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Xbox está morto. Vida longa ao Xbox!

Queda recorde nas vendas de consoles afetou Xbox bem mais que o PS5 ou o Switch; divisão de games da Microsoft terá que mudar para sobreviver

24 semanas atrás

O Xbox vai mudar, de um jeito ou de outro. O ano de 2025 viu a consolidação de um cenário que se desenhava há algum tempo, a Microsoft não tem mais fôlego para concorrer em consoles com a Sony e Nintendo.

A plataforma foi afetada tanto pelo aumento dos custos, que foram impiedosamente repassados para gamers e desenvolvedores, quanto pela decisão do CEO Satya Nadella de sacrificar todas as divisões, em prol de investir totalmente em soluções generativas de Inteligência Artificial (IA).

Xbox vendeu bem menos que o PS5, mas o ano de 2025 também não foi muito bom para a Sony (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Xbox vendeu bem menos que o PS5, mas o ano de 2025 também não foi muito bom para a Sony (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Hoje, a plataforma Xbox é uma incógnita. Embora a Microsoft tenha prometido uma nova geração de consoles e a manutenção da parceria com a AMD, cada vez menos consumidores se sentem dispostos a investir no sistema, e o reajuste violento na mensalidade do Xbox Game Pass, em que os preços simplesmente dobraram no Brasil, tirou totalmente o apelo do serviço, considerado problemático para a indústria.

Xbox contra o Futuro

A Microsoft teve bons resultados com o Xbox 360, mas o mesmo não pode ser dito das gerações posteriores. O Xbox One sofreu logo de cara, tanto com a decisão de torná-lo mais uma estação de mídia e menos um console, quanto por ser US$ 100 mais caro que o PS4, graças à venda conjunta inicial obrigatória do Kinect; a pataquada do always online, mesmo revista antes do lançamento, também prejudicou a imagem do sistema.

Como consequência, o PS4 vendeu em uma proporção 2:1 estável em relação ao Xbox One, que se manteve no início da 9.ª geração. Sony, Microsoft, e Nintendo fizeram a festa entre 2020 e 2021, principalmente devido à pandemia da Covid ter forçado as pessoas a ficarem em casa, e estas passaram a consumir mais consoles e games, mas claro, isso não iria durar.

Com o fim da pandemia, o aumento da inflação e do custo de vida geral da população, as pessoas reviram suas prioridade e games geralmente não entravam na lista; pouco depois, as coisas começariam a mudar radicalmente no cenário tech com a ascensão das IAs generativas, em que todo mundo passou a perseguir a tecnologia, um cenário que quase todo mundo hoje admite ser uma bolha; a mais recente a reconhecer a situação é a Salesforce.

Veja bem, um cenário de bolha e seu possível estouro não significa que as coisas voltarão a ser como antes da IA, a tecnologia é a Caixa de Pandora, uma vez aberta, não há volta.

Uma situação similar aconteceu quando a bolha das .com explodiu: apenas curiosos e empresas menores foram forçados para fora do mercado, enquanto as grandes e as disruptivas (Amazon, Google) sobreviveram, ao contrário do que os profetas do apocalipse da época pregavam, a completa destruição da internet e um retorno à era pré-WWW, que nunca aconteceu.

Voltando ao presente, poucos executivos se tornaram tão obcecados com a IA quanto Satya Nadella, a quem dizem que a tecnologia consumiu até mesmo sua vida pessoal. A expressão "queimar os navios", dita por ele internamente, diz respeito a depreciar TODAS as divisões da Microsoft que não sejam ligadas a soluções generativas (servidores Azure escapam pela tangente, por serem essenciais), com demissões em massa, redução de orçamento, cancelamento de projetos, e incorporação de algoritmos nos demais produtos e serviços.

O Xbox, claro, não foi imune à mudança: boa parte das demissões realizadas nos últimos anos se concentraram na divisão de games, o que levou ao fechamento de estúdios e cancelamento de títulos, alguns até então celebrados por Phil Spencer, chefe da Microsoft Gaming; com ordens vindo de cima para podar o que for possível a fim de poupar grana e redirecioná-la a IA, jogos e tudo o mais, mesmo Windows e Office, deixaram de ser prioridade.

Nadella teria sido ouvido dizendo que tudo o que a Microsoft passou construindo nos últimos 5 anos (de 2020 até o momento) "não tem mais significado"; apenas IA importa e tudo o mais será sacrificado, lembrando que a companhia tem sido só reativa, não é capaz de inovar por conta própria.

Xbox terá que mudar, de um jeito ou de outro (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Xbox terá que mudar, de um jeito ou de outro (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Então 2025 chegou, Donald Trump voltou à Casa Branca, e vieram as tarifas.

As taxas impostas aos países fabricantes de consoles, como China e Vietnã, bateram com força em Nintendo, Sony e Microsoft, especialmente com a primeira prestes a introduzir o Switch 2 no mercado, que preferiu absorver inicialmente a paulada e não reajustou os preços já anunciados; por outro lado, com base no aumento da inflação, a casa do Mario deu a largada no próximo aumento dos preços dos games, com os AAA chegando a US$ 80.

