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GDC: indústria abraça ainda mais a IA, a despeito dos devs

Relatório da GDC aponta que 36% da indústria usa IA, apesar da rejeição dos devs; demissões aumentaram 6% em relação a 2025

17 semanas atrás

A GDC Festival of Games, antiga Game Developers Conference, publicou a edição 2026 do relatório State of the Game Industry, que avalia estatísticas e condições de trabalho da indústria de games, e o panorama pintado nas últimas edições se manteve e continua evoluindo: a adoção de soluções generativas de Inteligência Artificial (IA) continua sendo forçada goela abaixo pelos estúdios, apesar dos protestos crescentes dos desenvolvedores.

Na mesma toada, o número de demissões na indústria aumentou em relação em 2025, o que vem estimulando movimentos pela sindicalização dos profissionais da área em todo o mundo, principalmente nos Estados Unidos.

Devs protestam, mas imposição do uso de IA por estúdios continua crescendo (Crédito: Grok/xAI/Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Devs protestam, mas imposição do uso de IA por estúdios continua crescendo (Crédito: Grok/xAI/Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Relatório da GDC aponta crescimento da IA

A edição 2026 da pesquisa da GDC ouviu 2.300 profissionais em diversos países, a maioria (54%) nos Estados Unidos; a participação do Brasil caiu em relação a 2025, indo de 2% a 1% dos entrevistados, que foram questionados sobre condições de trabalho, opiniões sobre IA, suas preocupações sobre a crescente onda de demissões, e mais.

Sobre soluções generativas, a grande maioria dos game devs, 52%, considera IA como uma ferramenta ruim para a indústria, um aumento significativo em comparação a 2025 (30%), com a maior rejeição vindo do setor criativo, como artes técnicas e visuais (64%) e game design e narrativas (63%); 59% dos entrevistados que trabalham na parte de programação também odeiam IA, e não veem vantagens em ferramentas generativas para otimização de código. Setores de Garantia de Qualidade (QA) e de Suporte à Comunidade igualmente não curtem algoritmos.

Quando perguntados sobre se eles veem IAs como benéfica para o mercado, apenas 7% concordaram, contra 13% que responderam da mesma forma em 2025; sem muita surpresa, os setores com a maior receptividade são o executivo e de operações comerciais, com 19% cada.

36% dos entrevistados disseram que usam soluções de Inteligência Artificial no trabalho em alguma capacidade, sendo 30% em estúdios e 58% em distribuidoras e/ou companhias de marketing; a adoção é maior entre profissionais mais velhos em comparação aos mais jovens, mesmo fenômeno observado quanto maior for a graduação acadêmica; como em qualquer setor, trabalhadores mais experientes entendem que a recusa em evoluir invariavelmente evolui para exclusão do mercado de trabalho.

Mais da metade dos devs rejeita adoção de IA imposta por estúdios (Crédito: Stable Diffusion)

Mais da metade dos devs rejeita adoção de IA imposta por estúdios (Crédito: Stable Diffusion)

Em resumo, a adoção da IA vem sendo forçada pelos setores superiores no mercado de games por uma série de fatores, mas se concentra mais em departamentos de recursos humanos e é maior em companhias ligadas à distribuição e marketing dos games, mas é fato que o uso de ferramentas está também crescendo entre desenvolvedores, inclusive para a criação de assets, independente da repulsa de profissionais criativos.

Estes, em geral, veem a IAs generativas como ferramentas criadas primariamente para roubar conteúdo e empregos, e nada de bom pode vir de algo que beneficia unicamente big techs e governos, enquanto joga os custos para o consumidor final e a cadeia produtiva, de mais de uma maneira.

Número de demissões continua crescendo

Da mesma forma, não é segredo para ninguém que, mesmo antes do boom da IA, o setor de desenvolvimento de games se converteu em uma sucursal do inferno, com cada vez mais desenvolvedores mandados para o moedor de carne, pressionados para trabalhar em condições precárias e por muito tempo, apenas para serem demitidos depois, mesmo se um game fizer sucesso.

