Meio Bit » Entretenimento » Scott Pilgrim Takes Off! — vai um remix aí?

Scott Pilgrim Takes Off! — vai um remix aí?

Scott Pilgrim Takes Off! reinterpreta a obra de Brian Lee O'Malley, em uma versão mais profunda da HQ e do filme

11 semanas atrás

Scott Pilgrim, a HQ em 6 volumes de Brian Lee O'Malley, já era um sucesso no cenário independente de quadrinhos, quando ganhou projeção graças a Scott Pilgrim Contra o Mundo, o filme de 2010 dirigido por Edgar Wright (Trilogia Sangue e Sorvete). A obra virou um fenômeno cultural, rendeu um game, e foi considerada uma das melhores coisas lançadas nos anos 2000.

A linguagem rápida, e as inúmeras referências à cultura gamer e otaku, conquistaram fãs em todo o mundo, Ramona Flowers se tornou a segunda manic pixie dream girl da década depois da Zooey Deschanel, e desde aquela época, muitos se perguntavam o óbvio: "por que Scott Pilgrim não virou uma animação"?

Scott Pilgrim Takes Off! (Crédito: Divulgação/Science Saru/Marc Platt Productions/Complete Fiction/Faust Av/Universal Content Productions/Netflix)

Scott Pilgrim Takes Off! (Crédito: Divulgação/Science Saru/Marc Platt Productions/Complete Fiction/Faust Av/Universal Content Productions/Netflix)

Foi preciso uma bolada da Netflix para convencer O'Malley e Wright a revisitarem Toronto, com o anime Scott Pilgrim Takes Off! (no Brasil, ele ganhou o nada original nome Scott Pilgrim: A Série), e convencerem quase todos os atores do filme a voltarem, mesmo os que hoje são superstars.

Porém, O'Malley se recusou a simplesmente adaptar o quadrinho de novo; ao invés disso, Takes Off! conta uma história nova ao mudar uma "coisinha" do lugar.

AVISO

A fim de abordar o plot principal de Scott Pilgrim Takes Off! da melhor maneira possível, teremos muitos, muitos SPOILERS. Leia por sua conta e risco.

Igual, mas diferente

O primeiro episódio de Scott Pilgrim Takes Off! começa exatamente igual à HQ e ao filme: Scott (Michael Cera) é um jovem de 22 anos que vive em Toronto, não trabalha, vive de favor na casa de seu amigo gay Wallace Wells (Kieran Culkin), está namorando uma colegial de 17 anos chamada Knives Chau (Ellen Wong), e é baixista da banda Sex Bob-omb, com Stephen Stills (Mark Webber) e Kim Pine (Alison Pill).

Um dia, ele encontra a "garota dos sonhos" Ramona Flowers (Mary Elizabeth Winstead), tem um encontro com ela, fica indeciso sobre assumir o namoro e dispensar Knives, e nesse meio-tempo, durante um show da banda, é desafiado por Matthew Patel (Satya Bhabha), o primeiro membro da Liga dos Ex-Namorados Malignos.

Aqui tudo muda: diferente do que acontece na HQ e no filme, Scott é derrotado e vira C$ 2,10, não Matthew. Sim, o "protagonista" morre na primeira luta, no fim do primeiro episódio, e sim, isso foi deixado de fora do material promocional de propósito, em prol do fator surpresa.

Ninguém esperava por essa (Crédito: Reprodução/Science Saru/Marc Platt Productions/Complete Fiction/Faust Av/Universal Content Productions/Netflix)

Ninguém esperava por essa (Crédito: Reprodução/Science Saru/Marc Platt Productions/Complete Fiction/Faust Av/Universal Content Productions/Netflix)

De fato, a trama foi entregue no título, Takes Off foi usado não no sentido de "decolar", e sim de "cair fora", "retirado", "eliminado". Sim, o anime de Scott Pilgrim não é sobre Scott Pilgrim, e há um motivo para isso.

O'Malley, que co-escreveu o roteiro da série com BenDavid Grabinski (Clube do Terror), explicou em entrevistas não ter a menor vontade de "revisitar seus 20 anos", no que Scott Pilgrim foi publicado entre 2004 e 2010. Takes Off! se tornou uma chance de contar uma história familiar de outro jeito, focando em todo mundo ao redor de Scott, de Ramona e Wallace a Knives e Kim, e até mesmo os exs, todos mais interessantes que Scott.

Ao mesmo tempo, é preciso admitir algo que já estava implícito, mas muitos ignoraram em prol da aventura: assim como o professor Xavier...

"Scott Pilgrim é um babaca!"

