Ronaldo Gogoni 13 semanas atrás
As tensões entre a Anthropic, startup de Inteligência Artificial (IA) e o governo dos Estados Unidos escalaram na última sexta-feira (27), com o presidente Donald Trump ordenando que todas as agências federais interrompam em até seis meses o uso do LLM (grande modelo de linguagem) Claude.
O CEO Dario Amodei se recusa a permitir que seu algoritmo seja usado em situações de conflito, como a invasão à Venezuela e a captura do ditador Nicolás Maduro, e mais recentemente, os ataques coordenados de EUA e Israel ao Irã, que estão destruindo a infraestrutura combativa do país e eliminaram vários líderes militares, civis e religiosos, incluindo o aiatolá Ali Khamenei e o ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad.

Trump diz que os EUA usarão IAs para "vencer guerras", as companhias queiram ou não, o que poderia ser impedido via regulação (Crédito: Grok/xAI/Ronaldo Gogoni/Meio Bit)
Infelizmente para Amodei e todos os demais executivos de IA dos Estados Unidos, o lobby que as companhias do setor fizeram por anos para que a tecnologia não fosse regulada vale dos dois lados: por um lado, elas foram permitidas a coletar o que quiserem, mas por outro, nada impede a Casa Branca de empregar algoritmos para a Guerra.
O epíteto da franquia Fallout, "a guerra nunca muda", é uma das maiores mentiras da humanidade. Desde que aprendemos a caminhar sobre duas pernas, temos usado tudo ao nosso alcance para desenvolver novas e mais eficientes formas de eliminar o inimigo e reduzir os custos de seu lado (dinheiro, não soldados). Você até pode dizer que o "por que" não muda, mas o "como" é outra história.
O atual rolo se deu porque Dario Amodei é um CEO meio atípico do Vale do Silício, primeiro por não medir o que fala, e segundo, por defender que algoritmos, IAs e robôs não devem ser usados em situações de conflito, algo que Google, Meta, Microsoft e outras não só discordam, como alegremente trabalham com as Forças Armadas dos EUA e aliados, como Israel. Quando questionado sobre o IVAS, a versão militar do Hololens hoje tocado pela Anduril, Satya Nadella chegou a dizer:
"A Microsoft não privará instituições que nós (o povo) elegemos em democracias do acesso a teclonogias, de modo a proteger a liberdade de que nós gostamos."
A Anthropic não é nenhuma santa, claro. A empresa foi criticada ao defender acordos com o Qatar e os Emirados Árabes, países do Oriente Médio acusados de violações dos direitos humanos, algo que Amodei chamou de "dilema moral" que enriqueceria ditadores, mas embolsou a grana mesmo assim; o executivo desenhou uma linha na areia quando surgiu a oportunidade de fazer negócios com a Arábia Saudita, talvez porque príncipes mandando fatiar jornalistas dentro de embaixadas seja o seu limite.
O desentendimento entre a Anthropic e Pete Hegseth, secretário de Defesa Guerra dos EUA, começou quando informes de que o Claude foi usado na ação de captura de Maduro surgiram, algo que contraria o estatuto da companhia. Amodei não vê problema no Pentágono usando seu algoritmo para gerenciar planilhas, mas é veementemente contra empregá-lo no controle de armas autônomas, por exemplo. Hegseth enrou em modo nuclear, principalmente por não ter nenhuma outra solução tão boa quanto o Claude à mão, e ameaçou duramente a empresa.
Então Trump tomou a decisão mais antipática possível (letras em caps como no original em inglês, afinal é o Trump):

