Ronaldo Gogoni 19 semanas atrás
A novela Beyond Good & Evil 2 já se arrasta por, acredite se quiser, quase duas décadas. O game por mais tempo em desenvolvimento ativo da história (ele passou Duke Nukem Forever anos atrás) passou pelas mãos de quase todo mundo dentro da Ubisoft, e segundo rumores, sequer saiu da fase de pré-produção.
Com a desenvolvedora francesa tendo entrado recentemente no modo controle de danos, que a levou a fechar estúdios, demitir em massa, e cancelar vários games em produção, como o remake de Prince of Persia: The Sands of Time, todo mundo pensou que a segunda aventura de Jade e Pey'j seria o próximo a rodar... exceto que ele continua em desenvolvimento, com a Ubisoft garantindo que o título é "uma prioridade" para a empresa.
Ainda que alguns pensem que o motivo por trás de proteger Beyond Good & Evil 2 seria por respeito aos fãs e ao tempo pelo qual ele vem sendo desenvolvido, há uma possibilidade de que a real razão envolva dinheiro para variar, e em última análise, até mesmo a manutenção da Ubisoft em sua totalidade.
As primeiras informações sobre o início do desenvolvimento de Beyond Good & Evil 2 datam de 2007, mas a Ubisoft só confirmou a empreitada no ano seguinte. Inicialmente planejado para a sétima geração de consoles, o Ubisoft Montpellier, o estúdio de Michel Ancel e o responsável pela aventura original, liberou um trailer-conceito para demonstração da engine do game; em 2009, um teaser da jogabilidade vazou.
O tempo passou, a 7.ª geração deu lugar à 8.ª, e nada. Na E3 2017, após quase uma década de silêncio de rádio, a Ubisoft revelou um novo trailer cinemático e toda uma nova estética, tendo descartado o protótipo original e recomeçado os trabalhos do zero; o jogo deixou de ser uma sequência e passou a ser uma prequel. Durante a E3 2018, foi revelada uma nova CGi e demonstrações da jogabilidade do personagem customizável do jogador, o sistema de pilotagem de naves, e o escopo do mundo aberto, que promete ser enorme.
O grande problema dessa história é justamente a grandiosidade, como forma de responder ao culto oque se criou em torno de Beyond Good & Evil (um game que nem vendeu tanto assim, é bom frisar) e de sua sequência, os desenvolvedores juram serem capazes de entregar um game que simula viagens entre galáxias com precisão, mundos enormes, mecânicas de combate únicas, uma história épica, e por aí vai.
O público está bem vacinado contra títulos que prometem o mundo e entregam pouco ou nada do alardeado, embora alguns estúdios tenham se emendado posteriormente, como a Hello Games (No Man's Sky) e a CD Projekt Red (Cyberpunk 2077), mas no caso de Beyond Good & Evil 2, a Ubisoft não estava se ajudando: Michel Ancel saiu da empresa em 2020, e posteriormente disse em uma entrevista que os diretores, ele incluso, estavam "batendo cabeça" sobre qual direção seguir.
Ancel foi substituído por Emile Morel, que morreu de forma repentina em julho de 2023, aos 40 anos.
Só para dar uma ideia do caos em volta do game, o cargo de diretor criativo ficou vago por QUINZE MESES, até ser preenchido por Fawzi Mesmar em outubro de 2024, que se limita a dizer aos fãs que Beyond Good & Evil 2 "continua em desenvolvimento"; informes de gente próxima à Ubisoft Montpellier dizem que ele permancece na fase de pré-produção, quase 19 anos depois do anúncio original.
E então temos a situação atual, em que a Ubisoft está passando por uma reestruturação pesada (cuidado, PDF): a companhia cancelou seis games, entre eles o remake de Prince of Persia: The Sands of Time (que estava em seu development hell particular), adiou sete outros, fechou estúdios em Halifax, Canadá e em Estocolmo, Suécia, levando à demissão de todo seu pessoal, e estabeleceu cinco "casas criativas", cada uma voltada a um gênero e/ou marca/franquia.
Uma dessas "casas" é a subsidiária Vantage Studios, parcialmente controlada pela gigante chinesa Tencent, que será voltada às séries Assassin's Creed, Far Cry, e Rainbow Six; outras ficarão responsáveis por IPs como Splinter Cell, Prince of Persia, For Honor, Rayman, Just Dance, e Beyond Good & Evil, confirmando que o segundo game não estava entre os cancelamentos.
A essa altura, muitos se perguntam como que isso faz sentido. O game da Montpellier vinha sendo referido como uma produção em estado de desordem desde os primórdios, com ou sem Ancel envolvido (que chegou a ser acusado de assédio moral, fato "acobertado" pelo CEO da Ubisoft, Yves Guillemot), ele não estaria em melhor situação que o remake de The Sands of Time (na verdade, é provável estar bem pior), então como o primeiro foi poupado, e o segundo não?
Há a possibilidade de que a Ubisoft preservou Beyond Good & Evil 2 por pragmatismo: o game teria consumido mais de US$ 0,5 bilhão durante seu longo e conturbado processo de desenvolvimento, excluindo marketing, o que faria dele o mais caro de todos os tempos, ainda mais se lembrarmos que ele ainda não saiu do estado de pre-alpha.
Há a possibilidade de que a Ubisoft gaste uma quantia final, caso o jogo seja mesmo lançado, capaz de deixar o budget de Grand Theft Auto VI, que deve ficar entre US$ 1 bilhão e US$ 2 bilhões (incluso martketing), no chinelo. Isso faz de Beyond Good & Evil 2 um valioso ativo para a empresa, algo que pode ser mencionado nos relatórios financeiros como uma IP que trará muito dinheiro para os acionistas, mesmo que não recupere todo o investimento, algo que acredito ser quase impossível de acontecer.
Se a Ubisoft anunciar o cancelamento do game, ele teria que ser incluído nas contas como uma baixa contábil (write-off), algo que só traria prejuízo; tal movimento pode ter repercussões sérias na saúde financeira do estúdio, em outras palavras, Beyond Good & Evil 2 se tornou grande demais para falhar, ele precisa ser concluído e dar retorno financeiro a todo custo.
A grande questão é quando isso vai acontecer, ou mesmo se.
Estamos falando de um game originalmente planejado para o PS3 e Xbox 360, que muito provavelmente não vai sair nem mesmo para a atual geração (a 9.ª) e talvez, e eu digo um grande TALVEZ, dê as caras somente por volta de 2030 e já nos próximos consoles da Sony e Microsoft, independente de como eles se apresentarem, além do PC.
De todo modo, os ânimos do público para com a Ubisoft andam os piores possíveis, dado o cancelamento de títulos esperados e demissões de desenvolvedores, o ato de abraçar o uso da Inteligência Artificial (IA), e a defesa de que não somos donos de nossos games, e não temos o direito de reclamar quando os servidores são desligados; aliás, vale lembrar que Beyond Good & Evil 2 exigirá conexão constante à internet, devido suas mecânicas prometidas de co-op multiplayer.
Fonte: Rock Paper Shotgun