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Sony: "gamers aceitaram pagar caro" para jogar. Será mesmo?

Relatório da Sony diz que interesse no PS5 não diminuiu após reajuste de preços, mas não é isso que as vendas demonstram

30/06/2026 às 14:25

Seja por causa da IA ou por ganância, é fato que o ato de jogar está se convertendo em um hobby reservado apenas a quem tem muita grana para queimar. A Sony sabe disso, mas aparentemente não se importa.

Consoles e PCs com configurações decentes, bem como smartphones e tablets adequados para a jogatina, se tornaram produtos pornograficamente caros e além do alcance do cidadão médio, mas a gigante japonesa acredita que seu consumidor vai pagar o preço, não importa quanto, para jogar.

PS5 Pro (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Sony jura que as vendas de consoles PS5 continuam firmes, mas não é bem isso que os números mostram (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Segundo uma sessão recente de Q&A (Perguntas e Respostas) com acionistas, a Sony disse que as vendas do PS5 "prosseguem como o planejado", e que os recentes reajustes nos preços não afetaram a demanda por parte do público que, por consequência, teria aceitado pagar mais para curtir títulos exclusivos como Ghost of Yōtei, ou lançamentos futuros incensados como GTA VI.

No entanto, relatórios de vendas recentes desenham um panorama bem diferente.

Vender consoles com perda ficou no passado

Fato: tanto a Microsoft quanto a Nintendo e a Sony abandonaram a estratégia tradicional de vender consoles com prejuízo, de modo a ter lucro exclusivamente com os games. A casa do Mario originalmente lucraria entre muito pouco e quase nada, o que teria levado acionistas da companhia a pressionarem pelo aumento no preço do Switch 2, que entrará em vigor a partir de setembro de 2026.

A divisão Xbox perdeu toda a cobertura da matriz e terá agora que fazer dinheiro de qualquer jeito, o que deverá levar a uma nova onda de demissões e fechamento de estúdios, em que os alvos primários seriam Ninja Theory (série Senua), Double Fine, Compulsion Games (South of Midnight) e Undead Labs (série State of Decay); Activision Blizzard King e Bethesda também deverão sofrer cortes pesados de pessoal.

E então tem a Sony, que também decidiu que vender consoles no vermelho é coisa do passado e, assim como os rivais, foi movida pela crise dos componentes a jogar os preços de seus consoles para a estratosfera. O PS5 Pro, o modelo que embarca uma APU e mais RAM (mas tem a mesma CPU), saltou para assustadores US$ 900 nos EUA e R$ 7,5 mil no Brasil, enquanto o PS5 Digital Edition, o mais "em conta", custa R$ 4,6 mil por aqui e US$ 600 lá fora (de novo, preços oficiais).

Ah, lembre-se de que ambos os modelos não possuem leitor de disco, que deve ser comprado à parte.

Com o susto que a Valve deu em todo mundo ao anunciar a Steam Machine custando a partir de US$ 1.050 (e considere o hardware de um PC de no mínimo dois anos de idade, se não mais), a expectativa para a próxima geração de consoles que, apesar da situação do mercado, ainda pode ser anunciada em 2027, é a pior possível, mas a Sony parece estar plenamente confiante de que seus consumidores pagarão o preço que for pelo privilégio de permanecer dentro da plataforma PlayStation, de novo, "o melhor lugar para jogar".

A companhia deixou isso claro no mais recente Q&A com acionistas (cuidado, PDF):

"No que diz respeito aos preços (dos consoles PS5), absorver o aumento de custo dos componentes fora do Japão não é uma proposta realista. No presente, entretanto, as vendas prosseguem conforme o planejado, e nós não acreditamos que (a situação do mercado) leve a uma queda na demanda.

Nosso objetivo é não vender consoles com prejuízo. Ao mesmo tempo, nós temos monitorado cuidadosamente o mercado e continuaremos a ajustar nossa estratégia de acordo.

Nós acreditamos ser crucial fazer o possível para garantir que nossos consumidores reconheçam o valor do que entregamos, em comparação aos preços praticados."

Sony nunca oferece acesso de Dia 1 a games AAA internos na PS+, como o futuro Ghost of Yōtei (Crédito: Reprodução/Sucker Punch Productions/Sony Interactive Entertainment)

Sony acredita que exclusivos como Ghost of Yōtei motivam o gamer a pagar qualquer valor pedido no PS5 pelo privilégio de jogá-los (Crédito: Reprodução/Sucker Punch Productions/Sony Interactive Entertainment)

O raciocínio da Sony é bem simples: a companhia acredita que possui as melhores IPs exclusivas e que o consumidor, motivado pelo desejo de jogar títulos single player que não mais serão portados para o PC, vai pagar o que for preciso para comprar um PS5, caso não o possua, para garantir o privilégio de jogar algo que nenhuma outra plataforma terá acesso.

