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Se a Valve ainda existe, a “culpa” é do estagiário

Em documentário que celebra 20 anos do Half-Life 2, funcionários da Valve lembram quando um estagiário ajudou a empresa a vencer a Vivendi nos tribunais

1 ano e meio atrás

O último sábado, dia 16 de novembro, marcou o 20º aniversário de um dos melhores jogos de todos os tempos, o Half-Life 2. Tendo ajudado a Valve a se consolidar como uma das desenvolvedoras de jogos mais adoradas da indústria, aquele FPS continua fantástico, mesmo tanto tempo depois, mas o que nem todos sabiam é que não só ele, como as várias franquias da empresa e até mesmo o Steam, por pouco poderiam nem ter existido.

Crédito: Divulgação/Valve

A revelação dessa história aconteceu no dia em que o jogo fez aniversário, quando para celebrar a ocasião, a Valve lançou um site com várias informações (dica: clique na Gravity Gun, no final da página). Entre elas estava um documentário produzido pela Secret Tape em que a empresa conta detalhes muito interessante da criação do Half-Life 2 e do que estava acontecendo na época.

O ano era 2002 e a Vivendi tinha adquirido os direitos de distribuição do Counter-Strike após fechar um acordo para comprar a Sierra, editora que até então era responsável por isso. Então, com o controle da marca, os franceses decidiram levar o jogo multiplayer para os cibercafés sul-coreanos, algo que a Valve entendia que não fazia parte do acordo.

Para o Diretor de Operações do estúdio, Scott Lynch, aquela era uma briga sem muita importância, com sua empresa apenas buscando reconhecimento da situação, mas conforme a Vivendi continuou negando isso, a Valve preferiu tomar uma medida mais enérgica, levando o caso para os tribunais e passando a exigir uma compensação financeira. A partir daquele momento, o conflito escalou, com os franceses passando a encarar a situação como “uma Terceira Guerra Mundial”.

Mas enquanto os criadores do Half-Life foram representados pelo advogado Karl Quackenbush, a Vivendi usou todo o seu poder financeiro para contratar uma firma de advocacia. Ela então acionou uma série de reconvenções, que é quando um recurso jurídico permite que o réu apresente uma nova demanda contra o autor do processo. Pois aquilo atingiu diretamente a Valve, fazendo com que ela ficasse perto da falência.

Crédito: Divulgação/Valve

No tribunal, o conglomerado francês exigiu o fim do acordo que havia sido firmado entre a empresas em 2001, bem como os direitos totais sobre a franquia Half-Life e o impedimento da criação do Steam. Para Lynch, o objetivo da Vivendi era claro: acabar com a Valve!

“Aquilo foi realmente sobre uma afirmação de poder,” declarou o CEO da desenvolvedora, Gabe Newell. “Eles estavam apenas tentando aumentar os nossos custos legais como outra forma de drenar tempo e dinheiro da empresa. A empresa estava bem perto de ir à falência, eu estava bem perto de ir pessoalmente à falência — nós fomos all in, não havia mais dinheiro.”

Mas se a alta cúpula do estúdio deve ter ficado bastante preocupada com a situação, os profissionais que se dedicavam a criar o Half-Life 2 não devem ter se sentido muito tranquilos. Embora a produção tenha continuado e os executivos tenham feito o melhor para blindar a equipe, havia um sério risco de que o FPS nem chegasse a ser lançado, mesmo com o projeto sendo concluído.

Enquanto isso, os recursos da Valve se aproximavam do fim e o cenário só começaria a mudar quando eles pediram os documentos relacionados a como a Vivendi atuava na Ásia. Porém, aquilo fez surgir outro grande problema. Tudo estava escrito em coreano, algo que as pessoas desconfiavam se tratar de mais uma maneira de minar as forças (e o orçamento) do reclamante.

Contudo, por algo que pode ser considerado uma bela jogada de sorte, naquele verão a desenvolvedora havia contratado um estagiário conhecido apenas como Andrew e entre as suas habilidades, estava ter o coreano como sua língua nativa e ter se formado na faculdade em estudos daquele idioma. A missão do sujeito então passou a ser examinar os documentos.

Conforme lia sobre o que a Vivendi estava fazendo do outro lado do mundo, ele descobriu que um executivo coreano da Vivendi ordenava em um e-mail a destruição de documentos sobre o acordo com a Valve. Aquilo era ilegal, um movimento que Karl Quackenbush afirmou nunca ter visto uma exposição daquela forma em toda sua carreira.

Aquela parecia ser a brecha que poderia mudar o rumo do processo, o que acabou se confirmando. Após levar o documento para o juiz responsável pelo caso, ele deu razão à Valve e definiu que a Vivendi não poderia contestar. Como consequência, os direitos sobre as franquias Counter-Strike e Half-Life continuariam com os criadores, com eles não podendo ser distribuídos nos cibercafés pelos franceses.

Desta forma, Gabe Newell e cia. puderam explorar a distribuição de seus títulos como quisessem, o que eventualmente os levou a testar a distribuição digital com um serviço que logo se tornaria um gigante, assumindo a liderança isolada — e, até o momento, aparentemente inalcançável — deste mercado.

Crédito: Reprodução/Reddit

Provavelmente nunca saberemos como a Valve teria reagido àquela situação caso tais documentos não tivessem sido encontrados e traduzidos. Se Andrew não estivesse por lá, o provável é que a empresa contrataria um tradutor, o que talvez nem custasse tanto, mas para alguém como Newell, que estava até mesmo cogitando colocar sua casa à venda, qualquer centavo a mais gasto no processo poderia causar um grande impacto.

Quanto ao estagiário, pelo jeito ele não continuou na Valve por muito tempo e hoje as pessoas só lembram do seu primeiro nome. Logo, minha esperança é que ele tenha conseguido sucesso em sua carreira e conhecendo a internet, não deverá demorar até que alguém descubra sua identidade.

Como dizem por aí, nem todo herói usa capa e se há alguns dias tivemos a alegria de ver o fantástico Half-Life 2 recebendo uma generosa atualização que o torna ainda melhor, de certa forma devemos agradecer àquele sujeito (por enquanto) desconhecido.

Fonte: PCGamer

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