Carlos Cardoso 30/06/2026 às 19:05
Existe uma reclamação Corrente de que não há mais series ou filmes originais, tudo é remake, tudo é um remix, reboot ou cópia de material antigo. Hollywood tem aversão a risco, então nada de novo é criado.

Eu não tenho palavras (Crédito: Hanna-Barbera Productions/DC Comics/Warner Bros.)
Isso não necessariamente é verdade, mas também não é mentira. Muitos filmes e séries que consideramos clássicos, são na verdade remakes. Scarface, A Mosca, King Kong, Por Um Punhado de Dólares, Ocean’s Eleven, as versões mais conhecidas são todas remakes.
Se formos exigir pureza e desconsiderar adaptações, sobre muito pouca coisa original, e nem Casablanca, o melhor filme de todos os tempos, escapa. É adaptação de uma peça e teatro.
Ser remake/reboot não é problema. Battlestar Galactica é uma série aclamada, e um remake da série original de 1978, muito mais “camp”, com zero das implicâncias sociopolíticas e filosóficas da versão atual. House of Cards é brilhante (até os produtores surtarem e destruírem Frank Underwood), mas é remake da House of Cards britânica de 1990, que por sua vez foi baseada no livro do mesmo nome de Michabel Dobbs.
Dito isso, nosso foco são remakes/reboots que não deram certo. Na verdade deram MUITO errado, a ponto de não irem ao ar ou no máximo passarem em branco total radiante. Vamos a eles:

Uma é de verdade, a outra é xxx (Crédito: Warner Bros. Television/DC Entertainment/Axel Braun Productions)
David E. Kelley é o showrunner. Ele é conhecido por ter criado e produzido séries como Ally McBeal, Chicago Hope, Boston Legal, Big Little Lies e muitas outras. Ele resolve modernizar a história da princesa amazona, e para isso conta com um elenco com nomes como Pedro Pascal e Elizabeth Hurley. No papel de Diana, Adrianne Palicki.
Diana... Diana Themyscira. Sim, na série ela é Diana Themyscira, CEO das Indústrias Themyscira, uma empresa que gerencia os direitos de imagem da Mulher-Maravilha, uma vigilante popular nas ruas de Los Angeles. Princesa Amazona? Grécia? Não, nada disso é mencionado. Jato invisível? É esse que você pode ver aqui...
A produção é pobre nível Anos 1970, e o figurino da Mulher-Maravilha na série... bem, a imagem de abertura deste tópico traz a Adrianne Palicki com o novo uniforme, ao lado a atriz Kimberly Kane, que fez a Mulher-Maravilha na paródia pornô do Alex Braun em 2015. 10 vezes melhor.
Nota: mais adiante no episódio-piloto Diana aparece com o uniforme clássico, mas fora eu umas cinco pessoas no máximo chegarem até essa parte.
Mulher-Maravilha foi rejeitada pelos executivos, destroçada pelos críticos que assistiram aquela pilha de nonsense, e o piloto abandonado dos arquivos, até que vazou para o YouTube por um tempo. Hoje pode ser encontrado na Locadora do Paulo Coelho, mas não faça isso.
Se você tem a mais remota ideia da série de que estou falando, já está ouvindo a musiquinha.
O Super-Herói Americano (The Greatest American Hero, no original) era uma série baratinha produzida por Stephen J. Cannell, e uma delícia. Contava a história de um professor de ensino médio que encontrou no deserto uma nave alienígena. Os ETs deram a ele um traje com superpoderes, para que se tornasse um defensor da verdade, da justiça e etc.
Só que o abestado do Ralph Hinkley conseguiu perder o manual do traje, então ele não tinha ideia da maior parte dos poderes do equipamento (o que era ótimo para os roteiristas inventarem novos recursos) e mal conseguia voar.
Era uma série divertida, inocente e que em 1986 gerou um spin-off, A Super-Heroína Americana, mas não deu liga. Reeditaram o piloto não-aprovado como um episódio normal da série. Hoje as séries fazem diferente, fazem episódios que são pilotos disfarçados. Supernatural teve uns 15.
Só que esse não foi o piloto desastroso. Este só veio em 2015, quando a cultura woke estava no auge. Produziram um reboot da série com Hannah Simone, de New Girl. O texto era pretensioso, maniqueísta, carregado de clichês, sem a leveza e o humor do original. Tão rápido quanto foi encomendado, o piloto foi cancelado, e a declaração da atriz no Twitter demonstrou que o cancelamento foi uma boa escolha:
“Acabamos de descobrir que a televisão aberta não está pronta para a primeira super-heroína indiana na TV. Isso teria sido um marco histórico e extremamente empoderador para meninas do mundo inteiro.”
Inegável que é um desenho divertido com personagens adoráveis, mas o estilo, o nonsense e os personagens não se encaixam em nada mais sério, certo? Certo, mas Hollywood quis assim mesmo e, seguindo a linha de heróis sombrios e amargurados da DC, resolveram transformar Lindinha, Florzinha e Docinho em três jovens ex-heroínas amarguradas, lidando com trauma, angústia, problemas, alcoolismo e outras coisas pesadas.

