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BitTorrent 25 anos: o protocolo que mudou a internet

BitTorrent popularizou o compartilhamento P2P, potencializou a pirataria e desde 2001 tira donos de copyrights do sério

03/07/2026 às 15:40

O BitTorrent completou 25 anos na última quinta-feira (2). O protocolo de comunicação que viabiliza o compartilhamento de arquivos via uma rede P2P, revolucionou a forma como conteúdos são disponibilizados na internet e democratizou o acesso a material legal ou de domínio público, dando acesso àqueles que não poderiam consumi-los de outras formas.

Ao mesmo tempo, a tecnologia potencializou exponencialmente a pirataria de livros, revistas, quadrinhos, filmes, séries, animações, games, softwares, sistemas operacionais e afins; por causa disso, o BitTorrent é odiado por todos os controladores de direitos autorais (copyrights) do planeta, mesmo sendo uma aplicação absolutamente legal.

Logo original do BitTorrent (Crédito: Reprodução/acervo internet)

Logo original do BitTorrent (Crédito: Reprodução/acervo internet)

BitTorrent democratizou o acesso a conteúdo

No dia 2 de julho de 2001, o então graduando Bram Cohen, que estudava computação na Universidade Estadual de Nova Iorque em Buffalo, publicou na lista de e-mails da qual fazia parte uma única mensagem: "meu novo app BitTorrent está funcionando, cheque aqui" e forneceu o link.

Cohen sequer se incomodou em explicar para que o programa servia quando questionado, preferindo deixar para que o público o fizesse, e ele o fez. Em 2004, o BitTorrent já seria supostamente responsável (com muita ênfase no "supostamente") por mais de um terço do tráfego de toda a internet, algo que nunca foi devidamente verificado na época; fazia parte do esforço de gravadoras, estúdios e editoras em minar a tecnologia.

O sucesso do protocolo BitTorrent, ou torrent como é popularmente conhecido, não foi por acaso. Cohen o desenvolveu como uma resposta às soluções de compartilhamento de arquivos mais populares da época como eMule/eDonkey, Kazaa e cia. Em comum, todos esses eram baseados em distribuição P2P (peer-to-peer), em que a fonte (seeder, ou semeador) era um único usuário; com isso, um download poderia demorar muito e, se desse pau na transferência, todo o arquivo seria corrompido.

A proposta de Cohen era estabelecer um sistema descentralizado em que, após o arquivo ser baixado pelos primeiros usuários (os leechers, literalmente sanguessugas) do seeder original, todos esses se convertem também em seeders, caso se mantenham conectados. O arquivo é dividido em pacotes e cada seeder distribui uma parte para o coletivo de usuários, o swarm (enxame), agilizando o download para os leechers que vierem depois.

A manutenção do protocolo depende exclusivamente dos usuários, que são incentivados pela comunidade a continuarem conectados após o download, de preferência até seedar o dobro de dados do que baixou (os clientes torrent fornecem tais estatísticas).

Desde que alguém com todo o arquivo permaneça com o torrent aberto, o conteúdo continuará disponível por tempo indeterminado; da mesma forma, o leecher age como seeder para aqueles com menos partes do arquivo que ele. A confiabilidade do arquivo também é garantida quando mais pessoas estiverem seedando o conteúdo, desde que o original não tenha sido compartilhado com problemas desde o início.

Cliente original do BitTorrent (Crédito: Reprodução/Rainberry, Inc.)

Cliente original do BitTorrent era bem simples (Crédito: Reprodução/Rainberry, Inc.)

A resiliência do BitTorrent se mostra na forma de distribuição que não depende de um único servidor: desde que muitas pessoas estejam conectadas como seeders, o arquivo continuará disponível para download por novos usuários ao longo de anos ou até mesmo décadas. Os clientes atuais usam desde arquivos .torrent compartilhados pelos usuários, ou links Magnet que dispensam arquivos adicionais.

O protocolo se mostrou especialmente eficiente no compartilhamento de arquivos grandes, como sistemas operacionais (não por acaso, quase todas as distribuições Linux usam o BitTorrent como uma opção de download) enquanto economiza custos para distribuidores, que gastam menos com servidores locais e largura de banda para manter transferências estáveis.

A Pirate's Life for Me...

Inicialmente, o BitTorrent não tinha uma ferramenta de busca, primeiro porque Bram Cohen trabalhava sozinho, e segundo, porque ficou rapidamente a cargo dos próprios usuários se organizarem para distribuir materiais com o software.

A ferramenta começou a fazer barulho entre grupos de nicho, como a Etree, uma comunidade fundada em 1998 para compartilhar apresentações musicais ao vivo entre entusiastas dos bons e velhos bootlegs. Na época, bancas como Phish e a para lá de conceituada The Grateful Dead incentivavam seus fãs a gravarem os shows e os compartilharem via P2P com outros.

