é reservado a máquinas e robôs, o que é também uma crítica bem direta ao uso indiscriminado de IAs generativas em animação e ilustrações, defendidas pela ala pró-algoritmos como o "futuro". Os produtores da série, assim como vários outros profissionais, entendem que a mecanização sem propósito e visando substituir humanos (e roubar seus empregos) é má, e nada é capaz de substituir a criatividade humana, perfeita em suas imperfeições.

A série é 16+, logo, tem sangue a rodo (Crédito: Reprodução/Kodansha/Bandai Namco Filmworks/Science Saru/Amazon)
Sobre o humor, algo que os fãs da Major acostumados com SAC, Arise e o filme de Mamoru Oshii podem estranhar, saiba que seu uso foi perfeitamente equilibrado com os momentos de ação e suspense; The Ghost in the Shell te faz rir quando há espaço para piadinhas e te deixa tenso quando o circo pega fogo. Já sobre o lewd, vale lembrar que esta é uma série para jovens (16+), então não espere algo muito mais explícito que bodies cavados e closes de bunda.
A dublagem é muito bem executada. A versão japonesa conta com Maaya Sakamoto, a Aerith de FFVII, que dublou Motoko Kusanagi em várias oportunidades (mais precisamente em Arise e no filme de Oshii, no flashback da protagonista quando jovem), mas desta vez ela assume o papel que por muito tempo foi associado à falecida Atsuko Tanaka, e ela calça seus sapatos como deve ser. Sua major é séria e sarcástica em igual medida, e tem voz de comando quando é preciso partir para a ação.
Na dublagem brasileira, a protagonista ficou a cargo da atriz Flora Paulita, a voz da Brigitte de Overwatch, e ela também manda muito bem.

As cenas de ação são muito bem executadas (Crédito: Reprodução/Kodansha/Bandai Namco Filmworks/Science Saru/Amazon)
A qualidade da animação feita à mão em sua maioria, e a decisão estética de dar a The Ghost in the Shell um feeling o mais próximo possível do mangá foram unidas a uma trilha sonora que combina música eletrônica e jazz com orquestra, uma combinação inusitada e hoje um tanto incomum em animações, independentemente do leste ou oeste, que optam mais por soluções sintéticas.
Isso fez com que o anime ficasse com uma cara e clima típicos de animações dos anos 1990, o que parece ser uma curiosa tendência, se lembrarmos de X-Men '97. Ambas produções apostaram na nostalgia feita de um jeito orgânico, focando em estilos de animação não alinhados com as tendências e exigências dos estúdios de hoje, que querem tudo ao mesmo tempo agora e não raro, terceirizam produções para a China em nome de economizar tempo e dinheiro, o que pode criar alguns contratempos.

A série é séria quando precisa ser, mas o tom geral é bem debochado, como o mangá original (Crédito: Reprodução/Kodansha/Bandai Namco Filmworks/Science Saru/Amazon)
No mais, vale o aviso: o anime é voltado para jovens a partir de 16 anos e é violento até dizer chega, com explosões, gente levando tiros, cabeças explodindo, cérebros (orgânicos e sintéticos) sendo fritos e sangue para todo lado, mas as cenas mais explícitas foram levemente censuradas em nome da sensibilidade geral do público, e para viabilizar a exibição sem restrições no Prime Video. Afinal, Jeff Bezos precisa de mais um iate.
É possível que, quando a série chegar ao Home Video no Japão, ela seja lançada em uma versão 18+ com cenas mais viscerais, mas sinceramente, o efeito quadriculado até tem um charme e deixa mesmo uma cena aparentemente séria com um tom cômico, principalmente a do prólogo no primeiro episódio.
Prevista para ter 10 episódios, The Ghost in the Shell deve cobrir todos os capítulos do mangá original e, caso a recepção seja boa, podemos esperar mais temporadas para abordar os volumes seguintes, 1.5: Human Error Processor e 2: Man-Machine Interface. De qualquer forma, a obra do Studio Saru é ao mesmo tempo um testamento em defesa da animação tradicional, que ainda tem seu valor, e a realização de um desejo antigo dos fãs da Major Motoko Kusanagi e de Masamune Shirow, que queriam ver uma versão fiel da primeira versão da obra na telinha.

A paleta de cores e os efeitos remetem a produções dos anos 1990, o que é apenas... correto (Crédito: Reprodução/Kodansha/Bandai Namco Filmworks/Science Saru/Amazon)
É quase certo que alguns mais apegados ao filme de Mamoru Oshii e às séries Stand Alone Complex e Arise torçam o nariz de início para uma protagonista mais debochada e piadista, e bem menos séria do que a vista nessas obras, mas continua sendo interessante conhecer como a franquia começou e de que forma Motoko foi idealizada por seu criador, antes que outros dessem suas próprias interpretações de como a Major deveria ser.
O mais belo é que todas são válidas, não há uma melhor ou pior. Motoko pode ser o que ela quiser, assumir qualquer identidade e aparência, e é livre inclusive para inclusive voltar à origem e ser mais solta e menos sisuda. E isso vale também para a Major do filme live-action que, não custa lembrar, teve a benção de Masamune Shirow.
5/5 Fuchikomas.
The Ghost in the Shell está disponível no Prime Video.