Sim, é real (Crédito: Warner Bros. Television)
Falando assim parece uma paródia, mas até as paródias pornô têm produção com melhor qualidade do que esse figurino comprado nas Casas Turuna.
E sim, há um trailer. De verdade.
Dizem que o piloto foi finalizado, mas o machado desceu sem dó e o cancelamento foi imediato. As meninas merecem destino melhor do que uma versão dark e soturna.
Ela é uma piada que fugiu de controle. Aparecendo pela primeira vez em Marvel Super-Heroes Winter Special de 1991, a personagem criada por Will Murray e Steve Ditko deu as caras em uma história curta onde auxilia o Homem de Ferro e derrota nada menos que o Doutor Destino.

Dica: não leve a sério (Crédito: Marvel Comics/Disney)
Doreen Greene é uma jovem de 15 anos que nasceu com uma mutação (apesar de não ser uma mutante) que lhe concedeu uma cauda peluda e poderes de esquilo. Ela tem superforça, agilidade sobre-humana, visão noturna e consegue se comunicar — obviamente — com esquilos.
É uma jovem bem feliz, otimista, e isso serve de arma para desequilibrar vilões e motivar aliados.
A ideia de algo ridículo como um cardume de esquilos derrotar Victor Von Doom funcionou, e os leitores gostaram. Logo Doreen começou a enfrentar — e vencer — vilões muito além da sua divisão, como Ultron, Duende Verde, Caveira Vermelha, Thanos e até Galactus.
Ela funciona por ser um lembrete para não levar quadrinhos a sério demais, e que a função das histórias é, antes de tudo, divertir.
O problema: é muito difícil escrever algo realmente divertido. Muitos autores, levados por seu ego acham que é seu dever guiar os leitores, e colocar em suas histórias lições de moral, o que não encaixa em todo tipo de história. Você não vê a Tila Tequila e o James Deen parando sua interpretação para alertar sobre as cruéis condições dos agricultores de cacau na Costa do Marfim.
A Garota-Esquilo sofre muito com isso, e em meio a excelentes arcos, temos bobagens como a personagem dando lição de moral em GALACTUS, porque ele errou os pronomes de alguém.

*eyeroll* (Crédito: Marvel Comics/Disney)
Em 2016 a Marvel anunciou, junto com a ABC, que produziria uma série de comédia de meia-hora com a Garota-Esquilo. No papel da protagonista, a tchutchuca Milana Vayntrub, que mesmo tendo 29 anos na época, mantinha a jovialidade da personagem, além de outros atributos invejáveis.
O episódio-piloto foi produzido e a série imediatamente cancelada, aparentemente nada funcionava, o tom não se encaixava com nada. O roteiro era paternalista, didático e maniqueísta.