Só que, infelizmente para os japoneses, o público parece não concordar: o mês de maio de 2026 foi catastrófico para a Sony Interactive Entertainment (SIE), que teve seu pior resultado desde 2000 com uma queda de 58% em comparação com o mesmo período de 2025 nas vendas de consoles nos Estados Unidos, enquanto os gastos com hardware despencaram 43%.

A Microsoft não está nem um pouco melhor: ainda que o gasto com consoles tenha subido 7% em relação a maio de 2024 (explicado pelo aumento de preços), a saída de unidades caiu 12% em um período de 12 meses na terra dos ianques, o pior resultado no 5.º mês do ano em toda a história da divisão Xbox segundo Mat Piscatella, diretor da Circana, companhia de análise especializada em games.

Como consequência, o custo médio de um console nos EUA aumentou 14% para o usuário final em um ano, de US$ 440 para US$ 502, e isso sem considerar o novo aumento de preços dos sistemas Xbox anunciados recentemente, que entrarão em vigor em agosto de 2026. Independentemente de ser culpa da IA, que consome todos os componentes e torna a produção mais cara, a mudança de estratégia das fabricantes em vender com lucro teve consequências óbvias.

Afinal, se há uma coisa que não aumentou com o RAMpocalipse, são os salários dos consumidores.

Sony continua em busca do GaaS perfeito

Ainda aliada à sanha de tirar dinheiro de todas as fontes possíveis, a Sony não pretende desistir de sua atual estratégia focada em Jogos Como um Serviço (GaaS), mesmo após bombas como Concord e resultados fracos com Marathon, que levou a SIE a descer o martelo na cabeça da Bungie com força: como forma de salvar o game mais recente, o desenvolvimento ativo de Destiny 2 foi encerrado e muitos desenvolvedores do estúdio foram parar no olho da rua.

Foi esse entendimento torpe do CEO da SIE Hermen Hulst que levou ao extermínio da Bluepoint Games, desenvolvedora especializada em experiências single player, ao não conseguir desenvolver um GaaS como a Sony os ordenou; o mesmo tipo de atitude quase exterminou a Rocksteady, graças ao fiasco Suicide Squad: Kill the Justice League.

Marathon (Crédito: Reprodução/Bungie/Sony Interactive Entertainment)

Resposta morna de Marathon por parte do público gamer não desencorajou a Sony a desistir do formato de Jogos Como um Serviço (Crédito: Reprodução/Bungie/Sony Interactive Entertainment)

Em uma entrevista recente concedida à revista japonesa Famitsu em comemoração pelos 40 anos da publicação (que nasceu como Famicom Tsūshin, literalmente "revista do Famicom", o nome do NES no Japão, mas enfim...), o presidente da SIE, Hideaki Nishino, disse que a Sony vai continuar perseguindo o formato GaaS porque "é isso que o gamer quer":

"Nós (a SIE) acreditamos que Jogos Como um Serviço são conteúdos que atraem público em nível global, então continuaremos a revitalizar o mercado com títulos tanto internos quanto de estúdios parceiros (...).

Não estamos apenas focados em promover novos lançamentos, mas também consideramos o que podemos fazer por títulos antigos a médio e longo prazo. Além disso, lançaremos em 2026 nosso novo Jogo Como um Serviço, MARVEL Tōkon: Fighting Souls, e esperamos que todos possam apreciá-lo."

Além do jogo de luta estrelado pelos heróis e vilões da Marvel, a Sony ainda tem Fairgame$ aguardando na fila do GaaS, um (outro) extraction shooter para PS5 e Windows desenvolvido pela Haven Studios, a desenvolvedora fundada por Jade Raymond (Assassin's Creed) comprada pela gigante japonesa em 2022; os relatos, entretanto, dizem que o game ainda não está nem perto de ser satisfatoriamente comercial.

Tudo que há sobre o game é uma CGI e nada mais, enquanto Raymond deixou a Haven em 2025.

Por mais que o público proteste, Nishino não está tão errado assim. De Fortnite a Genshin Impact, os games mais geradores de renda no PS5 e outros sistemas são GaaS, com microtransações girando o caixa violentamente, seja gastando dinheiro com V-Bucks para comprar skins, ou com gemas para rodar a roleta e recrutar as waifus e husbandos mais desejados dos gachas.

Com isso em mente, é compreensível que a Sony insista em desenvolver um Jogo Como um Serviço próprio perfeito, que segure o público e o incentive a gastar muita grana por anos e anos, e injetando de volta o mínimo necessário para manter a experiência interessante.

No momento, Marathon e MARVEL Tōkon são suas apostas mais sólidas, mas a Sony não vai parar só neles.

Fonte: Push Square, GamesIndustry.biz

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