Ronaldo Gogoni 28 semanas atrás
O Xbox 360 completou 20 anos neste sábado (22). O console da Microsoft abriu formalmente a sétima geração de consoles, e por um ano inteiro reinou sozinho no mercado, até Sony e Nintendo colocarem seus novos sistemas, o PS3 e o Wii, nas lojas.
Hoje, alguns argumentam que o 360 pagou o preço pela pressa da Microsoft, do limitado drive de DVD ao "anel vermelho da morte", mas para Peter Moore, que respondeu pelo lançamento dos dois primeiros consoles Xbox, era imperativo que o sistema estabelecesse uma presença sólida na sala de estar dos gamers antes da Sony.

Mesmo tendo vendido 3,4 milhões de unidades a menos que o PS3, muitos consideram o Xbox 360 o "vencedor moral" da 7.ª geração de consoles (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)
Peter Moore já era um executivo conhecido no mercado de game, tendo atuado como presidente da Sega of America a partir de 2000, e gerenciou o lançamento e distribuição do Dreamcast no ocidente. Embora sua saída da companhia não tenha se dado da melhor forma, o britânico acabou indo parar na Microsoft em janeiro de 2003, com a missão de ajudar nas vendas do Xbox original.
Não deu certo, claro. Com 160 milhões de unidades, o PS2 é o console mais vendido da história (com a Sony vira e mexe achando mais unidades, o que inclusive virou piada), quase o triplo do total de vendas do Xbox, Dreamcast e Nintendo GameCube, somados (54,87 milhões, números oficiais).
A grande ironia dessa história, o primeiro console da Microsoft vendeu mais que o de 128 bits da Nintendo (24 milhões vs. 21,74 milhões), sendo que o então CEO, Satoru Iwata, acreditava em 50 milhões de cópias, e não chegaram nem na metade disso; ainda assim, o GameCube deu lucro à casa do Mario.
Não dá para negar que a Sony deu uma surra em todo mundo, se firmando como a grande companhia de consoles durante a 5.ª geração, ao aproveitar os tropeços da Sega ao longo dos anos que culminaram com sua saída do mercado, para posteriormente destronar a Nintendo. A Microsoft entrou nessa quizumba por verem os japoneses como uma ameaça, quando o PS2 foi inicialmente anunciado como capaz de rodar... Linux.

O Xbox original e dois controles "Duke". Era elegante, de certa forma (Crédito: Jzh2074/Wikimedia Commons)
A cúpula da companhia (Bill Gates, Steve Ballmer e cia.) temia que consoles evoluíssem para estações multimídia mais simples de operar que um PC, o anúncio do PS2 foi entendido como uma declaração de guerra da Sony ao Windows, e a resposta foi a entrada da Microsoft no mercado de games, altamente competitivo e um tanto saturado (lembre-se que a Sega já estava jogando a toalha), com uma "caixa que roda DirectX" exclusiva para games e multimídia.
Foi nessa época em que Peter Moore chegou à Microsoft, conforme contado pelo próprio em entrevista ao site Eurogamer:
"A Microsoft precisava se estabelecer na sala de estar. A companhia, e em particular o Bill (Gates), com quem eu tive o privilégio de conviver, tinha medo que a Sony ia dominar a sala de estar.
Pode parecer idiota mas, na época, com TVs, players de Blu-ray e de música... a Sony tinha se estabelecido firmemente como uma companhia de entretenimento, se convertido em um hub na sala de estar.
O que o Bill e a cúpula temiam, era que a Microsoft ficasse relegada a deskotps em escritórios, a ser uma mera companhia de produtividade".
Na época (2003), os trabalhos em torno do Xbox 360 estavam a todo vapor; mesmo com o sacode que levou do PS2, o grande trunfo do primeiro sistema foi o suporte à Xbox Live desde o momento que você tira o console da caixa, bastava ligar, conectar e jogar com outras pessoas usando a internet, enquanto o console da Sony dependia de um modem vendido à parte.
A Microsoft entendeu que, para ter uma chance de competir em iguais termos, era preciso apostar firmemente na conectividade e na criação de uma comunidade online de jogadores, e em games e desempenho de ponta, ANTES que a Sony o fizesse com seu próximo console. A solução para isso foi queimar a largada e dar início à 7.ª geração de consoles ela mesma, estabelecendo para si uma janela de tempo sem nenhum competidor por perto.
No dia 12 de maio de 2005, a MTV apresentou o Xbox 360 em um programa especial patrocinado pela Microsoft, à moda da emissora: participações especiais aleatórias, uma customização questionável do console pela equipe do programa Pimp My Ride, apresentações musicais... ah, teve alguns games também.
A apresentação termina com o ator Elijah "Frodo Bolseiro" Wood, o MC do programa, dizendo que esperava encontrar todo mundo online na Xbox Live. Fato relevante, eu nunca encontrei Elijah Wood online na Xbox Live.
