Ronaldo Gogoni 08/06/2026 às 14:08
A explosão das soluções generativas de Inteligência Artificial (IA) teve efeitos nocivos evidentes no mercado de tecnologia para o consumidor final, afetando desde o preço à disponibilidade de certos produtos, mais notavelmente RAM e armazenamento, e tudo que as usa.
Aqui no Meio Bit já apontamos que mesmo produtos não diretamente ligados e serviços também se tornarão mais caros e/ou piores devido à escassez de componentes e escalada nos preços, no que Nokia e Ericsson validam o ponto com um alerta: devido a reajustes nos preços em equipamentos de infraestrutura voltados a operadoras de telefonia, seus clientes pagarão o pato.

Mesmo quem não usa soluções generativas, ou se recusa a consumir qualquer coisa relacionada, será afetado pela IA de um jeito ou de outro (Crédito: Freepik)
O primeiro aviso veio da Ericsson, uma das companhias responsáveis pela expansão da rede 5G global, que depende de componentes especializados, especificamente chips de 3 ou menos nanômetros impressos pela TSMC. O problema: a companhia de Taiwan está priorizando seus clientes mais ricos, a maior parte da produção está sendo direcionada à Nvidia (óbvio) e à Apple; outras, como AMD e Intel, recebem bem menos, e as demais ficarão em uma "fila de espera" por tempo indeterminado. A Ericsson, sem surpresa, foi posta na fila.
A situação está feia para todo mundo, de fabricantes de bens de consumo a companhias que fornecem equipamentos de infraestrutura; se você não é uma aceleradora de IA e nem vende iPhones, receberá o tratamento Soup Nazi de no chips for you. Allison Kirkby, CEO do BT Group (antiga British Telecom) alertou aquilo que todo mundo já vinha dizendo há tempos:
Smartphones ficarão mais caros porque o pouco estoque de RAM e memória Flash que fabricantes conseguem adquirir, quando conseguem tal dádiva, custa muito mais do que antes e, como manda a regra do mercado, os custos serão repassados para a frente até o elo mais fraco da cadeia, o consumidor final.
No entanto, o alerta da Ericsson aponta outra verdade incômoda: infra também vai ficar mais cara de implementar, em todos os setores. Estamos em um período de transição de redes Wi-Fi para os padrões 6 e 7, e já deveríamos estar agilizando a implementação da rede 6G, especialmente planejada para atender à demanda da IA em conexões móveis mas, com aceleradoras e servidores comendo todos os chips de memória que existem, os freios foram puxados com força.
E se a infra de redes vai ficar cara, a tendência é que serviços ligados à telefonia, incluindo planos móveis e de internet de alta velocidade (fibra óptica, por exemplo) seguirão a mesma tendência. Per Narvinger, chefe do setor de negócios de redes móveis da Ericsson, foi bem claro:
"A IA está impulsionando a demanda geral por semicondutores (...). Nós (a Ericsson) estamos observando uma demanda altíssima por alguns desses componentes, e isso também eleva os preços para nós."

A TSMC é uma de várias empresas que está lucrando muito com o boom da IA (Crédito: I-Hwa Cheng/Getty Images)
Narvinger também aponta que a indústria da IA e fabricantes de dispositivos móveis também estão competindo pela capacidade de produção das companhias responsáveis por semicondutores (como a TSMC) e chips de memória (a tríade Samsung, SK Hynix e Micron), e os clientes com bolsos menos fundos estão sendo postos de escanteio, já que os fabricantes estão reservando toda sua atenção a quem vai pagar mais; no momento essas são Nvidia, OpenAI, Anthropic e cia, e mesmo a Apple passou por dificuldades antes de garantir seu espaço.
Outro que também avisou que as coisas não andam bem foi o CEO da Nokia, Justin Hotard. Durante a apresentação do relatório fiscal do 1.º trimestre de 2026, o executivo alertou que, assim como visto durante a pandemia da Covid, o boom da IA levará a um aumento da demanda por componentes e a uma inevitável elevação dos preços. A companhia finlandesa opera, além de 5G, com redes ópticas (não confundir com a HMD Global, uma empresa independente que licenciou a marca para colocar em seus smartphones) e outros equipamentos de infra.
O grande problema da IA afetar a infraestrutura de redes é que, se tais equipamentos ficam mais caros para operadoras, e essas repassam o custo na forma de planos de telefonia e internet mais caros, ou com menos benefícios (menos opções de velocidade, sem assinaturas gratuitas acessórias, franquia de dados, etc.), isso é válido para quase todos os setores da sociedade, dada a nossa dependência de RAM e memória Flash.
E se vai ficar mais caro expandir uma rede, montar uma solução de distribuição de produtos e serviços, o que pode envolver abastecimento (comida), transporte, saúde (pública e particular), educação, plataformas de streaming (filmes, séries, música, games) e até serviços básicos (água e eletricidade), o custo VAI ser repassado ao consumidor final, com produtos e serviços mais caros e piores.
Isso já vem acontecendo de forma isolada, mas palatável: nos Estados Unidos, por exemplo, várias cidades reajustaram severamente o valor da conta de luz para todos os consumidores, devido ao aumento do consumo energético por datacenters de IA, atuais e previstos, que sequer foram construídos ainda.
Tem solução? Não tem. IA é a Caixa de Pandora; uma vez aberta, não há como voltar atrás.
Nenhuma empresa vai absorver prejuízo, e alguém sempre tem que pagar a conta; por mais que a IA traga facilidades em alguns cenários, não dá para ignorar o custo de sua implementação, até porque ele vai ser bem, bem caro.
Fonte: LightReading