Ronaldo Gogoni 10/07/2026 às 9:50
Os últimos dias têm sido tensos para a comunidade gamer, sejam consumidores ou desenvolvedores. De um lado, a Sony tomou a antipática, porém inevitável, decisão de encerrar a produção de mídias físicas dos consoles PlayStation para games lançados a partir de janeiro de 2028; do outro lado do rio, a Microsoft esviscerou a divisão Xbox ao demitir 1.600 funcionários (e mais 1.600 vão rodar até o fim do ano fiscal), vender e desmembrar estúdios, cancelar games e exterminar projetos e equipes inteiras.
Há quem diga que o "reset" imposto por Asha Sharma (e pelo CEO da Microsoft, Satya Nadella) foi uma forma de tornar a divisão mais atraente para compradores. A questão é, quem tem bolsos fundos o bastante para isso?
Antes de mais nada, a Microsoft realizou uma nova onda massiva de demissões por todos os seus setores, resultando em 4.800 funcionários, ou 2,1% de sua força de trabalho global, indo para o olho da rua, de modo a "focar nas prioridades que manterão a companhia pronta para atender nossos clientes em uma indústria em constante mudança". Traduzindo, cortes foram feitos para investir ainda mais capital em Inteligência Artificial (IA).
Embora boa parte das demissões se concentre nos departamentos de serviços da Microsoft, a divisão Xbox foi o bode expiatório da vez, respondendo por um terço dos postos de trabalho eliminados. Todos os estúdios foram ressignificados a trabalharem em "franquias principais", dando a entender que não haverá mais espaço para novas ideias ou projetos menores.
Os relatos são os mais deprimentes possíveis:
Fora isso, o Xbox desmembrou os estúdios Compulsion Games (South of Midnight) e Double Fine (Psychonauts, Broken Age), que voltarão a ser independentes e manterão suas propriedades intelectuais (IPs), enquanto Ninja Theory (Senua) e Undead Labs (State of Decay) já estão sendo negociados com compradores não revelados, que devem se comprometer a lançar os títulos já anunciados destes.
A Arkane Studios (Dishonored) deve ser vendida assim que "empecilhos" com o governo da França forem resolvidos, e Marvel's Blade ainda corre o risco de ser cancelado.
Considerando que a divisão Xbox deve perder 3.200 funcionários, ou 20% de seu pessoal, até o fim do ano fiscal, as expectativas sobre o futuro são sombrias, especialmente porque os que foram poupados dos cortes terão que trabalhar pelas próximas semanas e meses lidando com a ansiedade de serem os próximos a irem para a forca, e muitos dos que permanecerem após o ciclo provavelmente desenvolverão a chamada culpa do sobrevivente, um quadro psicológico com sintomas similares aos do estresse pós-traumático.
Há um entendimento de que a real intenção do CEO Satya Nadella que, fato conhecido, está absolutamente obcecado com IA, não é tornar o Xbox lucrativo, mas se livrar dele. Não ter mais que competir com Sony e Nintendo liberaria capital a ser reinvestido em suas soluções generativas e tudo o mais conectado a elas, e dessa forma, os cortes, cancelamentos de games e vendas/dispensas de estúdios teriam sido feitos para tornar a divisão mais "vendável".
Sharma mesmo admitiu que os mais de US$ 80 bilhões gastos ao longo dos anos com estúdios de games foi uma aposta que não se pagou, e o Xbox Game Pass, que deveria ter 70 milhões de assinantes segundo projeções da empresa, só possui 30 milhões. Como Nadella não quer perder dinheiro que seria melhor empregado em IA, a melhor opção seria vender tudo.
O problema: mesmo com o massacre recém-promovido, o Xbox como um todo seria um produto que custaria fácil a um único comprador algumas centenas de bilhões de dólares; por isso, analistas acreditam que, se Asha Sharma colocar mesmo uma plaquina de "Vende-se" no jardim, o mais provável de acontecer é o fracionamento da divisão, com IPs e estúdios sendo distribuídos entre vários clientes.
Os candidatos mais prováveis a demonstrarem interesse em comprar partes do Xbox seriam o Embracer Group, que já controla inúmeras franquias e estúdios, e o Fundo Público de Investimentos (PIF) do príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, que controla a SNK e está em vias de concluir a compra da Electronic Arts; correndo por fora temos as gigantes chinesas NetEase e Tencent, embora esta tenha recentemente dado alguns passos para trás.
Nesse cenário, é possível que a Microsoft mantenha o controle de suas franquias mais valiosas (Halo, Minecraft, Call of Duty, Candy Crush Saga, Warcraft, DOOM, Gears of War, Diablo, Forza, Overwatch), enquanto se livraria dos estúdios, que passariam a desenvolver games como contratados, de modo similar ao que Disney e Warner Bros. fazem com suas IPs, enquanto as demais acabariam espalhadas por diversos donos; o futuro dos consoles Xbox também seria selado, com a gigante de Redmond seguindo os passos da Sega.
Por enquanto, a aposta de Asha Sharma se mantém: a intenção da CEO do Xbox é tornar a divisão lucrativa, conforme as ordens de Nadella, ao reduzir os custos (inclusive com pessoal) e focar apenas em franquias de ponta, mas grandes são as chances de que a luz no fim do túnel seja mesmo um trem no sentido contrário e em alta velocidade.