Na sexta-feira, Trump baniu o Claude de agências do governo; no sábado, as Forças Armadas usaram o LLM da Anthropic no ataque coordenado com Israel ao Irã (Crédito: Yuri Gripas/POOL/EFE/EPA)
OS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA JAMAIS PERMITIRÃO QUE UMA EMPRESA WOKE RADICAL DE ESQUERDA DITE COMO NOSSAS GRANDES FORÇAS ARMADAS LUTAM E VENCEM GUERRAS! Essa decisão pertence ao SEU COMANDANTE-CHEFE, e aos excelentes líderes que nomeio para comandar nossas Forças Armadas.
Os lunáticos de esquerda da Anthropic cometeram um ERRO DESASTROSO ao tentar COAGIR o Departamento de Guerra, e forçá-lo a obedecer aos seus Termos de Serviço em vez da nossa Constituição. O egoísmo deles está colocando VIDAS AMERICANAS em risco, nossas tropas em perigo e nossa Segurança Nacional em RISCO.
Portanto, estou ordenando a TODAS as agências federais do Governo dos Estados Unidos que CESSEM IMEDIATAMENTE o uso da tecnologia da Anthropic. Não precisamos dela, não a queremos e não faremos negócios com eles novamente! Haverá um período de transição de seis meses para agências como o Departamento de Guerra, que utilizam os produtos da Anthropic em diversos níveis. A Anthropic precisa se organizar e colaborar durante esse período de transição, ou usarei todo o poder a mim investido para obrigá-la a cumprir as determinações, com graves consequências civis e criminais.
Nós decidiremos o destino do nosso país — e não uma empresa de IA descontrolada e radical de esquerda, administrada por pessoas que não têm a menor ideia do que é o mundo real. Obrigado pela atenção a este assunto. FAÇA A AMÉRICA GRANDE NOVAMENTE!
PRESIDENTE DONALD J. TRUMP
Note a providencial aplicação do "período de transição de seis meses" concedido ao Departamento de Guerra, isso porque o Claude está sendo usado na ação militar coordenada dos EUA e Israel contra o Irã, de novo, sem que a Anthropic possa fazer qualquer coisa para impedir por um motivo simples: não há regulação.
Embora companhias de IA tenham passado anos defendendo que coleta de dados é uso aceitável, para não terem que pagar nada a ninguém, e que as startups e big techs usaram basicamente o meme "confia" como garantias de que não desenvolveriam soluções para o Mal, a verdade é que a ausência de regras vale também para o governo. Sem leis que digam o que pode e o que não pode ser feito, Trump é livre para usar algoritmos em soluções de guerra se assim desejar.
Na União Europeia, é fato que a Lei de IA deixou uma brecha enorme e intencional ao não legislar sobre o uso de soluções generativas pelos militares, mas determinou salvaguardas contra policiamento preditivo, sistemas de reconhecimento de emoções e de ranking social, enquanto autoriza o uso em aplicações para rastreio de vítimas, combate ao terrorismo e identificação de suspeitos em casos muito específicos.
O Plano de Ação de IA apresentado por Donald Trump em 2025 apenas orienta agências a deixarem companhias de IA em paz, sem impor nenhum limite.

Dario Amodei, CEO da Anthropic, está colhendo os frutos amargos por defender a não-regulação das IAs. E não será o único (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)
O cosmólogo Max Tegmark, que mudou o foco para IA dez anos atrás e hoje é professor de Física do MIT, disse que a situação em que a Anthropic se meteu é uma consequência de seus próprios atos e das demais companhias do setor nos EUA, conseguindo ser menos regulado que o alimentício:
"Todas essas companhias, especialmente OpenAI, Google DeepMind e de certa forma também a Anthropic, fizeram um lobby de forma persistente contra a regulação de IA, dizendo 'confiem em nós, que iremos nos autorregular', e tiveram sucesso. Agora temos menos regulação de IAs nos EUA do que de sanduíches.
Se você quiser abrir uma lanchonete e o inspetor sanitário encontrar 15 ratos na sua cozinha, ele não vai te deixar vender sanduíches até você resolver o problema. Mas se você disser 'não se preocupe, eu não vou vender sanduíches, eu vou vender namoradas de IA para garotos de 11 anos, e elas estavam ligadas a suicídios no passado, e então eu vou criar algo chamado superinteligência que no futuro poderá derrubar o governo', o inspetor vai dizer:
'Tudo bem, vá em frente. Mas não venda sanduíches.'"
Há quem aponte o óbvio que, assim como aconteceu na UE, uma Lei americana para regular as IAs não discorria uma linha sequer sobre impedir seu uso por militares, mas ao menos daria às empresas a opção de controlar seu uso ou limitá-lo. Vale lembrar que, quando Hegseth prometeu (e depois cumpriu) classificar o Claude como um "risco na cadeia de suprimentos" militar, o que o impede de ser usado por quaisquer empresas, nacionais e internacionais, que tenham negócios com as Forças Armadas, o secretário de Guerra mencionou recorrer à Lei de Produtos para Defesa (Defense Product Act, ou DPA), que dá ao governo autoridade para forçar empresas a fornecerem produtos e serviços para expandir ou priorizar a defesa nacional.
Sob tal Lei, a Anthropic e qualquer outra empresa de IA pode acabar sendo obrigada a desenvolver algoritmos militares se Trump assim quiser (e dado o "colaborar" em sua mensagem na rede Truth, é o que vai acontecer), mas é preciso apontar o fato de que a companhia de Dario Amodei é a única do contra; Google, Meta, Microsoft, OpenAI e cia. trabalham alegremente com a máquina de guerra norte-americana e não é de hoje.
Enquanto isso, o Claude se tornou o app mais baixado da Apple App Store nos EUA como forma de protesto (e usuários estão desinstalando o ChapGPT em massa), mas resta ver se isso vai durar.
Fonte: TechCrunch