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Bluepoint Games, Sony, e a defesa do indefensável

Sony fechou a Bluepoint Games por "aumento de custos" e "mercado desafiador"; estúdios são vítimas da fome das companhias por dinheiro fácil

15 semanas atrás

A Bluepoint Games, estúdio famoso pelo excelente trabalho nos remakes e remasterizações de diversos games first party da Sony, is no more. A desenvolvedora sediada em Austin, no Texas será fechada em março de 2026 e todos os seus 70 funcionários serão mandados para o olho da rua.

A Sony Interactive Entertainment (SIE), através do CEO Hermen Hulst, alega "mudanças no mercado" e aumento nos custos de desenvolvimento dos games para podar a Bluepoint fora, enquanto se gaba de lucrar mais com a geração do PS5 do que todas as anteriores combinadas e segue em sua estratégia de Jogos Como um Serviço (GaaS) priorizados à frente de experiências single player, porque rendem muito mais grana e de forma contínua.

Shadow of the Colossus (Crédito: Divulgação/Bluepoint Games/Sony Interactive Entertainment)

Shadow of the Colossus (Crédito: Divulgação/Bluepoint Games/Sony Interactive Entertainment)

Bluepoint mandada para o moedor de carne

Fundada em 2006, a Bluepoint Games lançou apenas um jogo (Blast Factor) antes de estabelecer um duradouro contrato com a Sony, que buscava atualizar games de gerações passadas para as atuais. Os primeiros frutos dessa parceria foram as coletâneas remasterizadas God of War Collection (2009) e The Ico & Shadow of the Colossus Collection (2011); a desenvolvedora também remasterizou Metal Gear Solid 2: Sons of Liberty e Metal Gear Solid 3: Snake Eater para o PS3, como parte da Metal Gear Solid HD Collection.

Em 2015, a Bluepoint lançou duas remasterizações de jogos da Sony para o PS4, a coletânea Uncharted: The Nathan Drake Trilogy, reunindo os três games originais do PS3, e Gravity Rush Remastered, de modo a resgatar a aventura original de Kat do já moribundo PS Vita. Em 2018 e 2020 o time de Austin entregou dois remakes completos, respectivamente Shadow of the Colossus para o PS4 e Demon's Souls para o PS5, ambos bastante elogiados por público e crítica.

E foi então que em setembro de 2021 a Bluepoint foi comprada pela Sony, e de lá para cá o caldo desandou. O estúdio foi limitado a prover suporte à Santa Monica Studio no desenvolvimento de God of War Ragnarök, e posteriormente foi incumbido de entregar um GaaS baseado na franquia estrelada por Kratos e Atreus, que acabaria cancelado em janeiro de 2025, junto com outro projeto similar da Bend Studio (série Syphon Filter, Days Gone).

O fechamento da Bluepoint Studio e a demissão de todo o seu staff deixou todo mundo, fãs da Sony e a imprensa especializada, em choque. A desenvolvedora sempre foi respeitada pela qualidade de seu trabalho em experiências single player, e jamais deveria ser afetada por decisões internas envolvendo Jogos Como um Serviço, mas a justificativa dada por Hermen Hulst para embasar a decisão de exterminar o estúdio foi exatamente isso:

Demon's Souls (Crédito: Divulgação/Japan Studio/Bluepoint Games/Sony Interactive Entertainment)

Demon's Souls (Crédito: Divulgação/Japan Studio/Bluepoint Games/Sony Interactive Entertainment)

(...) Estamos operando em um ambiente de mercado cada vez mais desafiador. O aumento dos custos de desenvolvimento, o crescimento mais lento do setor, a mudança no comportamento dos jogadores e as dificuldades econômicas mais amplas estão dificultando a criação sustentável de jogos.

Para navegar por essa realidade, precisamos continuar nos adaptando e evoluindo. Analisamos cuidadosamente nossos negócios para garantir que estamos entregando resultados hoje, enquanto continuamos bem posicionados para o futuro. Como resultado, encerraremos as atividades da Bluepoint Games em março.

Essa decisão não foi tomada de forma leviana. A Bluepoint é uma equipe incrivelmente talentosa e sua expertise técnica proporcionou experiências excepcionais para a comunidade PlayStation. Gostaria de agradecer a todos na Bluepoint por sua criatividade, engenhosidade, e compromisso com a qualidade. Onde possível, vamos procurar oportunidades (de emprego) para alguns dos funcionários afetados em nossa rede global de estúdios.

Embora eu saiba que esta é uma notícia difícil de receber, estou confiante na direção que estamos seguindo. Criatividade, inovação e a criação de experiências inesquecíveis para os jogadores continuam sendo o foco principal da PlayStation Studios. Temos um sólido plano para o ano fiscal de 2026, com muitas novidades para aguardar nos próximos meses.

Obrigado pelo seu trabalho duro e apoio contínuo.

A nota de Hulst foi tomada por jogadores e imprensa como um insulto, primeiro, porque a Bluepoint é um estúdio pequeno com apenas 70 funcionários, cujo fechamento não refletirá em uma economia significativa de receita no Grande Esquema das Coisas. Segundo, a sanha da Sony em perseguir dinheiro fácil, e priorizando experiências de GaaS ao invés de deixar estúdios especializados em outros gêneros fazerem o que sabem de melhor, é um câncer que está corroendo a indústria de dentro para fora.

Suicide Squad: Kill the Justice League, o projeto de Jogo Como um Serviço imposto à Rocksteady (série Batman: Arkham) pela cúpula da Warner Bros., mesmo cientes de que o estúdio é especializado em jogos single player, resultou em uma bomba que deu um prejuízo de mais de US$ 200 milhões, e que por pouco não levou ao fechamento do estúdio, que não escapou de demissões.

A Bluepoint foi vítima da mesma estratégia míope de executivos famintos por uma fatia do bolo do GaaS, onde não importa seu histórico ou sua especialidade, apenas o que você pode entregar agora tem importância, seja o próximo Fortnite, Apex Legends ou Genshin Impact. Quem não conseguir se adequar, será jogado aos leões.

Uncharted: The Nathan Drake Collection (Crédito: Divulgação/Bluepoint Games/Sony Interactive Entertainment)

Uncharted: The Nathan Drake Collection (Crédito: Divulgação/Bluepoint Games/Sony Interactive Entertainment)

O sentimento geral é de que Hulst, obcecado em fazer dinheiro rápido e constante a todo custo, está descaracterizando a SIE. A plataforma PlayStation sempre foi lar de ideias estranhas e grandes títulos pensados com grande desenvolvimento de história, e estes agora estão relegados a um ou dois lançamentos por ano, se tanto.

Tudo o mais que estúdios internos da Sony e agregados estão mirando hoje são GaaS, vide o extremamente criticado spin-off da série Horizon, malhado (com razão) por ter uma aparência genérica e não carregar o peso emocional da trajetória da Aloy. Paralelo a isso, fica impossível não temer pelo futuro de outros estúdios internos, como a Media Molecule e especialmente o Bend Studio, que estaria em uma situação similar à da Bluepoint.

Fonte: Bloomberg, Push Square

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