Ronaldo Gogoni 43 semanas atrás
A Sony não vai depreciar a plataforma PlayStation, ao contrário do que muita gente anda falando. Uma declaração de um executivo durante reunião com acionistas, distorcida para a companhia japonesa se distanciando do foco em consoles, deu a entender que ela abraçaria uma estratégia multiplataforma similar a do Xbox.
Como sempre, o real sentido se perdeu na tradução: a empresa dará maior atenção à base de usuários ativos e engajamento destes em criação, mas não só em games, ao mesmo tempo que não pretende abdicar de hardwares dedicados, consoles inclusos; em suma, nada diferente do que a Sony já vem fazendo.

Sony vai mover PlayStation para um formato mirando em usuários ativos, sem abrir mão dos consoles (Crédito: Divulgação/Sony)
Antes de mais nada, vamos rever como o mercado de games anda se comportando:
A Nintendo abandonou a disputa direta do mercado há mais de uma década, ao adotar uma postura de "segundo console" com o Wii, lançado em 2006, enquanto continuou dominando o setor de portáteis. Com o Switch, ela tornou as duas linhas em uma só, consolidando a presença em residências com um hardware ligeiramente mais acessível e agora flexível, e jogando com o prestígio de suas IPs exclusivas, estratégia mantida com o Switch 2, que vendeu 5,82 milhões de unidades desde o lançamento.
A Microsoft, por sua vez, migrou para um formato onde despriorizou o hardware dedicado da linha Xbox (mas continuará lançando novos consoles), um cenário onde seus games first party serão disponibilizados de forma simultânea no PC, em dispositivos de terceiros como ASUS e Meta, e nas plataformas rivais da Sony e Nintendo, além de investir fortemente no serviço Game Pass, acessível também via streaming em smartphones e tablets, TVs, set-top boxes, e outros.
A Sony manteve a estratégia tradicional de console first, grande foco em exclusivos próprios e de estúdios parceiros, e disputa pelo consumidor premium com plataformas estado-da-arte, tal qual o Xbox Series X da Microsoft. Foi isso que a levou a investir no PS5 Pro, uma questionável atualização de hardware de meio de geração para implementar componentes voltados à Inteligência Artificial (IA), e no Portal, um "portátil" voltado a streaming de games instalados no PS5, que não funciona de forma autônoma.
Com o tempo, a Sony começou a flexibilizar sua abordagem ao permitir que certos games de seus estúdios internos, e de aliados estratégicos como Square Enix, Kojima Productions, Shift Up, Arrowhead e outros, fossem lançados também para PC, Switch e Xbox, após um período de exclusividade que os mantêm por um ano, no mínimo, somente no PS5. Uma das restrições removidas deste movimento foi a exigência de uma conta da PSN, que limitava o acesso dos games a pouco mais de 100 países, o que prejudicava as vendas.
Porém, a Sony deu indícios de que algo estava mudando quando uma declaração de Sadahiko Hayakawa, SVP sênior financeiro da companhia japonesa, veio a público.
Sony Senior Vice President Sadahiko Hayakawa says they are gradually shifting their gaming business from a hardware centric business model to a community and engagement based platform business model #PlayStation
“In the gaming business, we are moving away from a hardware centric… pic.twitter.com/8xnKyihMHE
— Genki✨ (@Genki_JPN) August 7, 2025
Em uma postagem no X traduzida por um usuário, o executivo teria dito em japonês, durante reunião recente com acionistas, que a divisão PlayStation está "se movendo gradualmente de um negócio centrado em hardware (consoles), para um formato de plataforma de modo a expandir a comunidade, e aumentar o engajamento" dos consumidores.
Não demorou para muita gente, do público à mídia de games "especializada", interpretar a mensagem como "Sony se afasta do mercado de consoles", talvez adotando a mesma estratégia da Microsoft com o Xbox, aliada a outra declaração de Hayakawa na mesma reunião, de que apesar do negócio de Jogos Como um Serviço (GaaS) não estar dando o resultado esperado, a companhia continuará investindo nele.