Milena foi uma excelente escolha para o papel (Crédito: ABC Studios/Marvel Television/Disney)
Kevin Biegel, showrunner da série, anos depois revelou que Garota-Esquilo foi cancelada por ser “gay demais”, “orgulhosamente assumidamente gay”, e um executivo homofóbico teria descido o machado.
Eu até acreditaria, mas em 2016 ser orgulhosamente gay era exigência primária para algo ir ao ar, e a Marvel nunca usaria isso como motivo de cancelamento. Gay ou não, Garota-Esquilo era ruim demais, até porque o Deadpool, que é 10 vezes mais gay, fez o maior sucesso no mesmo ano.
O Clube do Inferno foi criado em 1980 por Chris Claremont e Jonh Byrne, enriquecendo muito o universo dos X-Men. Inimigos formidáveis, agindo tanto no campo da violência quanto no da política e do estratagema. Jean Grey foi seduzida e induzida a se unir ao grupo, em um dos melhores arcos dos Mutantes de Xavier.

O código de vestimenta do Clube do Inferno era bem restrito. Ah, os Anos 80... (Crédito: Marvel Comics/Disney)
Transformar isso em uma série de TV sem um orçamento gigantesco ficaria complicado, com todo o pano de fundo de super-heróis, que custam caro. Mesmo assim em 2016 surgiu a notícia de que um piloto estaria sendo produzido. A premissa oficial:
“O projeto será ambientado no final dos anos 1960 e acompanhará uma jovem agente especial que descobre que uma mulher ávida por poder, com habilidades extraordinárias, está trabalhando junto a uma sociedade clandestina de milionários — conhecida como “Clube do Inferno” (Hellfire Club) — para dominar o mundo. No universo Marvel, o Hellfire Club frequentemente entra em confronto direto com os X-Men.”
Não são mutantes. Não é nem a Emma Frost. A protagonista é uma agente adjacente e sim, já estou ouvindo você resmungar que vamos esperar 15 episódios até alguém mover uma colher com telecinese.
No final a série acabou antes de começar, o piloto nem foi finalizado. A explicação oficial era que Hellfire tinha “muitos personagens, e nenhum deles muito profundo”, o que faz sentido e nos leva ao inacreditável último exemplo de hoje:
Era 1997, e quando não estávamos caçando mamutes e descobrindo o fogo, assistíamos séries toscas de TV. Um dia executivos decidiram criar a série mais tosca de todas.
A Warner anunciou que produziria uma série da Liga da Justiça da América, que seria veiculada pela CBS. Os personagens seriam Ajax, o Caçador de Marte, Guy Gardner, o Lanterna Verde, Barry Allen, o Flash, Al Pratt, o Átomo original, Tora Olafsdotter, a Gelo, e Beatriz da Costa, a Fogo, uma das raras heroínas brasileiras dos quadrinhos.
A série seguiria o estilo do excelente arco de Keith Giffen na Liga da Justiça Internacional, que gera boas risadas até hoje, mas os roteiristas pelo visto não tinham muita experiência com quadrinhos.
Os personagens foram simplificados, perderam suas personalidades e identidades. O orçamento de efeitos visuais se resumiu a todas as moedas que os produtores-executivos conseguissem achar entre as almofadas da recepção da Warner.
Os figurinos foram comprados em um brechó que vendia roupas rejeitadas por paródias pornôs.
Lembre-se, essa coisa foi produzida no ano em que Stargate SG-1 foi ao ar.
Para não jogar tudo no lixo, o piloto foi exibido como um telefilme no final de 1997, mas cópias em VHS já haviam vazado, e divertiram muito (pelos motivos errados) a plateia em convenções nerds por todo o mundo. No Brasil passou no SBT, mas não se sabe se o Sílvio chegou a assistir.
Foi ao ar em 1979, é a origem da imagem que abre este artigo. Um inexplicável especial com Adam West e Burt Ward reprisando Batman e Robin, Frank Gorshin como o Charada, e vários outros heróis e vilões. É às vezes equiparado ao Especial de Natal de Guerra nas Estrelas, e a sensação de desastre é semelhante. Eu diria que é indistinguível dos quadros dos Trapalhões parodiando a Liga da Justiça.
E, para deixar mais inacreditável ainda, foram DOIS especiais na mesma semana, no segundo apresentaram um herói-comediante negro com o nome de... Ghetto-Man.
OK, fui.