No entanto, as coisas começaram a mudar quando o público deu ao torrent o mesmo uso que o Napster ed2k/eMule e cia., compartilhar conteúdo pirata. Os fansubbers de anime foram os primeiros a usar a tecnologia em massa, para distribuir rapidamente novos episódios e conteúdos legados difíceis de achar em outras redes.

Cohen conta que, nessa época, o ritmo de downloads do BitTorrent saltou para em torno de 1.000 por dia, ainda não o suficiente para rivalizar com outras soluções ou estimular usuários do mIRC (que ainda existe, é bom lembrar) a migrarem. Isto é, até um estudante da Eslovênia chamado Andrej Preston, também conhecido como "Slonček" ("elefantinho" em eslovênio), lançar em 2002 o primeiro portal centralizado para distribuição de torrents, o venerável Suprnova.org.

Ainda que o site de Slonček tenha sido fechado em 2004 após um monte de ameaças legais, a Caixa de Pandora já tinha sido aberta: inúmeros portais similares começaram a pipocar em todo canto, entre eles o herdeiro "oficial" Mininova, o quase inafundável The Pirate Bay, o questionável 1337x e o também finado RARBG, este por si só dando origem a um monte de filhotes.

Combater torrents ilegais se tornou literalmente uma luta contra a Hidra de Lerna, que a comunidade tomou como seu animal mítico espiritual: corte uma cabeça, e duas nascerão no lugar.

Elenco feminino do filme adulto Pirates II: Stagnetti's Revenge (Crédito: Divulgação/Digital Playground/Gelt Ventures/Aylo)

Piratas de respeito (Crédito: Divulgação/Digital Playground/Gelt Ventures/Aylo)

A discussão sobre pirataria, copyrights, acesso a conteúdo e tudo no meio é extensa e complexa e, ao longo dos anos, evoluiu para uma guerra ideológica entre a turma da Jolly Roger e os defensores de direitos autorais, tão estressante quanto Brasil vs. Argentina, PlayStation vs. Xbox vs. Nintendo, ou CISC vs. RISC. O que não dá para negar, entretanto, é que o protocolo mudou a forma como consumimos conteúdo e, com o passar dos anos, evoluiu de forma a facilitar ainda mais o acesso.

Da dependência de PCs e portais de compartilhamento de arquivos .torrent e links Magnet, a tecnologia evoluiu para abraçar a lógica das plataformas de streaming, inicialmente por meio do então polêmico Popcorn Time, que nada mais era que um frontend que acessava trackers e mostrava ao usuário apenas a obra que ele queria acessar.

O software é hoje representado pelo Stremio, que suporta legendas (também distribuídas pela comunidade) e pode ser instalado no em PCs, Macs, iPhones e iPads (via AltStore), dispositivos Android (via Play Store!) e até em Smart TVs de diversos fabricantes, o que nos lembra...

BitTorrent é 100% legal

Quase todos os clientes BitTorrent, incluindo os distribuídos pela Rainberry Inc. (ex-BitTorrent Inc.), são softwares legais, usados para distribuir conteúdos como obras que já caíram em domínio público e distribuições Linux gratuitas, entre outras coisas que não irritam os donos de copyrights. A decisão de não incluir um motor de busca no cliente, tomada por pura falta de auxílio, acabou por poupar Bram Cohen de muitas dores de cabeça. Não que a RIAA não tenha tentado, claro.

Os portais E usuários, esses sim, podem e geralmente são alvos da Justiça, mas isso não é uma decisão de design por malícia, mas por reconhecer que talvez as regras de copyright precisem mudar, ainda mais em tempos em que companhias como Ubisoft e Sony gritam para quem quiser ouvir que "você não será dono de nada e será feliz".

Bram Cohen, criador do protocolo BitTorrent, em foto de 2020 (Crédito: CoinDesk/Bullish)

Além do BitTorrent, Bram Cohen criou a criptomoeda Chia (Crédito: CoinDesk/Bullish)

De fato, Cohen sempre foi mais movido por ideologia do que pela sanha de enriquecer; seu capital hoje gira em torno de US$ 20 milhões, especialmente por direitos relativos à criptomoeda Chia, também desenvolvida por ele, a primeira a implementar o conceito de mineração por "Prova de Espaço" ao invés do tradicional "Prova de Participação."

A Rainberry Inc., por exemplo, levou anos para realmente fazer dinheiro, com Cohen perseguindo várias ideias como canais de notícias, streaming (sem P2P) e coisas do tipo, mas quando ele lembra do que o motivou a criar o protocolo BitTorrent, ele diz:

"Na época, meu plano não era começar um negócio (...). Era começar uma revolução".

A Revolução veio e, como Gil Scott-Heron previu, ela não foi televisionada.

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