O caso da Tango Gameworks, dissolvida pela Microsoft mesmo após inúmeros prêmios recebidos por Hi-Fi Rush, foi um dos mais emblemáticos; o estúdio foi salvo pela Krafton, embora muitos questionem hoje se essa foi mesmo a melhor opção.

Condições do mercado, demissões inclusas, são tão severas que vários profissionais chegaram a mudar de carreira (Crédito: storyset/Freepik)

Condições do mercado, demissões inclusas, são tão severas que vários profissionais chegaram a mudar de carreira (Crédito: storyset/Freepik)

Segundo o relatório, as demissões aumentaram 6% em relação a 2025 e sem surpresa, continuam sendo a maior das preocupações dos profissionais da indústria dos games, como não podia deixar de ser. 28% dos entrevistados disseram ter sido demitidos nos últimos dois anos, com o número aumentando para 33% só nos Estados Unidos. 17% desses perderam seus empregos no último ano, em que a estimativa é de que aproximadamente 9 mil trabalhadores foram dispensados em 2025; desde 2022, mais de 45 mil foram para o olho da rua, um número assustador.

O setor mais afetado com cortes foi o de game design (20%), enquanto o setor comercial é o que menos sofreu com demissões, respondendo por 8%; estúdios AAA respondem por quase dois terços do número total, e 48% dos que foram demitidos ainda não conseguiram um novo emprego. A tendência para 2026 é o número de dispensas começar alto, visto que a Ubisoft já puxou a largada.

Muitos abandonaram completamente a indústria e foram fazer outra coisa de suas vidas, por não quererem mais fazer parte de um mercado que viam como um sonho em suas infâncias, mas que nos últimos anos se converteu em um pesadelo.

Game devs do mundo, uni-vos!

Falando na Ubisoft, a decisão da gigante francesa de fechar um estúdio em Halifax, no Canadá, dias após seus 71 funcionários (que foram todos demitidos) anunciarem que estavam se sindicalizando, foi entendida por todo mundo como union busting, uma tática que embora não seja ilegal (dependendo do método usado), costuma pegar muito mal. O caso está sendo investigado, enquanto a Ubisoft nega retaliação.

No geral, a pressão de estúdios de games por resultados, que levam a horar de crunching e condições precárias de trabalho, a imposição de ferramentas de IA e a ameaça constante de demissão, mesmo ao entregar um produto de sucesso, alimentou o sentimento de busca pelos direitos, que invariavelmente viu um crescimento sistemático de movimentos de sindicalização de profissionais de games em todo o mundo.

Sim, você leu este trecho ouvindo aquele hino na sua cabeça, e em caso negativo, fica aí como trilha sonora.

Demissões e más condições de trabalho estimulou movimentos de sindicalização entre desenvolvedores (Crédito: Independent Workers' union of Great Britain)

Demissões e más condições de trabalho estimulou movimentos de sindicalização entre desenvolvedores (Crédito: Independent Workers' union of Great Britain)

A pesquisa constatou que a maioria esmagadora, 82% dos entrevistados nos EUA, apoiam a sindicalização dos profissionais de games, e apenas 5% são contra. O apoio é maior entre aqueles com receita bruta abaixo de US$ 200 mil por ano (~R$ 1,04 milhão, cotação de 03/02/2026), com 87% favoráveis a sindicatos, resposta parecida entre os trabalhadores mais jovens do setor, abaixo de 45 anos (86% a favor).

Entre executivos de companhias com no mínimo 20 funcionários, 58% apoiam movimentos de sindicalização, e 18% são verbalmente contra. No geral, 62% dos profissionais estão dispostos a entrar para um sindicato e lutar por seus direitos, movidos principalmente por estarem fartos de condições de trabalho menos que ideais: metade dos trabalhadores entrevistados alegam terem sido impostos a uma jornada de trabalho superior a 50 horas por semana.

O relatório lista outros dados, como a persistente disparidade de gênero (64% dos entrevistados são homens, 24% são mulheres, e somente 9% se identificam por outros gêneros) e de etnia (67% são brancos), além do fato que 8% se consideram desenvolvedores solo, com a grande maioria sendo empregados de grandes e médias corporações.

Fonte: GamesIndustry.biz

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