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Valve, Steam Machine e o problema dos trapaceiros

Steam Machine pode mudar mercado de games, se a Valve resolver problema notório do Linux, trapaceiros em games online e competitivos

28 semanas atrás

Mais de uma década depois, a Valve revelou um novo modelo de Steam Machine, desta vez desenvolvida internamente, customizada e otimizada para funcionar como um console de mesa ao sair da caixa, tal qual o Steam Deck é um portátil.

A ambição da companhia da Gabe Newell para o produto, apelidado pela comunidade de "GabeCube" por motivos óbvios, é concorrer em iguais termos com Sony, Microsoft e Nintendo pelo domínio na sala de estar, e fazer mais pelo cenário PC gamer do que a Microsoft nos últimos 20 anos.

Steam Machine versão 2025, carinhosamente apelidada de "GabeCube" (Crédito: Divulgação/Valve)

Steam Machine versão 2025, carinhosamente apelidada de "GabeCube" (Crédito: Divulgação/Valve)

O grande problema do "GabeCube" é o mesmo do Steam Deck, o Linux. O SteamOS, como qualquer outra distribuição do pinguim, oferece facilidades a jogadores mal-intencionados e desenvolvedores de cheats, onde vários games online e competitivos são incompatíveis com o sistema, por decisão dos desenvolvedores.

Linux não é avesso a games, mas...

A nova Steam Machine é uma máquina bem interessante, equipada com uma CPU AMD Zen 4 customizada, com 6 núcleos, 12 threads e clock de até 4,8 GHz, uma GPU AMD RDNA 3 também parcialmente personalizada, com 28 UCs, clock de até 2,45 GHz e 8 GB de VRAM, menos que a presente no PS5 e Xbox Series X (16 GB e 13,5 GB respectivamente), mas ambos consoles usam a arquitetura RDNA 2, mais antiga.

A Valve muito provavelmente optou pela RDNA 3 ao invés da RDNA 4, presente nas GPUs da série Radeon RX 9000, por uma questão de custos; aliado a 16 GB de RAM DDR5, e opções de 512 GB e 2 TB de armazenamento com suporte a microSD e em tese, a nova Steam Machine seria um meio-termo entre um Xbox Series S e um PS5, com a comodidade entregue pelo SteamOS de um sistema otimizado para games, ou seja, é só tirar da caixa, ligar na TV, instalar seus games, e jogar.

Por ser um PC de corpo e alma, o "GabeCube" permite customização extensa, incluindo trocar o SO pelo Windows se o usuário assim quiser, mas vamos nos concentrar na experiência original otimizada, um hardware voltado para uso com Linux e camadas de compatibilidade, para rodar games que hoje não possuem suporte nativo.

O cenário gamer no Linux, independente da distribuição, não é nem de longe o deserto que costumava ser anos atrás. Por volta de 50% de todos os games para PC disponíveis hoje rodam no pinguim com desempenho "platina", ou seja, com 100% de perfeição e sem a necessidade de intervenções; por volta de 90% de todo o catálogo da plataforma roda hoje direto sobre o sistema aberto, incluindo aqueles que precisam de customização para rodarem bem, ou que sofrem algum comprometimento.

O problema é que dentro dos 10% que não rodam de jeito nenhum no Linux, estão pesos-pesados dos cenários online e competitivo, como os clássicos Fortnite, League of Legends, Valorant, Apex Legends, PUBG Battlegrounds e GTA Online, e lançamentos recentes como Call of Duty: Black Ops 7 e Battlefield 6. Todos exigem Secure Boot e implementam seus próprios recursos de anti-cheat, que não são compatíveis com o pinguim.

E podem nunca ser.

