Ronaldo Gogoni 29/06/2026 às 15:03
A Inteligência Artificial (IA) tornando tudo mais caro já virou lugar comum, e a escalada de preços não se resume à cena tech: graças à dependência de memórias DRAM e NAND (armazenamento) em todos os setores da sociedade, cada vez mais produtos e serviços sofrerão reajustes, mesmo os mais básicos.
Falando especificamente da RAM, a Lenovo alerta consumidores e companhias de que os preços podem nunca mais voltar ao patamar de antes da explosão exponencial das soluções generativas, e a tendência é de que os valores pedidos pela tríade Micron/SK Hynix/Samsung continuem subindo pelos próximos cinco anos (e talvez além disso).

IA vai continuar devorando toda a RAM e preços permanecerão nas alturas (Crédito: Grok/xAI/Ronaldo Gogoni/Meio Bit)
Míseras três semanas atrás, Ericsson e Nokia avisaram clientes que a escalada dos preços de componentes afetará também soluções de infraestrutura, essenciais para diversas empresas em inúmeros setores da sociedade. Como consequência, é esperado que vários produtos e serviços sofram com o repasse dos custos ao consumidor final.
O problema é que estamos falando de tudo mesmo, como abastecimento (comida), transporte, saúde (pública e particular), educação, plataformas de streaming (filmes, séries, música, games), telefonia e internet, e até mesmo serviços básicos como água e eletricidade, que inclusive já estão sendo reajustados nos Estados Unidos, graças à projeção de custos ao grid energético do país com a construção de novos data centers.
Um comentário frequente feito pela ala anti-IA é a esperança de que a bolha (algo que até Sam Altman, CEO da OpenAI, reconhece a existência) volte tudo a como era antes do surgimento da tecnologia, mas nós que vimos a onda das .com sabemos muito bem o que vai acontecer: as empresas pequenas e os oportunistas serão varridos para fora do mercado, as gigantes vão se segurar por terem capital suficiente para cobrir as perdas, e as disruptivas sobreviverão e prosperarão.
E, claro, o estouro se refletirá em mais ondas de desempregos, pois cortes terão que ser feitos e a corda sempre arrebenta do lado mais fraco. Mas divago.
Nessa onda, há quem acredite que os preços da RAM e outros componentes irão se estabelecer em um certo patamar e recuar para valores similares ou próximos aos praticados entre 2023 e 2024, quando a IA se estabelecer como uma ferramenta sem o hype e especulações, mas o problema é que as companhias fabricantes não têm a menor intenção de que isso aconteça tão cedo.
A Micron, por exemplo, que encerrou sua linha de memórias voltadas a consumidores finais para atender exclusivamente aceleradoras de IA, acusa a Apple de se aproveitar da época de preços baixos para comprar componentes por valores ainda mais baixos, culpando assim a maçã pela atual crise por limitar o capital para investimentos para aumentar a produção.
Claro, o dinheiro que entra agora está sendo injetado apenas em componentes voltados à IA, e as companhias são obrigadas a pagarem o preço que as fabricantes pedem pelos poucos chips para outras soluções que sobram, sob o risco de ficarem sem nada; por essas e outras que Micron, SK Hynix e Samsung são agora alvos de um processo bombástico nos EUA, que as acusa de formarem um cartel para controle dos preços, e não apenas recentemente.
Ainda sobre os preços, a Micron já visou tempos atrás que, com a crise se mantendo até pelo menos 2028, tudo vai continuar caro, pois a oferta de chips para o consumidor final e outros (infra, por exemplo) continuará baixa, mas a Lenovo alerta que talvez a luz no fim do túnel seja um trem no sentido contrário:
Durante a conferência ISC High Performance 2026, realizada em Hamburgo entre os dias 22 e 26 de junho, o diretor executivo Martin Hiegl disse em uma palestra que os preços de chips NAND e DRAM não voltarão aos preços antigos por muito tempo, mesmo que as capacidades de produção das três companhias que dominam o setor sejam incrementadas, e adicionou em tom jocoso que os preços praticados "nunca mais vão voltar" aos de 2025, que já estavam bem altos.
Especialistas acreditam que o comentário de Hiegl foi proposital para arrancar risos nervosos da plateia (o que não tem graça, convenhamos), e que o executivo continuou a se referir à projeção da Lenovo de que os preços continuarão altos pelos próximos cinco anos e um pouco além disso.
No entanto, os sinais não são bons. A Microsoft, por exemplo, reconhece que os preços "deverão dobrar" em comparação aos atuais até 2027, enquanto anota que os valores foram reajustados em 2,5 vezes só neste ano e, mesmo assim, a prioridade é atender IA; a produção de DRAM e NAND para outros produtos foi reduzida ao máximo, com SK Hynix, Samsung e Micron se concentrando em atender os clientes com os bolsos mais fundos do momento.
A situação está ruim para todo mundo, mas no fim das contas é o usuário quem vai pagar a conta, seja com iPads e Macs custando fortunas, ou futuros consoles chegando ao mercado com etiquetas começando em US$ 1 mil.
Fonte: ComputerBase