A apresentação formal do Xbox 360 se deu quatro dias depois do infomercial, digo, especial da MTV, durante o keynote da Microsoft na E3 2005, a edição da finada feira com o recorde de maior público (70 mil pessoas). Moore conta que, para que o console tivesse alguma chance de competir, ele precisava vender de forma significativa nesse primeiro momento:
Nós achávamos que era imperativo sairmos na frente. Eu fiz algumas contas de cabeça e olhei para o histórico de vendas, e disse: 'o primeiro que vender 10 milhões, vence'. Quer dizer, o primeiro console a alcançar uma base instalada de 10 milhões de jogadores.
Você tem o "efeito volante", na época conhecido como "efeito de rede" - seus colegas na escola têm um Xbox 360, então você precisa ter um também. Eles estão jogando Halo e você não, porque você não tem um.
Então você cria esse efeito de rede, e de repente você está deslocado, você está "por fora" quando você vai para a aula na escola ou na faculdade, ou mesmo para o trabalho, e ouve todo mundo conversando sobre estarem jogando Halo na noite passada."
Moore conta que não importa o mercado, se de tênis (ele originalmente saiu da Reebok para a Sega) ou videogames (que ele não entendia lhufas quando entrou, mas aprendeu rápido), "só há 100% de market share", então qualquer empresa deve tratá-lo como "um campo de batalha, onde é preciso conquistar corações e mentes".
Um lançamento simultâneo do Xbox 360 com o PS3 seria mortal para o sistema da Microsoft, ele precisava daquela vantagem de um ano, e o preço inicial de US$ 399 (com um drive de 20 GB) também ajudou bastante.
Paralelamente, a plataforma precisava de exclusivos, e a Microsoft fez grandes apostas com desenvolvedoras externas, como Bizarre Creations (Project Gotham Racing 3) e Lionhead Studios (port de Fable), enquanto estabelecia marcas próprias, como Perfect Dark Zero e Kameo: Elements of Power (ambos da Rare, comprada em 2002), e as séries Gears of War e Forza Motorsport (o grande competidor das franquias Gran Turismo e Need for Speed, segundo Moore).
O PS3 e o Wii só chegariam às lojas em novembro de 2006, o primeiro custando insanos (para a época) US$ 599, e o segundo por muito mais amigáveis US$ 249, aliado à filosofia de Gunpei Yokoi de "fazer diferente com hardware estabelecido": ao invés de focar na potência, a Nintendo apostou todas as fichas na tecnologia de detecção de movimentos para atrair principalmente quem nunca jogou videogames até então.
Essa estratégia fez do Wii o console mais vendido da 7.ª geração, com 101,63 milhões de unidades, com ele considerado o "segundo console" que todo mundo tinha.
No que consta a Microsoft ficou com a medalha de bronze, o Xbox 360 vendeu 84 milhões de unidades em todo o mundo, mas a aposta de Moore se pagou, com o sistema tendo sido o primeiro a alcançar a marca dos 10 milhões; isso permitiu ao console fechar a geração em números muito mais próximos aos 87,3 milhões alcançados pelo PS3. A Sony hoje pode vender mais, com uma proporção estável de 2:1 em relação à Microsoft desde o PS4, mas nunca mais repetiu a surra do PS2.
Se considerarmos o Switch como um sistema da 8.ª geração, a Nintendo vendeu mais que o PS4 e Xbox One com 153,1 milhões de unidades até o momento, e deve repetir a dose com o Switch 2 em relação ao PS5 e Xbox Series X|S, se o volume de vendas se mantiver o mesmo pelos próximos anos.
A Microsoft também estabeleceu o Gold Standard para a jogatina online em consoles, a Xbox Live era, e é (sob o nome atual Xbox Network) uma comunidade sólida de jogadores, que a Sony levou tempo para reproduzir nos seus termos com a PSN, e a Nintendo patina até hoje para entregar uma experiência similar.
Não obstante, o Xbox 360 foi o primeiro console a ser efetivamente posicionado como uma estação multimídia, para o consumo de outras coisas além de games, como música e filmes; o PS3 ganhou pontos nesse quesito por ser o primeiro player de Blu-ray de muita gente, o que a Microsoft tentou remediar com uma parceria com a Toshiba, ao introduzir um leitor de discos HD-DVD acessório para filmes... a versão anos 2000 da disputa VHS vs. Betamax, que a Sony quase perdeu por inicialmente não querer pr0n nos seus disquinhos azuis.
Hoje a Microsoft nada em outra direção, buscando garantir sua presença em todas as plataformas possíveis, incluindo a concorrência, algo que a Sony também está fazendo à sua maneira, mas naquele momento em 2005, a companhia de Redmond deu um passo importante para se distanciar da imagem de uma companhia de "nerds micreiros", enquanto estabeleceu as regras para uma competição equilibrada durante e depois da 7.ª geração de consoles.
Sim, hoje a Sony domina o mercado, mas o cenário poderia ser bem mais desigual, se o Xbox 360 não tivesse aquele ano inteiro para se estabelecer como a grande novidade em videogames.