Ronaldo Gogoni 07/07/2026 às 14:46
A demanda da Inteligência Artificial (IA) por componentes, especialmente memórias DRAM e NAND, causou uma crise no fornecimento destes para qualquer empresa que não seja do grupo seleto que inclui OpenAI, Nvidia, Google, Meta, Microsoft, Anthropic e afins; mesmo a Apple sofreu para assegurar peças para seus próximos iPhones, e isso se refletirá nos preços.
O público geral vem percebendo que todos, sem exceção serão afetados, e agora um novo relatório aponta mais uma baixa: com o custo de RAM e chips em geral cada vez mais alto, fabricantes de celulares podem simplesmente desistir de fabricar dispositivos mais baratos e de entrada, por deixarem de compensar do ponto de vista de negócios.

Celulares acessíveis, como o Galaxy A17 5G acima, podem estar a caminho da extinção (Crédito: Thássius Veloso/Tecnoblog/Meio Bit)
Um pouco de contexto antes de mais nada: como mencionei no último texto, SK Hynix, Samsung e Micron, a tríade de companhias que controlam cerca de 90% do mercado de memórias DRAM, estão sendo processadas nos EUA, alvos de uma ação coletiva de um grupo de consumidores e empresas por agirem como um cartel, coordenando cortes deliberados na produção de chips que resultaram em um aumento insano de 700% nos preços dos componentes, nos últimos quatro anos.
Vale lembrar que esse mesmo trio já foi alvo de ações passadas ao longo das últimas duas décadas: Samsung e SK Hynix pagaram multas milionárias nos EUA por fixação de preços entre 2005 e 2006, e em 2018 o grupo foi alvo de outro processo, rejeitado pela Justiça por falta de provas. Para mais detalhes, recomendo este post que está bem completo.
Em suma, não pense que o aumento de preços descontrolado de RAM, armazenamento e tudo o mais no meio se deu puramente devido à maior demanda por parte das aceleradoras de IA; as fornecedoras apenas observaram para onde o mercado estava caminhando e se anteciparam. Mas divago.
O efeito da alta no preço dos componentes será sentido em todos os setores da sociedade, devido à nossa dependência de RAM e memórias Flash nas mais diversas aplicações, produtos e serviços, de celulares e tablets a PCs, de consoles de videogame a TVs, de infraestrutura de redes à telefonia celular, e isso afetará em cadeia outros departamentos como transporte, alimentação, saúde, educação, fornecimento de água e energia (que alguns já estão pagando mais caro), internet, etc.
Vamos observar o mercado mobile desta vez: fabricantes como Apple, Samsung, Motorola e cia. irão, sem sombra de dúvidas, repassar a alta para os produtos finais de suas linhas, com dispositivos de ponta custando bem mais caro do que hoje; há informes de que o Galaxy Fold Z 8 (que na verdade é o mais largo e que quase se chamou Z Fold 8 Wide, mas herdou o nome "antigo") e o Fold Z 8 Ultra (o sucessor do Z Fold 7; sim, é complicado) vão custar sensivelmente mais.
Só que uma coisa são as linhas premium e ultra premium, voltadas a consumidores que podem pagar caro e geralmente o fazem, independentemente do motivo, e outra são os smartphones de entrada, tradicionalmente mais limitados em configurações, mas baratinhos, direcionados ao público com menor poder aquisitivo; sobre esses, um relatório recente desenhou um cenário nada amigável.

Aparelhos como o Moto Edge 50 Neo, embora mais comedidos em especificações, são atraentes ao público com menor poder aquisitivo (imagem: Divulgação/Motorola)
O documento do site chinês MyDrivers, ligado à cena de produção do País do Meio, diz que o mercado de IA irá consumir metade de todos os chips de memória produzidos até o fim de 2026; dessa forma, outras companhias terão não só que pagar MUITO caro pelos componentes que conseguirem adquirir, mas terão que rebolar para garantir o suprimento adequado para suas necessidades, o que não é mais garantido por Samsung, SK Hynix e Micron, por estas lucrarem muito mais atendendo Nvidia, OpenAI e cia. de forma quase exclusiva.
Os custos para fabricar um celular ficaram terrivelmente altos, forçando as OEMs a repassá-los para o consumidor final, mas isso funciona melhor com dispositivos que já são muito caros; celulares de entrada, na faixa dos US$ 220 (~R$ 1.135 em conversão direta, cotação de 07/07/2026, ou por volta de R$ 2,2 mil no varejo), têm uma margem para manobra muito menor, e forçar demais o ticket médio inviabiliza o produto, que se torna além do que um consumidor com bolsos mais rasos pode pagar.
Se subir preços de celulares de entrada não é uma opção, e lançá-los capados (4G, 64 GB de espaço, 4 GB de RAM, etc.) também não é viável, a única solução restante é abolir por completo as linhas mais básicas, algo que o relatório diz que é quase certo que irá acontecer, por um motivo simples:
O custo com memórias hoje responde por 60% do preço final de um gadget, e vender um produto caro para produzir quase no zero a zero ou com prejuízo não é aceitável; empresas não são ONGs, e sua missão (de qualquer uma) é dar lucro. Por mais que este seja um cenário em que celulares se converteriam em produtos voltados ao público mais abastado, aqui valeria o velho "trabalhar para pobre é pedir esmola para dois". Não faria sentido continuar atendendo um público que só trará prejuízo.
Uma alternativa dada por companhias, inclusive pela Apple, para aliviar a situação é contar com fornecedoras de memórias da China, como CXMT e YMTC, mas o problema neste caso tem nome e sobrenome: Donald J. Trump. O governo dos EUA impôs sanções pesadas a ambas as companhias, que são virtualmente proibidas de fazer negócios fora do país natal; tal medida poderia ajustar a cadeia de suprimentos e permitir que empresas operem de forma mais saudável, mas tal medida não reduziria os preços para o consumidor final.
Por enquanto a Casa Branca não tem a menor intenção de remover as sanções, que permitiriam à CXMT e YMTC concorrerem com o cartel, quer dizer, com SK Hynix, Samsung e Micron no fornecimento global de memórias DRAM, ainda que grandes seriam as chances destas também concluírem que vender para aceleradoras de IA seria um negócio muito mais lucrativo.
Fonte: MyDrivers (em chinês)