O primeiro título do primeiro volume, e a primeira fala do filme, já denunciam que nosso protagonista não é um exemplo moral: Scott Pilgrim está namorando uma colegial. Ele faz questão de não ter um emprego (ele diz que está "entre empregos" a Ramona, mas também não está procurando), é um parasita social, o que tira Wallace do sério.

Ele é o personagem principal de sua história particular (todos nos vemos assim), mas na HQ, fica ainda mais evidente que ele tem uma série de falhas, como não lembrar dos eventos reais de quando namorou Kim Pine (ele espancou o ex dela sem motivo), e Envy Adams (Brie Larson), que o deixou porque Scott bebia demais.

De fato, Scott Pilgrim "estacionou" na adolescência, ele é bancado pelos pais ad aeternum (no volume 6, eles alugam outra casa para ele morar), Envy se cansou de sua personalidade de moleque que não quer se responsabilizar por nada, e que na sua visão, todos no seu caminho para ficar com Ramona são inimigos.

Isso fica ainda mais evidente quando você descobre que Scott não morreu, mas foi puxado para o futuro por uma versão mais velha dele mesmo, dublada por Will Forte (o impagável MacGruber), e se dá conta que aquele é o Scott "prime", o que venceu os exs na HQ e no filme, e que no fim foi também abandonado pela Ramona, pelo mesmo motivo: ele se recusa a crescer.

E o Scott velho AINDA mora de favor na casa do Wallace, 15 anos depois.

Mesmo o jovem Scott reconhece que continuar parasitando Wallace no futuro não é legal; o Scott velho, óbvio, não (Crédito: Reprodução/Science Saru/Marc Platt Productions/Complete Fiction/Faust Av/Universal Content Productions/Netflix)

Mesmo o jovem Scott reconhece que continuar parasitando Wallace no futuro não é legal; o Scott velho, óbvio, não (Crédito: Reprodução/Science Saru/Marc Platt Productions/Complete Fiction/Faust Av/Universal Content Productions/Netflix)

Quem leu a HQ entende que Scott é o típico protagonista que não merece a sorte que tem, mesmo que no final ele tenha se comprometido a se tornar uma pessoa melhor. Takes Off! mostra, entretanto, que ele não aprendeu nada e continua culpando o mundo por seus problemas, e não faz nada quanto a isso.

"Ramona, esta é a sua vida"

Scott só volta a aparecer no fim do 6.º episódio, e mesmo depois disso, fica evidente que esta é uma série da Ramona, que O'Malley deu mais agência do que ser "prêmio" do vencedor. Claro, os mesmos pontos de sua personalidade conflitante permanecem, como ela ter namorado os gêmeos Takayanagi (aqui, ambos dublados por Julian Cihi) ao mesmo tempo, e ter virado um contra o outro, sem motivo.

Até a Kim solta um damn, Ramona quando ela conta essa história, e se pararmos para pensar, Flowers sempre foi um pouco babaquinha também, mas aqui ela foi permitida a perceber isso, e a corrigir suas falhas, diferente de Scott. De certa forma, os papéis de ambos foram invertidos, é ela quem mais evolui, não ele.

Isso permitiu a Scott Pilgrim Takes Off! explorar melhor a Liga dos Ex-Namorados Malignos, que de maus não têm nada, exceto Gideon Graves (Jason Schwartzman), que desde a HQ era um Scott com motivação: o cara que não supera os tocos que leva de garotas, e mantém todas congeladas como troféus.

Aqui um pouco mais do seu passado é revelado, inclusive seu nome verdadeiro, mas ele continua sendo o mesmo crápula manipulador de antes; a grande novidade é sua nova parceira no crime, Julie Powers (Aubrey Plaza).

Dentre os exs é Matthew Patel, o menos explorado originalmente, quem progrediu mais, tendo inclusive tomado a liga das mãos de Gideon. As histórias de Lucas Lee (Chris Evans), Todd Ingram (Brandon Routh) e Roxie Richter (Mae Whitman) são melhor desenvolvidas, eles se tornaram o que são depois de Ramona passar por suas vidas, para o bem e para o mal.

E o espectador percebe que Scott Pilgrim não foi nenhum herói ao chutar a bunda deles.

Roxie Richter é a primeira dos exs a quem Ramona admite, "eu fiz besteira" (Crédito: Reprodução/Science Saru/Marc Platt Productions/Complete Fiction/Faust Av/Universal Content Productions/Netflix)

Roxie Richter é a primeira dos exs a quem Ramona admite, "eu fiz besteira" (Crédito: Reprodução/Science Saru/Marc Platt Productions/Complete Fiction/Faust Av/Universal Content Productions/Netflix)

A mensagem que a série passa é "hora de crescer", para Scott (o jovem E o velho), Ramona, os exs, e também para o espectador, contente em sua zona de conforto, que queria uma versão de uma obra querida, apenas mudando a aparência, mas com o mesmo roteiro.

