Ronaldo Gogoni 23/06/2026 às 11:14
Em 1.º de março de 2018, a Rússia realizou o primeiro teste de uma de suas seis novas armas estratégicas, que incluem o já ativo RS-28 Sarmat. Chamado oficialmente 9M730 Burevestnik, ele seria efetivamente a "Arma do Juízo Final": batizado de SSC-X-9 Skyfall pela OTAN, trata-se de um míssil balístico intercontinental (ICBM) com alcance "ilimitado", podendo acertar qualquer alvo no planeta.
Embora provavelmente não operacional, sua suposta existência serviria como elemento de dissuasão contra os Estados Unidos e aliados, mas o Skyfall pode não ser tão efetivo quanto soa, além de prover fortes dores de cabeça (em mais de um sentido) para a própria Rússia.

Segundo Vladimir Putin, o Skyfall pode voar indefinidamente e atingir alvos usando trajetórias incomuns mas, como sempre, papel aceita qualquer coisa (Crédito: Reprodução/TV1)
O Skyfall ou Burevestnik (palavra russa para "Storm petrel" ou painho-de-cauda-quadrada, um nome que tem significado histórico para a Rússia e URSS) seria a versão russa escalonada do Projeto Plutão, um programa norte-americano para desenvolver ramjets a serem usados em mísseis que dispensassem combustível, fosse líquido ou sólido. A solução era bem óbvia: um reator nuclear voador.
Um relatório recente (cuidado, PDF) emitido por técnicos do MIT tenta agora jogar uma luz no projeto, embora todas as informações disponíveis sejam ou especulações baseadas em declarações oficiais, ou evidências dos testes realizados em 2018 e 2025, o segundo confirmado pela inteligência norueguesa.
O que se sabe é que o Skyfall seria ligeiramente maior que o míssil de cruzeiro AS-23 Kodiak (Kh-101 para a OTAN) e sua variante estratégica Kh-102, essa armada com uma ogiva nuclear; os trabalhos em torno do ICBM teriam começado em 2010, visando especificamente manobrabilidade livre e autonomia: o bólido teria que voar por uma quantidade de tempo teoricamente ilimitada, restrita apenas por quanto tempo sua fuselagem aguentar.
O fato de ter uma literal usina nuclear voando sobre as cabeças de todo mundo já é preocupante o bastante, tanto que ninguém cogita a ideia de que ele não seria armado com uma ogiva atômica, simplesmente porque explosivos normais não valeriam o esforço. A partir do momento em que um único Skyfall fosse lançado em situação de conflito real, não haveria mais volta.
Putin e seus secretários clamam que o ICBM é capaz de atingir qualquer alvo inimigo, onde quer que esteja no globo, com o teste de outubro de 2025 tendo sido conduzido por pelo menos 15 horas; segundo agências russas, o míssil percorreu 14 mil km e manobrabilidade horizontal e vertical foram verificadas como efetivas; dessa forma, ele poderia ser lançado e assumir trajetórias incomuns para dificultar a interceptação.
Segundo o comandante das Forças Armadas da Rússia, general Valery Gerasimov, o Skyfall pode voar a míseros 160 m para evitar radares e tem um alcance máximo atual de 20 mil km, o que é metade da circunferência da Terra; partindo da base de testes de Pan'kovo na ilha Iujny, ele teria hoje a capacidade de eliminar qualquer ponto estratégico da OTAN, não importando onde esteja no globo.
Só não entre em pânico, porque nada é tão simples assim: agora vamos lidar com a Realidade.
Primeiro, o projeto do Skyfall em si é para lá de problemático, começando pelo reator nuclear. Os técnicos do MIT teorizam que ele não pode ser lançado com o acionamento deste e deve usar um motor auxiliar para colocá-lo no ar. Os problemas começam quando a atividade atômica entra em ação; o míssil inevitavelmente ejetaria um rastro radioativo, deixando elementos que você definitivamente não quer encontrar, como carbono-14 (o mesmo usado em datações), argônio e criptônio, por onde passar.
Sua capacidade de voo "ilimitada", como já dito, é restrita por quanto tempo o ICBM mantiver sua integridade estrutural e, no momento em que as coisas começassem a se desmontar devido o atrito, a contaminação do ambiente escalaria; não por acaso, críticos do ocidente apelidaram o Skyfall de "Chernobyl voador".
Tem mais: para manter as capacidades de manobra, o míssil não pode atingir velocidades supersônicas, seu design o limita a um teto subsônico que, embora ainda alto, o impede de alcançar grandes altitudes e o faria um alvo fácil de rastrear e abater. E nem estamos levando em conta seu rastro radioativo, que deve brilhar no radar com mais força que luzes de Natal.
Em suma, os técnicos do MIT classificam o Skyfall como um completo desastre ecológico, que não pouparia nem mesmo a Rússia; de fato, o acidente nuclear de 2019 é atribuído a uma tentativa falha de recuperar um protótipo no fundo do mar. A possibilidade do camarada Putin perseguir tal design, na melhor das hipóteses, remete ao pensamento da Guerra Fria: o ICBM seria uma arma de dissuasão, para desencorajar qualquer tentativa de agressão contra seu país ou seus interesses, que inclui ataques a aliados.
Na prática, a Rússia ainda não teria conseguido tornar o Skyfall operacional e, mesmo que o faça, sua existência seria uma ameaça permanente de Moscou ao Ocidente, na base do "não mexa comigo". Seu uso invariavelmente desencadearia o protocolo irreversível MAD (Destruição Mútua Assegurada), em que preocupações com o Meio Ambiente seriam a última prioridade de todo mundo, diante do Fim do Mundo.
Fonte: ExtremeTech