A EA chegou a suportar Apex Legends oficialmente no Steam Deck, mas mudou de ideia depois. Motivo? Cheaters (Crédito: Reprodução/GamingOnLinux/YouTube)

A EA chegou a suportar Apex Legends oficialmente no Steam Deck, mas mudou de ideia depois. Motivo? Cheaters (Crédito: Reprodução/GamingOnLinux/YouTube)

Com o Linux oferecendo acesso de baixo nível, usuários avançados manipulam o sistema para que ferramentas de trapaça passem pelo game quase que indetectáveis. A Valve ofereceu soluções do seu lado, com camadas de compatibilidade do Proton que conversam com o Easy Anti-Cheat da Epic Games, e o BattlEye, usado tanto por Fortnite quanto por PUBG e GTA Online.

No entanto, Epic, Krafton e Rockstar se recusam veementemente a homologar a compatibilidade do lado deles; hoje, para rodar qualquer um desses games no Steam Deck é preciso instalar o Windows no portátil, seja como sistema único ou em Dual Boot, e executá-los pelo SO da Microsoft (streaming via Game Pass, Moonlight, GeForce Now, ou Steam Link não conta, obviamente), e isso não deve mudar com a Steam Machine.

A EA foi uma das poucas companhias que inicialmente deu suporte ao Linux com um game competitivo, Apex Legends, apenas para mudar de ideia e bloquear a compatibilidade pelo mesmo motivo, trapaceiros e cheaters no Linux avacalhando a experiência de quem só quer se divertir. A Riot tem preocupações semelhantes, o diretor de anti-cheat de Valorant, Philip Koskinas, disse que "você poderia criar uma distro Linux feita sob medida para cheats", que os estúdios não teriam como identificar chamadas de kernels manipulados.

Steam Machine e o problema da Valve

Dessa forma, a solução mais simples é banir por completo o Linux, não importa a distribuição, e o SteamOS, presente no Steam Deck e Steam Machine, vai no pacote; ao mesmo tempo, esses estúdios defendem que a quantidade de gamers que usam o pinguim como plataforma séria para jogos é irrisória quando comparada à base instalada no Windows, logo, irrelevante e insuficiente para justificar maiores investimentos em outro sistema operacional

Esse é o mesmo problema que aflige o macOS, que a Apple não consegue reverter; para os grandes estúdios, o dinheiro da Glorious PC Gamer Master Race está e continuará no Windows, e é nele que continuarão mirando com versões dedicadas e otimizadas, e se suporte a Linux significa abrir a porteira para cheaters e afins, as desenvolvedoras farão de tudo para barrar o acesso do sistema a seus títulos.

A Valve poderia tornar seu SteamOS o mais blindado possível para impedir a ação de trapaceiros, mas para a comunidade, isso só seria possível fechando o acesso ao código-fonte e às camadas mais profundas da distribuição Linux; isso vai de encontro aos fundamentos mais básicos do software livre, e tornaria o sistema mais próximo do Android, que não é nem de longe aberto.

Isso não quer dizer que a Steam Machine não represente uma grande chance para a Valve. Hoje, dos 1.136 games para Windows que possuem um sistema de anti-cheat, 452 (40%) já rodam ou possuem compatibilidade com Linux e Proton, enquanto 635 (36%) não funcionam, e 47 (4%) barram o sistema completamente por decisão dos estúdios, a saber, os suspeitos habituais.

O que a Valve pode fazer, é trabalhar com as armas que tem, e posicionar o "GabeCube" como uma alternativa customizável aos consoles de mesa, tão livre quanto o Steam Deck é, e atrair o público principalmente com um preço competitivo, o que nessa economia pode ser bem difícil, ainda mais se ele for tratado como um PC, e chegar com uma etiqueta equivalente, o que é quase inevitável.

Se as vendas forem significativas, talvez, e isso é um enorme TALVEZ, estúdios que hoje resistem ao Linux possam mudar de ideia sobre suportar o sistema, de olho em fazer mais dinheiro e se dêem ao trabalho de fortalecer as defesas de seus games, mas isso, só saberemos no futuro.

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