A abordagem de O'Malley, e o tapa na cara, são bem parecidos com o que Lana Wachowski fez com Matrix Resurrections, inclusive.

Então Takes Off! é um dramalhão?

Pelas barbas de Odin, não, nem de longe! Scott Pilgrim Takes Off! segue a mesma fórmula da HQ e do filme, só conta a mesma história de outro jeito. Tudo o que a fez uma salada mista de referências obscuras e conceitos da cultura gamer e otaku está no lugar, citações a games, quadrinhos, you name it.

Claro que há uma série de referências novas, incluindo uma cover impagável do velho Scott e dos gêmeos de Konya Wa Hurricane, do OVA Bubblegum Crisis de 1987.

A versão original, cantada por Kinuko Oomori, a primeira Priss Asagiri, pode ser ouvida também, ao lado de outras músicas de cantores e bandas como Johnny Cash, Dead Kennedys, X, Cristina, e claro, Plumtree, com a inevitável Scott Pilgrim.

A abertura do anime, Bloom, ficou a cargo da banda de punk rock japonesa Necry Talkie, e as músicas incidentais foram compostas pela banda Anamanaguchi, que musicou Scott Pilgrim vs. The World: The Game.

É um anime baseado em games, tem ação a rodo (Crédito: Reprodução/Science Saru/Marc Platt Productions/Complete Fiction/Faust Av/Universal Content Productions/Netflix)

É um anime baseado em games, tem ação a rodo (Crédito: Reprodução/Science Saru/Marc Platt Productions/Complete Fiction/Faust Av/Universal Content Productions/Netflix)

O anime em si é um primor, cortesia do estúdio Science Saru, que ganhou notoriedade graças a obras como Space Dandy e Devilman Crybaby, e que animou dois episódios da primeira temporada da antologia anime Star Wars: Visions, T0-B1 e Akakiri.

A identidade visual da HQ foi adaptada perfeitamente para o formato anime (o que foi fácil, ele já era um mangá desde o início), e a linguagem rápida das animações japonesas casou bem com a narrativa. As cenas de luta, como a de Ramona vs. Richter pulando de um VHS para outro (lembrando que a obra se passa no início dos anos 2000), e a que reúne todo mundo contra o último chefão, são bem legais.

Por fim, o trabalho de dublagem no áudio original, com quase todo o elenco do filme de volta, é excepcional, não devendo em nada às interpretações de 2010, em alguns casos, elas estão ainda melhores.

A cutucada no rival

Na HQ e no filme, Ramona trabalhava como courier da Amazon; no anime, ela obviamente entrega DVDs da Netflix.

Conclusão

Scott Pilgrim Takes Off! permitiu a todos que não se chamam Scott Pilgrim crescerem e aparecerem, dos aliados aos exs. Knives Chau, por exemplo, se descobre um gênio da música, capaz de aprender a tocar em horas qualquer instrumento em que ela coloca a mão, e a cena da "cozinha", com ela no baixo e Kim na bateria, é deliciosa.

Ao mesmo tempo, Scott talvez esteja destinado a continuar sendo um babaca, por mais que ele odeie sua versão futura (realidade alternativa? Quem sabe?), e Ramona reconhece sua propensão a fugir das coisas, e pessoas, que ama. O casal, e o espectador, aprendem que, mais do que pensar no futuro, é importante viver o momento, e tentar ser uma pessoa melhor no processo.

Hora de botar pra quebrar (Crédito: Reprodução/Science Saru/Marc Platt Productions/Complete Fiction/Faust Av/Universal Content Productions/Netflix)

Hora de botar pra quebrar (Crédito: Reprodução/Science Saru/Marc Platt Productions/Complete Fiction/Faust Av/Universal Content Productions/Netflix)

Embora a série termine com um gancho gigantesco, Brian Lee O'Malley já declarou não ter a mínima vontade de voltar ao universo de Ramona e Scott, e que o anime condensou tudo o que ele queria abordar.

Talvez seja melhor assim, saber quando terminar sua história é essencial, e a resolução de quase todos os personagens deixa claro que estão cada um em seus caminhos. Assim como Matrix deveria ter parado no primeiro, com o Neo voando, fica ao espectador imaginar o que virá a seguir.

Claro, a menos que a Netflix insista, assim como a Warner com Matrix, em ordenhar Scott Pilgrim até as vidas extras acabarem.

Nota:

Crédito: Divulgação/ StudioCanal/Working Title Films/Big Talk Productions/Rogue Pictures/Universal Pictures/StudioCanal

5/5 Simon Pegg e Nick Frost.

Onde assistir:

Scott Pilgrim Takes Off! está disponível na Netflix.

Leia mais sobre: , .

relacionados


Comentários