Ronaldo Gogoni 15/04/2026 às 15:21
Asha Sharma, a atual chefe da divisão Xbox, assumiu a função já propondo mudanças profundas na identidade da plataforma de games da Microsoft; foi ela quem ordenou o extermínio da campanha de marketing Isso é um Xbox, destinada a promover games de estúdios internos em todos os sistemas possíveis, ao classificá-la como uma peça publicitária que "não tem nada a ver" com a identidade da marca.
Segundo informes de gente próxima aos bastidores da Microsoft, Sharma está propondo uma mudança radical em como o Xbox se apresenta ao público, tanto por decisões erradas do passado, quanto por uma forma de reagir a recentes desenvolvimentos da rival PlayStation, focando em dois pontos principais: uma repaginação do Xbox Game Pass e a retomada dos games first party exclusivos, restritos novamente a seus consoles e à Microsoft Store em PCs Windows.
Quando Sharma assumiu a vaga de Phil Spencer, vindo da divisão de IA da Microsoft e tendo zero histórico com games, muita gente apontou para a tendência da companhia, por influência do CEO Satya Nadella, de que todos os problemas da empresa são problemas a serem resolvidos com soluções generativas, sejam elas aplicáveis ou não.
A executiva prometeu que não atocharia o Xbox com "IA ruim", apenas para imediatamente o console se tornar elegível a uma futura atualização que adicionará suporte ao Gaming Copilot, o que não deve ser entendido como uma imediata quebra de promessas, mas algo muito mais simples: para a Microsoft, suas soluções próprias não são ruins, o que contraria a percepção da ala opositora barulhenta, em que IA boa é IA nenhuma.
Vale notar que o PS6 e o PS5 também não vão se livrar, com a promessa de suporte a frames gerados por algoritmos em um futuro bem próximo, e com a Nvidia empurrando o controverso DLSS 5 em PCs, é provável que as únicas plataformas livres de IA se limitem aos consoles da Nintendo, apenas porque a casa do Mario abomina a ideia de usar ferramentas baseadas na coleta de propriedades intelectuais, incluindo as suas, algo que vai de encontro à sua filosofia.
Ao mesmo tempo, Sharma está propondo mexer em dois fatores do Xbox, exclusivos e Game Pass, como forma de atrair o público e recuperar o prestígio da marca. Sobre o serviço de assinatura, a executiva teria dito em um memorando interno que o preço do serviço "se tornou caro demais", aludindo ao reajuste violento de 50% no valor do plano Ultimate nos Estados Unidos, que chegou a insanos 100% no Brasil, o que fez assinantes verem o preço saltar de R$ 59,90 mensais para R$ 119,90/mês; todos os demais tiers sofreram reajustes similares.
No documento, Sharma diz que o Game Pass é "parte central" do valor do Xbox como plataforma, e que "o modelo atual ainda não é o final", dando a entender que a Microsoft ainda o vê como um programa beta. No entanto, a chefe da divisão diz que o valor cobrado "não mais reflete" o valor so serviço por alcançar uma faixa de preço inadequada em comparação aos benefícios fornecidos, e sugere a criação de um "sistema flexível", sem sugerir redução de preços.
Embora alguns tenham entendido que talvez o valor do plano Ultimate seja revisto para um preço mais acessível, o mais provável de acontecer é a Microsoft incrementá-lo com mais benefícios de modo a justificar a assinatura atual, ao mesmo tempo em que deve criar novos planos menos caros e com vantagens alinhadas ao que cada um pode pagar.
Os planos atuais se limitam ao Essential (antigo Core, R$ 43,90/mês), Premium (antigo Standard, R$ 59,90/mês) e o já citado Ultimate, além do PC Game Pass, que também teve um aumento substancial no valor da assinatura, passando a R$ 69,90/mês. A especulação sobre a flexibilização pode envolver a remoção de acesso a títulos no primeiro dia, e a muito provável reversão no plano de incluir novos Call of Duty no catálogo desde o início, o que derrubou violentamente as vendas da franquia nos últimos dois anos.
Outra possível mudança a caminho, segundo o insider Jez Corden, é que Asha Sharma está reavaliando a estratégia de distribuir games first party do Xbox, desenvolvidos por estúdios internos como Halo Studios, Activision, Bethesda, Double Fine, Rare, Ninja Theory, The Coalition (série Gears of War), Playground Games (Forza Horizon, Fable) e outros, de modo a reimplementar o sistema de games exclusivos, distribuídos apenas em consoles da companhia e via Microsoft Store em computadores Windows.
Sharma veria a possibilidade de focar novamente em exclusivos como "um assunto muito, muito sério", a correção de decisões tomadas no passado como forma de conter os gastos com desenvolvimento, mas que, dada a forma como a Microsoft promoveu sua presença em outras lojas e sistemas (de novo, com uma mãozinha da campanha Isso é um Xbox), acabou causando uma depreciação do ecossistema de hardware da gigante.
A Sony também sentiu isso quando sentou e começou a fazer as contas, e constatou que as vendas de seus títulos internos no PC não estavam compensando; como resultado, a companhia japonesa abandonou todo o plano de presença multiplataforma, mesmo tendo adotado um formato diferente da Microsoft, com delays de até um ano e zero presença no Xbox, exceto de certos títulos de desenvolvedoras parceiras, como Helldivers 2.
O problema: os títulos da Xbox Game Studios estão vendendo muito bem no PC, PS5 e consoles Nintendo, não raro liderando as listas; embora a mudança muito provavelmente não afete títulos já anunciados como Forza Horizon 6, o ato de "fechar a porteira", tal qual a Sony está fazendo, será traumático, dada a redução significativa de receita, mas é preciso lembrar que a Microsoft como um todo é uma das companhias mais ricas do planeta, ficando atrás no Top 10 apenas de Nvidia, Apple e Alphabet/Google.
Caso essa mudança seja implementada, a divisão Xbox vai sofrer, mas vai sobreviver e, a longo prazo, poderá se sustentar sobre as próprias pernas ao garantir público disposto a jogar seus títulos exclusivos em seus consoles e PCs Windows, incluindo os portáteis certificados de parceiros como a Asus (você não, Valve).

Voltar a focar em exclusivos deve doer mais no bolso da divisão Xbox do que da PlayStation, mas a Microsoft é a 4.ª companhia mais valiosa do mundo; Sony é a 140.ª (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)
Claro, considere esses informes como não mais do que rumores e mantenha os dois pés atrás, mas é preciso reconhecer que a divisão Xbox não tem como permanecer na situação em que está, principalmente com a Sony admitindo que a estratégia multiplataforma não é benéfica a uma companhia que vende consoles.
Isso sem contar com o RAMpocalypse que bateu em todo mundo, elevando os preços do hardware em geral, o que nos lembra que a próxima geração pode perigosamente bater a marca dos US$ 1 mil, o que periga fazer do hobby de jogar em consoles e em PCs poderosos aquilo que era no passado: um hobby apenas para gente com dinheiro sobrando.
De um jeito ou de outro, o mercado de consoles vai mudar, com Microsoft e Sony se mexendo para se adequar à atual realidade do mercado; a Nintendo, por sua vez, continuará fazendo o que lhe dá na telha, graças à força de suas franquias que garantem seu público, com ou sem crise.