Ronaldo Gogoni 1 ano e meio atrás
Essa foi rápida: tão logo a existência do ChatBIT, uma solução de Inteligência Artificial (IA) desenvolvida por pesquisadores da China para fins militares, se tornou conhecida, o Meta correu para explicar que não teve nenhum envolvimento direto, no que os modelos do Llama, seu LLM (grande modelo de dados), é de acesso aberto.
Como controle de danos não basta, a companhia de Mark Zuckerberg acabou forçada a rever as restrições do Meta, e vai fornecer dados e modelos às Forças Armadas dos Estados Unidos, o que, na prática, dará início a uma nova corrida armamentista.

Mark Zuckerberg jura que o Meta não teve envolvimento direto na criação da IA militar da China (Crédito: Kaboompics.com/Pexels/Picture Alliance/Getty Images/Ronaldo Gogoni/Meio Bit)
Na última sexta-feira (1.º), a agência Reuters publicou um artigo detalhando como pesquisadores ligados ao Exército da Libertação Popular (People's Liberation Army, ou PLA), o braço armado do Partido Comunista chinês, usou um modelo de geração anterior do Llama 13B, a versão do LLM do Meta que conta com 13 bilhões de parâmetros, na criação do ChatBIT.
Este seria um chatbot alimentado com 100 mil registros próprios, treinado para auxiliar em tomadas de decisão e planejamento estratégico militar, um uso que originalmente o Meta não permitia; soluções de defesa, nucleares, espionagem e afins eram vetados de empregar o algoritmo do Llama, conforme mandam as regulações da Comissão Federal de Comércio (FTC).
O problema para os EUA e o Meta, o LLM é uma solução de acesso aberto, qualquer um pode baixar os modelos e treiná-los como desejar, e a China nunca ligou para proibições e restrições alheias, logo, uma vez que puseram as mãos nos dados, não há absolutamente nada que Zuck, ou a Casa Branca, possam fazer para impedir seu uso de formas que não gostam.
Não obstante, a revelação do ChatBIT teria sido um movimento calculado da China, não houve o menor esforço de escondê-lo, no que está sendo entendido como uma demonstração de força do premiê Xi Jinping, em resposta às inúmeras sanções. Em resumo, a China continuará se desenvolvendo, militar e economicamente, com tecnologia de ponta, no que as restrições tiveram o efeito inverso ao esperado, ao estimularem pesquisadores e engenheiros chineses a pensarem fora da caixa.
Por mais que o acesso do LLama seja livre a todos, a China usando seus modelos para criar uma IA militar não é o tipo de promoção que o Meta gostaria, além de pegar MUITO mal com o governo dos EUA, por isso, não surpreende que Nick Clegg, presidente de Assuntos Globais da gigante das redes sociais, tenha corrido para remediar a situação.

Além de não entender a letra de "Born in the USA", post de 4 de julho do Zuck foi zoado por Elon Musk (Crédito: Mark Zuckerberg/Instagram)
Em uma postagem no blog do Meta, publicada nesta segunda-feira (4), Clegg explica, sem apontar dedos para o ChatBIT, que diversas nações, incluindo competidores dos EUA como a China, estão correndo atrás do desenvolvimento de soluções em IA para crescimento econômico, desenvolvimento, geração de empregos e inovação, para ficar à frente dos EUA, o que a companhia, e o governo, não podem permitir.
Dessa forma, o Meta anunciou que está passando por suas próprias restrições impostas ao Llama, e vai fornecer o modelo de 3.ª geração às Forças Armadas para a criação de modelos e algoritmos militares, no que afirma estar "fazendo sua parte" em defesa dos interesses norte-americanos.
O Meta irá estabelecer parcerias com empresas que já trabalham com IA para o governo, como Microsoft, IBM, Amazon, Oracle, Lockheed Martin, Delloite, Accenture, Anduril, Booz Allen, Databricks, Leidos, Palantir, Scale AI, e Snowflake, a fim de implementar seu produto em agências governamentais.
Clegg continua:
"Como uma companhia americana, que deve seu sucesso principalmente ao espírito empreendedor e os valores democráticos que os Estados Unidos defendem, o Meta fará sua parte para garantir a segurança, estabilidade, e prosperidade econômica da América - e de seus aliados mais próximos."
Note que o fornecimento do Meta para o governo desenvolver uma IA para soluções de defesa Made in America não significa que as restrições de uso foram removidas, elas permanecem onde estão, imutáveis; este é mais um caso de "é proibido, mas se quiser, pode" exclusivo, para igualar as chances, e não permitir que os EUA fiquem atrás da China, militarmente falando.
Vale notar que o Meta não é a única companhia que estaria "afrouxando" suas regras para os militares norte-americanos: em outubro, a OpenAI teria sido sondada pelo Comando dos EUA para a África (AFRICOM) para a compra de soluções de IA, no que poderia ser o primeiro acordo comercial do setor para uma unidade de combate armado.
Fonte: Meta