Ronaldo Gogoni 28/04/2026 às 10:50
Quando a Microsoft estava sendo malhada por dentro e por fora pelo acordo com o Exército dos EUA para o fornecimento do IVAS, Satya Nadella disse que sua empresa não privaria "instituições que nós (o povo) elegemos em democracias do acesso a tecnologias, de modo a proteger a liberdade de que nós gostamos". Pois parece que o outro indiano do "Big Four", o CEO do Google Sundar Pichai, pensa da mesma forma.
Segundo a agência Reuters, a gigante de Redmond teria assinado um acordo confidencial com o Pentágono para o uso irrestrito de algoritmos pelo Departamento de Def— perdão, de Guerra dos Estados Unidos, tornando-se a mais recente empresa de tecnologia, após OpenAI e xAI, a permitir que seus modelos sejam empregados inclusive em situações de combate.

Assim como OpenAI e xAI, Google de Sundar Pichai não colocará nenhum empecilho em como os EUA usarão suas soluções de IA (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)
Vamos relembrar: quando OpenAI, Meta, Google e cia. fizeram um grande lobby para evitar que soluções de IA fossem reguladas, incluindo o argumento do uso aceitável para coletar tudo e não pagar direitos autorais a ninguém, todas se esqueceram ou ignoraram que as regras valem para os dois lados. Sem diretrizes efetivas, o governo dos EUA é livre para implementar algoritmos como quiser, e nenhuma companhia pode dizer um "a" sobre.
As coisas ficaram evidentes quando foi revelado que a incursão na Venezuela e a extração do ex-ditador Nicolás Maduro foram suportadas pelo Claude, sem que a Anthropic desse autorização para uso militar; a companhia de Dario Amodei implementou guardrails que proíbem a implementação de seus algoritmos em ações de conflito, mas não só os EUA deram de ombros e continuam usando-o nos ataques ao Irã, como o presidente Donald Trump e o secretário de Guerra Pete Hegseth classificaram a Anthropic como um "risco à segurança nacional".
Tecnicamente, a restrição impede Amodei de fazer negócios com qualquer outra companhia dos EUA ou parceiras de qualquer canto do mundo, de modo a estrangular a Anthropic e forçá-la a capitular, enquanto o Pentágono continua usando o Claude como quer; embora Trump tenha ordenado que todas as agências federais parem de usar o algoritmo, isso não se aplica ao que funciona muito bem em um cenário de guerra.
A imolação da Anthropic teve outro objetivo claro, que era fazê-la de exemplo: foi um recado bem claro a todas as companhias de tecnologia dos EUA que desenvolvem soluções generativas, de que elas devem fechar acordos legais com o governo e dar passe livre para o uso de seus produtos, ou sofrer as consequências, já que suas IAs serão usadas para a guerra de qualquer jeito.
Enquanto a Microsoft tomou as dores da Anthropic, a OpenAI rapidinho captou a mensagem; tão logo Washington e Amodei começaram a se estranhar, a empresa de Sam Altman anunciou um acordo para uso sem limites de suas IAs pelo governo; a xAI do rival Elon Musk havia feito algo similar em 2025 no valor de US$ 200 milhões (~R$ 1 bilhão, cotação de 28/04/2026), e agora foi a vez do Google.

Governo Trump tem sido bem claro: IAs generativas serão usadas para a guerra, as empresas queiram ou não (Crédito: Grok/xAI/Ronaldo Gogoni/Meio Bit)
Segundo uma fonte próxima, a gigante de Mountain View fechou o acordo com o governo dos EUA menos de um dia após mais de 600 funcionários do Google exigirem que o CEO Sundar Pichai impedisse que algoritmos da companhia fossem empregados para uso militar, após conversas com o Pentágono virem à tona. Basicamente, a reclamação caiu em ouvidos moucos.
A fonte diz que ambas as partes (Google e Pentágono) concordam que os algoritmos de IA "não devem ser usados em soluções de vigilância doméstica ou no desenvolvimento de armas autônomas, "sem supervisão e controle humano apropriados". Se você lembrou da Palantir Technologies fornecendo recursos para o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) caçar imigrantes ilegais E legais dentro do território americano, passe na redação e pegue sua paçoca imaginária.
Em nota enviada à Reuters, um porta-voz do Google disse que a companhia "mantém a opinião de que IAs não devem ser usadas para vigilância doméstica em massa ou armas autônomas sem supervisão humana", e acreditam que "fornecer acesso a nossas (do Google) APIs, modelos comerciais e infraestrutura, com práticas e regras-padrão da indústria, representa uma aproximação responsável no suporte à Segurança Nacional".
De resto, tirando Anthropic e Microsoft (que também não é lá tão santa), é bem provável que cada vez mais companhias façam como o Google e OpenAI, apenas para não ficarem feias na foto com Donald Trump, arriscando perder muito dinheiro e levar alguns processos na cabeça.
Fonte: Reuters