Sony e Microsoft, por sua vez, repassaram os custos crescentes para seus hardwares, tanto o PS5 Slim e Pro quanto o Xbox Series X e S se tornaram mais caros, mas a mudança de ares afetou bem mais a companhia de Redmond, devido à diferença de estratégias. Os japoneses se agarram firmemente ao PlayStation first, seus principais lançamentos, saem primeiro apenas para seus sistemas, e só depois chegam primariamente ao PC, e em casos selecionados (a série MLB: The Show não conta), aos consoles da concorrência.

A companhia de Nadella, por sua vez, lançou a campanha Isto é um Xbox, atestando que seus games, através do Game Pass, podem ser apreciados qualquer outro dispositivo, sejam PCs (desktops, laptops, e portáteis) e outros consoles rodando localmente, ou em TVs, smartphones, tablets, set-top boxes, dongles e outros, via streaming.

O efeito foi interessante, muita gente passou a considerar a plataforma de consoles desnecessária (ainda mais com um Xbox Series S, que oferece um desempenho inferior ao do Series X, custando US$ 400 lá fora), com o Game Pass expandindo a opção de streaming para games comprados na Microsoft Store, mas a Microsoft pôs tudo a perder com o reajuste violento nas mensalidades dos planos.

A Microsoft tinha uma chance de mudar a percepção do público e mantê-los dentro de seu ecossistema com os PC portáteis dedicados à experiência Xbox, como a linha ROG Ally da Asus, mas os preços altos de US$ 600 e US$ 1 mil (no Brasil, R$ 6 mil e R$ 10 mil) espantaram a clientela, pelo custo próximo demais do cobrado por laptops gamer, bem mais versáteis.

A decisão de não mais focar em exclusivos, e lançar seus principais títulos internos também no PS5 e Switch/Switch 2, é bom do ponto de vista de fazer mais dinheiro (para ser posto em IA, claro), mas fez com que o Game Pass deixasse de ser visto como uma excelente oferta para conhecer mais games; muitos defendem que o modelo da PS+, que muito raramente oferece jogo no primeiro dia de lançamento, e não o faz com seus first party, é mais sustentável e menos danoso aos estúdios, que deixam de fazer dinheiro no Xbox para ter visibilidade.

Por fim, a decisão de reajustar até mesmo o preço dos dev kits, de US$ 1.500 para US$ 2 mil, citando "mudanças no mercado", não foi bem digerida especialmente por desenvolvedores independentes, que hoje consideram o Xbox como uma plataforma avessa a eles.

Agora saíram os números de venda de consoles em 2025, e o cenário é aterrador: a venda de consoles durante a Black Friday foi a pior desde 1995, e os gerais do ano não estão muito melhores. A Nintendo vendeu mais de 18 milhões de consoles, sendo 10,7 milhões de Switches 2 e 7,6 milhões do sistema legado, que por causa disso, sofreu uma queda de 51,6% nas vendas, mas isso era esperado, o público vai preferir a novidade.

O PlayStation 5, por sua vez, vendeu 10,5 milhões, −8% em relação a 2024, mas o Xbox despencou de 3,12 milhões no ano passado, para 1,89 milhões neste ano, uma redução nas vendas de consoles de quase 40%. A diferença na proporção de vendas entre os consoles da Microsoft e da Sony está aumentando, e muitos preveem que não deve demorar para chegar a 3:1 em favor do PS5.

O Switch 2, por sua vez, deve vender significativamente mais que ambos concorrentes, mas não é visto como um concorrente direto; a Nintendo conseguiu assegurar a posição de "segundo console que todo mundo tem", em parte graças à força de suas IPs exclusivas, que não podem ser apreciadas em nenhum outro sistema.

Xbox Game Pass não é mais tão interessante quanto outrora (Crédito: Divulgação/Microsoft)

Xbox Game Pass não é mais tão interessante quanto outrora (Crédito: Divulgação/Microsoft)

O que resta para o Xbox é mudar, se não por iniciativa própria, por pressão externa.

A parceria com a AMD, voltada a unificar consoles, portáteis e PC, poderia levar a novos dispositivos como os ROG Ally e Ally X, mas seria interessante a gigante de Redmond fazer a Valve, ou seja, introduzir um console rodando Windows full, tal qual a nova Steam Machine é em relação ao Linux/SteamOS, que oferece liberdade de personalização e customização do sistema focado em games, mas tendo total suporte ao uso como um desktop acessível.

Com a próxima geração de consoles se avizinhando, a Microsoft precisa correr agora atrás do prejuízo para recuperar o público perdido, seja o que não mais tem interesse em comprar seus consoles, ou o que cancelou a assinatura do Game Pass por não mais ser interessante, sob o risco de não mais conseguir acompanhar os concorrentes, especialmente a Sony, e ficar relegada a ser observada pelos japoneses pelo retrovisor, a uma enorme distância.

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