Ronaldo Gogoni 17/07/2026 às 14:30
A Nintendo é uma das grandes fabricantes de consoles, a única que pode se gabar de encerrar ano fiscal após o outro no verde (sendo justo, ela não opera em outros setores como a Sony e a Microsoft), e por mais de 40 anos viu rivais se erguerem e caírem; mesmo que nem sempre lidere o mercado, a companhia centenária de Quioto ocupa uma posição para lá de confortável... mas nem sempre foi assim.
Até a primeira metade dos anos 1980, a Nintendo atuava mais como uma desenvolvedora e distribuidora para outros sistemas, incluindo Arcades, e princípio não tinha grandes esperanças no lançamento do Famicom, seu console original de 8 bits, mas teve que aceitar que haviam poucas opções para continuar no mercado, graças inclusive a mudanças políticas da época.

Segundo "Chip" Tanaka, o desenvolvimento do Famicom não foi tão empolgante quanto o público pensa (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)
O Famicom, corruptela de "Family Computer", hardware sob o qual se baseia o Nintendo Entertainment System (NES) do Ocidente, embora este tenha uma estética completamente diferente (culpa do Crash dos Videogames de 1983), chegou às lojas do Japão no dia 15 de julho de 1983, de forma simultânea ao também primeiro console da Sega, o SG-1000, o que pode ser um padrão hoje, mas foi uma "incrível coincidência" na época.
Desenvolvido pelo time do Nintendo R&D2, responsável até então pela linha Color TV-Game (máquinas de PONG) e games como Radar Scope e Donkey Kong, o Famicom foi uma proposta do então presidente Hiroshi Yamauchi de contar com um hardware próprio aproveitando desenvolvimentos dos setores de eletrônica e computação, que permitiam incorporar novidades a preços baixos.
Com uma etiqueta inicial de ¥ 14.800 (¥17.838 em valores de hoje ou ~R$ 565,62, cotação de 17/07/2026) e compatível com três games da Nintendo famosos nos Arcades, Donkey Kong, Popeye e Donkey Kong Jr., o console vendeu 500 mil unidades nos primeiros dois meses, mas uma falha grave (segundo Gunpei Yokoi, um circuito integrado defeituoso que travava o sistema em condições específicas) forçou Yamauchi a ordenar um recall completo. A partir de 1984, o Famicom deslanchou e aniquilou a concorrência.
Porém, o clima durante o desenvolvimento do console não foi dos melhores e passa longe da imagem idílica dos fãs, de que a Nintendo era a empresa perfeita com profissionais de ponta e um presidente visionário. Quem conta é o igualmente lendário compositor e ex-presidente da Creatures Inc. Hirokazu Tanaka, conhecido como "Hip" Tanaka durante sua estadia na Nintendo, mas que hoje usa o apelido "Chip" fora da companhia.
Um dos pioneiros em compor músicas em chiptunes, "Chip" Tanaka trabalhou na trilha de inúmeros games da Nintendo e participou do desenvolvimento de periféricos como a pistola Zapper, a Game Boy Camera e a Game Boy Printer; ele também trabalhou no desenvolvimento do hardware de áudio do Game Boy e, claro, do Famicom.
Em uma thread no X, "Chip" conta que ouviu de um superior em 1983, três anos após entrar para a Nintendo, sobre as excelentes vendas da linha Game & Watch e, ao mesmo tempo, a decisão da companhia de sair do mercado de Arcades, ao que todo mundo atribui à mudança de foco para consoles de mesa, mas o dev trouxe novas perspectivas.
おぉ!
そうなんやね。自分は入社3年目。
このわずか3年の間、G&W好調→業務用ゲーム機撤退!の話が上司から。確信があったわけやないがこの道しかないというムードやった気がする。わずか数名の社内開発スタッフの中ではガムコン≒ゲームコンピュータええんちゃう?みたいな会話もしてた。 https://t.co/KOBl86gco3— Chip Tanaka / たなかひろかず (@tanac2e) July 15, 2026
"Chip" comenta que, embora parte dos desenvolvedores da Nintendo viam uma progressão do Game & Watch para um sistema doméstico similar, ao que a Atari e outras companhias já faziam, como uma direção natural a ser tomada, mas pontuou que "não havia nada daquele clima de empolgação que YouTubers relatam em seus vídeos"; ele disse que "nem todo mundo estava cheio de confiança e imaginando um futuro brilhante à frente".
Segundo o relato, na época a Nintendo estava acostumada, desde o Color TV-Game, a "enfrentar desafios correntes um por um", gerando uma sensação de que a empresa estava "sempre contra a parede". O Crash de 1983, que fez o mercado ocidental de videogames virar pó da noite para o dia, reforçou a ideia de que esta era "a decisão certa a tomar", isso porque o Japão estava passando por mudanças impostas de cima para baixo, mirando especificamente em um de seus então principais mercados: Arcades.
Em 1984, o governo japonês viria a adicionar uma emenda a uma lei de 1948 (cuidado, PDF), que discorre sobre a administração de estabelecimentos de entretenimento adulto, como casas de jogo e "love hotels"; a mudança aplicaria as mesmas regras (proibição de operar tarde da noite e impedir a entrada de menores) também em casas de Arcade, vistas por autoridades da época como "antros de delinquência".
A Nintendo acompanhava as mudanças na Dieta e, como uma empresa que na época já prezava por sua imagem de entretenimento familiar, teria achado melhor sair do negócio de Arcades no Japão, o que foi feito em dezembro de 1985. A empresa continuou desenvolvendo máquinas como as da série VS., mas as distribuiu em outros países até 1990, quando passou a focar unicamente em consoles.
Aliando este fato a como "Chip" Tanaka contou sua história, a Nintendo via o Famicom como uma boia de salvação: ao mesmo tempo uma forma de manter a entrada de capital que perderia ao sair das casas de Arcade, e uma aposta de que poderia preencher as lacunas criadas pelo "Atari Shock", como os japoneses se referem ao Crash de 1983.
Curiosamente, a série VS. foi também uma resposta ao colapso dos videogames no Ocidente, uma forma de atrair consumidores norte-americanos a seus games em consoles, após a Nintendo não conseguir assegurar um contrato com a Atari para distribuir o Famicom nos EUA.
Na mesma thread, "Chip" Tanaka também comentou que o time de desenvolvimento do Famicom era pequeno e jovem, formado "por um grupo de desenvolvedores entre 25 e 30 anos que podia ser contado em uma mão", excluindo parceiros vindos de outras companhias; o time, no geral, era "inocente e desencanado", dando a entender que o console de 8 bits foi originalmente tratado mais como uma "atividade extracurricular".
De qualquer forma, o Famicom/NES foi um sucesso estrondoso de vendas ao redor do mundo, vendendo 61,91 milhões de unidades (números oficiais e obviamente excluindo clones) e ocupando a 14.ª posição entre os consoles mais vendidos; a plataforma foi a casa de várias franquias populares da Nintendo e outros estúdios, muitas surgidas no sistema e que hoje figuram entre as IPs mais valiosas do planeta.
Nada mal para um projeto que, diferente do que muitos pensam, não foi tratado desde o berço com pompa e circunstância e, ao invés disso, foi tanto tratado como um projeto menor, quanto a única opção restante de introduzir um hardware que os japoneses pudessem controlar.
Fonte: Time Extension