Ronaldo Gogoni 45 semanas atrás
A Ubisoft despertou a ira de muita gente ao fechar os servidores de dois de seus games, XDefiant e The Crew, o primeiro por fracassar em atrair público, e o segundo por ser um game "velho", lançado em 2014.
Como só possuíam funcionalidades online, ambos títulos deixaram efetivamente de existir, como muitos outros ao longo dos anos. Essa atitude de estúdios em exterminar jogos levou à criação de uma campanha chamada Stop Killing Games, que alcançou a marca de 1 milhão de assinaturas e deverá ser apreciada pela Comissão Europeia, o que pode levar a mudanças nas leis locais de proteção ao consumidor.
A Ubisoft se defende dizendo que os gamers "não são donos" dos títulos, e agora, o CEO Yves Guillemot reforçou o coro, ao afirmar que eles também não devem esperar que o suporte dure para sempre.
A Ubisoft não é a primeira, nem será a última desenvolvedora a encerrar serviços de games que não possuem elementos offline, eu poderia passar o dia inteiro listando inúmeros casos em consoles, computadores e dispositivos móveis, mas a desenvolvedora francesa justificou suas ações da pior maneira, irritando os consumidores ao dizerem que eles não são donos dos games, o que legalmente falando, não é mentira.
Mesmo games físicos e 100% offline, que continuarão acessíveis enquanto suas mídias estiverem bem conservadas e funcionais (a propósito, você tem checado sua coleção de discos ópticos ultimamente?), são licenças de uso concedidas pelos estúdios aos compradores, e existem regras inclusive de execução e transmissão patentes, que deram briga mais de uma vez.
Claro que ninguém vai entrar na sua casa e destruir seus consoles e jogos antigos, mas quando o assunto são games online, a disponibilidade deles está ligada a quanto dinheiro ele gera, e o que cada desenvolvedora entende como prioridade; no caso da Ubisoft, seus executivos escolheram a abordagem mais antipática possível.
O primeiro a bater nessa tecla foi Philippe Tremblay, diretor de assinaturas (Ubisoft+), dizendo que uma "mudança necessária" pela qual o mercado deve passar, é acostumar os jogadores a ficarem confortáveis por não possuírem games. Pouco depois, quando a Ubisoft foi processada por consumidores pelo fechamento de The Crew, a defesa pediu para que o caso fosse arquivado ao alegar que o argumento não tem mérito, já que eles "não são donos" de nada, e assim, "não têm o direito de reclamar".
Ainda no mesmo caso, a defesa da Ubisoft argumentou que os gamers "não foram enganados" por The Crew, um game lançado uma década antes, não ter um modo offline que garantisse uma forma de existência continuada mesmo após o desligamento dos servidores, e que eles "foram beneficiados" em uma negociação acordada desde o início, incluso o possível encerramento do serviço quando o estúdio assim decidisse.
O desligamento posterior do FPS competitivo XDefiant, ainda que o game fosse um tanto questionável pela falta de criatividade, só jogou mais lenha na fogueira com as declarações contínuas da Ubisoft em prol do "você não é dono de nada", o que muitos a veem sendo mais odiada hoje pelos jogadores do que a historicamente predatória Electronic Arts (EA), algo que muitos julgavam impossível.
Enquanto isso, a iniciativa Stop Killing Games estava começando a incomodar.
Perto de alcançar o limiar de um milhão de assinaturas, o necessário para que a pauta seja avaliada pela Comissão Europeia, um grupo financiado por representantes da indústria dos games publicou uma reclamação formal, alegando que o movimento, iniciado pelo youtuber Ross Scott, violou a lei ao levantar fundos privados, o que teria alegado não fazer.
Tudo mentira, obviamente.
Agora foi a vez do CEO da Ubisoft, Yves Guillemot, reforçar a narrativa antti-posse e continuidade de games online.
Durante uma recente reunião com acionistas, um dos presentes, que se identificou como um "gamer" que comprou ações suficientes da Ubisoft que lhe deram o direito de participar, questionou diretamente Guillemot sobre decisões a respeito de Assassin's Creed Shadows estabelecer uma narrativa "woke" (sic), com um game protagonizado por um samurai negro, o que o executivo defendeu como uma história que queriam contar, e que Yasuke, gostem os jogadores ou não, é uma figura histórica do Japão.
O mesmo acionista questionou posteriormente sobre a campanha Stop Killing Games, e o que o estúdio estaria fazendo para garantir a continuidade de jogos antigos, ao que Guillemot respondeu o seguinte:
"Sobre a petição, nós operamos em um mercado e, sempre que lançamos um game, nós providenciamos bastante suporte, e muitos serviços para garantir que ele esteja acessível o tempo todo.
Esse tipo de problema (desligamento de serviços online) não é exclusivo da Ubisoft. Todas as desenvolvedoras de games enfrentam esse problema. Você fornece um serviço, mas nada está escrito na pedra e, em algum momento, o serviço pode ser descontinuado. Nada é eterno.
Nós (a Ubisoft) estamos fazendo o possível para garantir que tudo corra bem para nossos gamers e consumidores porque, obviamente, o suporte para todos os games simplesmente não pode durar para sempre."
Guillemot disse ainda que todos os games da Ubisoft trazem informações sobre a continuidade do suporte onlien, no caso de The Crew, as edições físicas traziam uma nota em que a desenvolvedora poderia "cancelar o acesso a um ou mais elementos específicos 30 dias após a notificação" aos jogadores, o que ela fez com o game de corrida e com XDefiant, alegando que ninguém foi pego de surpresa com ambos jogos indisponíveis de um dia para outro.
No entanto, é perturbadora a necessidade quase patológica da Ubisoft, em sempre lembrar que nós, jogadores e consumidores, não temos direito a reclamar quando um game deixa de existir ao perder funcionalidades online essenciais, que não somos donos de nada, e que devemos no futuro nos acostumar a um cenário onde você não terá controle sobre seu acervo de jogos favoritos, que poderão sumir de serviços de streaming, ou deixar de funcionar mesmo sendo pagos, como foi o caso de The Crew.
Nesse sentido, fica difícil não dar razão a quem diz que o caminho, daqui por diante, é pegar na Locadora todos os futuros lançamentos da Ubisoft, já que não dá para confiar no que executivos falam sobre promessas e esforços para manter games funcionando.
Fonte: GamesRadar+