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Sony, Nintendo, preços altos, processos e desculpas furadas

Processos contra Sony e Nintendo mostram que gamers cansaram de desculpas e aumento de preços, enquanto empresas batem recordes de receita

19/05/2026 às 10:30

"Condições de mercado desafiadoras". Essa tem sido a desculpa padrão usada por companhias para reajustar preços a torto e direito, citando desde o "tarifaço" de Donald Trump e a explosão exponencial das IAs generativas, que estão comendo todos os componentes que encontram, ao conflito no Irã como motivos.  Sony, Nintendo e Microsoft também a usaram bastante nos últimos tempos.

As três companhias se apoiaram na oscilação do mercado como justificativa para reajustar preços de consoles e serviços e iniciar manobras que podem no futuro levar a games mais caros, com US$ 80 (ou mais) sendo a nova base para títulos AAA, enquanto o poder aquisitivo dos consumidores, gamers ou não, só encolhe graças a salários baixos, aumento do desemprego (exacerbado pela IA) e custo de vida cada vez mais alto.

Yakuza 0 (Crédito: Reprodução: Ryu Ga Gotoku Studio/Sega) / sony

Sony e Nintendo: "money for me, price raises for thee" (Crédito: Reprodução: Ryu Ga Gotoku Studio/Sega)

Sony e Nintendo recentemente processaram o governo dos Estados Unidos para reaver parte dos valores pagos devido ao "tarifaço", declarado ilegal pela Suprema Corte, para pouco tempo depois anunciarem novos reajustes de preços de seus produtos e serviços, o que alguns consumidores tomaram como a ofensa final:

Esses entraram com ações na Justiça, exigindo que qualquer repasse seja revertido aos gamers, em vez de ser embolsado pelas companhias.

Sony, Nintendo e o fim da paciência dos gamers

O "tarifaço" de Trump, apresentado em abril de 2025, previa a cobrança de tarifas recíprocas de importação que foram impostas a quase todas as nações do planeta, com uma ou outra providencial exceção, como a Rússia. A China chegou a ser taxada em 125%, após um jogo de pingue-pongue com os EUA, enquanto o Brasil, que pagaria 10% na maioria de seus produtos, viu alguns deles receberem etiquetas altíssimas, como o aço, taxado em mais 50% sobre 25% anteriormente em vigor (sim, cobrança em cascata).

Passado um tempo Trump concedeu algumas isenções, mirando principalmente smartphones e GPUs, mas ignorou consoles e games, classificados pelo fisco norte-americano como brinquedos. Sony e Microsoft fabricam seus consoles na China e prensam mídias físicas no México, país então taxado em 25%, movimento esse que tinha o potencial de acelerar o fim da mídia física; a Nintendo traz tudo do Vietnã, taxado em 46%.

Paralelo a isso, a evolução das IAs generativas levou os fabricantes de componentes cruciais a direcionarem toda a sua produção para aceleradoras (Nvidia e cia.), deixando todo o resto do mercado a ver navios; mesmo a Apple está tendo dificuldades para manter a escala e produção dos próximos iPhones, e consoles também não escaparam disso; para fechar a espiral de problemas, o conflito no Irã e a crise no estreito de Ormuz dificultam o escoamento de componentes e matéria-prima, prejudicando ainda mais a situação.

Ainda em 2025, Sony e Microsoft reajustaram os preços de seus consoles; a Nintendo introduziu o Switch 2 no meio da tempestade de tarifas, com um game AAA desenvolvido internamente custando US$ 80, e pouco tempo depois reviu os valores do Switch original e de todos os seus acessórios.

Versão pixelizada de Donald Trump, 47.º presidente dos EUA, na tela de um Nintendo Switch 2 (Crédito: Game Rant)

Quando o tarifaço de Donald Trump foi declarado ilegal, Nintendo e Sony rapidinho pediram ressarcimento... mas não repassaram nada aos consumidores (Crédito: Game Rant)

Corta para 2026, tanto a Sony quanto a Nintendo reportaram lucros consideráveis, mesmo com aumento de custos e declínio de vendas, no caso do PS5 (talvez porque todo mundo que pretendia comprar um, já comprou), enquanto processaram o governo dos EUA tão logo a Suprema Corte (SCOTUS) declarou o "tarifaço" ilegal, gerando um possível ressarcimento de US$ 160 bilhões (~R$ 804 bilhões, cotação de 19/05/2026) em impostos pagos indevidamente pelas empresas, que devem ser devolvidos.

O governo Trump tentou argumentar contra a medida, mas dado que essa é uma decisão da instância judicial máxima do país, a Casa Branca eventualmente começou a devolver o que arrecadou. Isso posto, companhias que reajustaram seus preços por conta das tarifas deveriam reverter tais decisões e reduzir os valores de seus produtos, certo?

Errado. Qualquer um que entenda um pouquinho de capitalismo sabe que qualquer vantagem deve ser absorvida; a missão de qualquer empresa é dar lucro, tudo o mais é acessório. Não só os preços não foram reduzidos, como a Sony recentemente anunciou que vai reajustar a mensalidade mensal e trimestral do plano Essential da PS+ em US$ 1 em mercados selecionados, talvez para forçar consumidores a migrarem para o plano anual (que, por enquanto, não foi reajustado). O motivo? "Condições voláteis de mercado", claro.

A Nintendo, por sua vez, respondeu com o inevitável aumento no preço do Switch 2, e também ajustou a assinatura da Nintendo Switch Online para cima, também citando as famigeradas "mudanças nas condições do mercado", o que todo mundo entende como "estamos aumentando os preços primeiro porque podemos, e segundo, porque vocês vão pagar mesmo assim".

Só que nem todo mundo está comprando esse discurso.

Detalhe da capa de Wario World (Crédito: Divulgação/Treasure/Nintendo)

Nintendo e Sony acreditam que poderão cobrar cada vez mais caro dos gamers de forma impune (Crédito: Divulgação/Treasure/Nintendo)

Em abril, pouco antes da Nintendo anunciar o reajuste no preço do Switch 2, Gregory Hoffert e Prashant Sharan, gamers respectivamente dos estados da Califórnia e Washington, abriram uma ação coletiva contra a casa do Mario, de modo a impedir que a empresa lucre com o retorno do que pagou a Trump durante o "tarifaço", entendendo que ela estaria "lucrando duas vezes", somando-o ao que tirou dos consumidores com os aumentos de preços.

Agora, foi a vez de Amorey Walker e Bryce Foster-Quarles fazerem o mesmo contra a Sony, em uma outra ação coletiva aberta na Corte Distrital do Norte da Califórnia, a mesma em que o processo da Epic Games contra a Apple está sendo tocado desde 2020. Como ponto positivo para a gigante japonesa, quem vai cuidar do caso não será a juíza Yvonne Gonzalez Rogers, que não gosta de conversa mole e não tolera ser enrolada.

Em ambos os processos, as partes envolvidas devem ser ouvidas nos próximos meses, para que apresentem seus argumentos de defesa e acusação; mesmo que não dê em nada e Sony e Nintendo não sejam obrigadas a reverter nada aos consumidores (o que, sinceramente, é o mais provável de acontecer), ambas situações ilustram que boa parte do público não está comprando a desculpa de "condições de mercado desafiadoras", que vem sendo usada como muleta para justificar preços, sejam de games ou outros produtos e serviços, se tornando cada vez mais caros.

Até porque a renda do consumidor é a única coisa que se recusa a subir na mesma proporção.

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