Ronaldo Gogoni 26/05/2026 às 9:45
Nesta segunda-feira (25), o papa Leão XIV divulgou sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas ("A Humanidade Magnífica" em latim, não que fosse necessário traduzir, mas enfim...), em que alerta sobre os abusos no uso da Inteligência Artificial (IA) em benefício dos ricos e poderosos, enquanto compromete o bem-estar dos mais vulneráveis.
O pontífice foi bem duro ao condenar o uso de algoritmos para travar guerras, e ao classificar o conceito de "guerra justa" como "superado e antiquado". Ao mesmo tempo, o papa pede por mais regulação da IA e desenvolvimento de soluções que priorizem o lado humano, em especial os pobres e necessitados.

Leão XIV tem sido bem duro contra abusos no uso de IA, por companhias e governos, contra os mais vulneráveis (Crédito: Alessia Guiliani/Catholic Press Photo/Sipa/Getty Images)
Uma encíclica é um documento papal de caráter oficial, que serve como orientação primeiro ao clero e, por extensão, a toda a Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR), uma das três grandes religiões monoteístas do mundo, com aproximadamente ~1,42 bilhão de fiéis segundo o Annuario Pontificio, ou 17,8% da população global.
Ela tem como função delinear a posição oficial da instituição sobre um determinado assunto e contém orientações que, por via de regra, todo católico deve seguir (lembre-se desta parte). Para apresentar a Magnifica Humanitas, Leão XIV quebrou o protocolo e o fez ele mesmo, quando normalmente a função é delegada a um cardeal, visto a importância dada ao assunto IA desde o início de seu papado.
Vale mencionar, primeiramente, que o papa não é contrário à tecnologia, como vários outros foram no passado; um dos casos mais notórios foi o pontificado de Gregório XVI (1831–1846), que condenou abertamente trens, telégrafos e iluminação a gás. Leão XIV, por outro lado, foi político ao classificá-la como um dom concedido por Deus à humanidade, mas que ela não é nem boa nem má, e fez uma comparação com o frisson em busca de IA em tudo com a Torre de Babel:
A tecnologia pode curar, conectar, educar, cuidar da Casa comum; mas também pode dividir, descartar, gerar novas injustiças. Na teoria, ela em si não é uma solução para os problemas da humanidade, assim como não é, em si mesma, um mal; todavia, na prática, não é neutra, porque tem o rosto daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam.
Por isso, a primeira escolha não é entre um “sim” ou um “não” à tecnologia, mas entre edificar Babel ou reconstruir Jerusalém: entre um poder que pretende dominar o céu ou um povo que unido, na presença de Deus, começa o trabalho de reerguer os muros da convivência fraterna.
Segue abaixo o evento de apresentação da encíclica na íntegra, em 480p como resolução máxima porque, ao que parece, a instituição mais antiga do planeta e uma das mais ricas que existem (se considerarmos suas propriedades e sua vasta coleção de artigos de arte ao redor do globo, cujos valores são incalculáveis) não sabe lidar com Full HD:
No documento de mais de 43 mil palavras, Leão XIV foi enfático ao usar a palavra "desarmamento" para defender a colocação de limites severos em algoritmos, de modo a "quebrar a equivalência entre poder técnico e governança", justamente o tipo de vantagens que tanto os Estados Unidos (país natal do papa) quanto a China e a União Europeia vêm buscando, econômica e militarmente.
Sendo bastante justo, o documento não é exclusivo sobre IA, embora dedique um capítulo inteiro ao assunto. A encíclica aborda diversos problemas mais antigos e perenes, como guerra e inequidade, mas que hoje estão ligados a como algoritmos vêm sendo empregados por governos e grandes companhias; aliás, Peter Thiel, CEO da Palantir, está furioso com a posição do Leão XIV contra a liberdade irrestrita da IA, e teria chamado o pontífice de "papa woke" e "agente do Anticristo", antes da publicação da Magnifica Humanitas.
Da mesma forma, o vice-presidente dos EUA, JD Vance, disse que o Leão XIV "deve tomar cuidado ao falar sobre Teologia", o que é literalmente querer ensinar o chefe da ICAR a rezar a Missa, algo ainda mais absurdo pelo fato de ele ser católico, ou seja, deve obediência ao papa e é dogmaticamente obrigado a observar o que a encíclica diz.
Leão XIV segue a mesma linha de raciocínio de seu último homônimo, Leão XIII, ao defender na encíclica Rerum Novarum ("Das Coisas Novas" em latim) a priorização da humanidade frente a novas tecnologias; em sua época, a Revolução Industrial e o capitalismo laissez-faire (em que o governo não se mete na economia, deixando as empresas fazerem o que quiserem) exploravam a classe operária até o limite.