Como sempre, contexto importa, e na falta de acesso ao conteúdo integral da frase, este é mais um caso de traduttore, traditore. Uma postagem mais completa do que o executivo disse, publicada no fórum Reset Era, deu mais sentido à frase deslocada, que foi uma resposta a um acionista questionando o investimento agressivo na criação de novas IPs, ao adquirir 2,5% da Bandai Namco por ¥ 68 bilhões (~R$ 2,48 bilhões, cotação de 12/08/2025):
"Quanto aos negócios de eletrônicos e TV, em comparação com dispositivos de saída, estamos migrando para dispositivos de criação que incluem câmeras digitais. Como resultado, temos observado mais estabilidade na lucratividade e na receita, e também a produtividade do nosso desempenho está aumentando. Nesse contexto, por exemplo, no negócio de música, aquisições da EMI Music Publishing (em 2018) e de (ações em plataformas de) streaming aumentaram nosso catálogo musical.
Como mencionei no discurso, no que se refere a games, estamos nos afastando de um negócio centrado em hardware para um mais voltado ao engajamento comunitário, e isso tem aumentado. Agora, à medida que fazemos a transição para a criação de entretenimento, estabilidade e produtividade, o nosso desempenho está aumentando.
Portanto, essa revisão para cima pode não ter sido um resultado direto disso. No entanto, a Music Publishing, a aquisição de um catálogo musical, e a aquisição da Crunchyroll (streaming de animes, que absorveu o legado Funimation) são áreas em que estamos observando crescimento. E, como portfólio, temos expandido nossos negócios e também melhorado nossa lucratividade."
Hayakawa não estava se referindo apenas à divisão PlayStation, mas à Sony em sua totalidade: ao invés de focar em plataformas de consumo de conteúdo (consoles, TVs, etc.), a gigante japonesa dará maior atenção a dispositivos e serviços de criação, que incluem câmeras digitais.
A empresa quer promover que seus consumidores criem conteúdo em fotografia, música, cinema, streaming e games, estimulando-os a deixarem de ser passivos e se tornarem pró-ativos, que em última análise, agregará mais valor aos produtos da empresa.
A Sony já expressou no passado, mais de uma vez, que um dos principais fatores para medir o sucesso da divisão PlayStation é o número de usuários ativos mensais, uma estatística mais significativa do que o número total de consoles, mesmo que os japoneses continuem tirando unidades do PS2 da cartola para mantê-lo no topo da lista dos mais vendidos.
Ao dar mais atenção a quem consome seus games, independente da plataforma, a Sony sinaliza que deverá aumentar sua presença principalmente no PC, e em segundo lugar no Xbox e Switch, mas sem diminuir a atenção ao hardware dedicado da linha PlayStation. Como ponta-de-lança e "o melhor lugar para jogar", seu sistema doméstico continuará a receber lançamentos exclusivos antes dos demais, e experiências multiplataforma deverão ser analisadas caso a caso.
Um exemplo recente é o anúncio de que Marvel Tokon: Figthing Souls, um novo game de luta desenvolvido pela Arc System Works (séries Guilty Gear e BlazBlue, Dragon Ball FighterZ), chegará em 2026 exclusivamente ao PS5 em consoles, além do Windows, com a Sony Interactive Entertainment (SIE) como distribuidora.
Xbox? Switch 2? Na melhor das hipóteses, talvez em 2027.
De resto, a Sony vai adotar uma aproximação mais aberta para levar seus games a mais plataformas, mas sem tirar o PS5 do alto da pirâmide, como o sistema principal. A médio prazo, isso também permitirá aos jogadores escolherem sua plataforma de preferência sem se preocupar com exclusividade, sabendo que mais cedo ou mais tarde, terão acesso aos lançamentos de todos.
Já para os istas que fazem questão de ter acesso a exclusivos antes dos demais, o PS5 e posteriormente o PS6 (que deverá dar as caras daqui a alguns anos, assim como a próxima geração de consoles Xbox) continuarão sendo as primeiras opções, e isso não vai mudar, no que depender da gigante japonesa.
Fonte: The Gamer