O atual papa vê os mesmos riscos quando empresas são permitidas a fazerem o que quiserem com a IA, sob a desculpa de "não ficar para trás" em uma corrida armamentista e econômica entre nações, em que sempre os mais vulneráveis ficam do lado mais fraco da corda e serão invariavelmente prejudicados; em última instância, Leão XIV se preocupa com algoritmos dominando todos os aspectos de nossas vidas, roubando empregos e até nosso lazer, sem nos dar nada em troca.
O papa citou inclusive uma passagem de O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien, mais especificamente de O Retorno do Rei, contextualizando sob a responsabilidade das gerações atuais frente ao que ele chamou de "desumanização", que a IA ajuda a fomentar:
"Todavia não é nossa função controlar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que pudermos para socorrer os tempos em que estamos inseridos, erradicando o mal dos campos que conhecemos, para que aqueles que viverem depois tenham terra limpa para cultivar."
Ao condenar o uso de IA para o desenvolvimento de algoritmos militares, que empresas como Google, Microsoft, xAI e OpenAI fecharam com o governo de Donald Trump, o pontífice adicionou que o conceito de guerra justa se tornou "antiquado", e que a humanidade dispõe hoje "de instrumentos muito mais eficazes e capazes de promover a vida humana, como o diálogo, a diplomacia e o perdão".
Curiosamente, um dos primeiros grandes defensores do conceito de guerra justa foi Santo Agostinho, doutor da ICAR, para quem "o pacifismo diante de um grande mal que só pode ser debelado pela violência" seria um pecado.

Christopher Olah, cofundador da Anthropic, defende maior regulação da IA e alinhamento à posição do Vaticano (Crédito: Alessandra Tarantino/AP)
Talvez o fato mais curioso do evento no Vaticano, sobre a divulgação de uma encíclica condenando os males da IA, tenha sido Christopher Olah, cofundador da Anthropic e um dos principais pesquisadores da companhia, endossando a visão de Leão XIV sobre mais regulação e responsabilidade no desenvolvimento de soluções generativas. No entanto, a posição da empresa comandada por Dario Amodei não é uma novidade.
A Anthropic condenou o uso pelo Pentágono de seu LLM Claude, tanto na invasão à Venezuela e captura do ditador Nicolás Maduro, quanto na ação militar conjunta entre os EUA e Israel contra o Irã, iniciada em março de 2026 e que não dá sinais de arrefecimento, enquanto causa prejuízos enormes a companhias que dependem do trânsito de navios através do estreito de Ormuz, fechado pelos iranianos.
Como resultado, o Departamento de Defesa Guerra declarou a Anthropic como um "risco na cadeia de suprimentos" e à Segurança Nacional, enquanto Trump ordenou que todos os órgãos estatais abandonassem o uso do Claude, de modo a cortar todos os negócios da empresa com parceiros que, por via de regra, não podem fazer negócios com uma companhia sancionada. A Anthropic entrou com uma ação na Justiça contra a medida, que se encontra no momento em um limbo legal.
Claro, a Anthropic não é nenhuma santa: Amodei defendeu acordos com o Qatar e os Emirados Árabes, países acusados de violações dos direitos humanos, o que o CEO chamou de "dilema moral" que enriqueceria ditadores, mas embolsou a grana mesmo assim; seu limite foi a Arábia Saudita, talvez porque príncipes mandando fatiar jornalistas em embaixadas seja demais para ele.
No evento no Vaticano, Olah afirmou que é responsabilidade das companhias de IA fazerem por onde em prol de usar algoritmos de forma justa e humana, visando o bem-estar geral em vez de privilegiar os poucos no topo da pirâmide:
Precisamos que mais pessoas em todo o mundo — comunidades religiosas, a sociedade civil, acadêmicos, governos e, em verdade, todos aqueles de boa-vontade, façam o que Sua Santidade fez aqui: levem este assunto a sério, observem atentamente e impulsionem os acontecimentos em uma direção melhor.
Embora uma encíclica seja um documento que serve como linha-guia a todos os católicos, ela também se apresenta como uma declaração de um chefe de Estado e líder de uma das mais antigas religiões da Terra, sobre os riscos de priorizar ganhos e poder em detrimento dos marginalizados, mas daí a esperar que governos e outras empresas além da Anthropic levem a Magnifica Humanitas a sério, são outros quinhentos.
Fonte: Vatican News