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Michel Ancel e o que aconteceu com Wild e BGE2

Michel Ancel fala sobre os problemas que levaram o promissor Wild ser cancelado e o Beyond Good and Evil 2 a estar numa espécie de limbo

1 ano e meio atrás

Michel Ancel possui um portifólio brilhante, que o credencia como um dos game designers mais criativos da sua geração. Contudo, ao anunciar sua aposentadoria aos 48 anos, a sensação deixada foi de que ele poderia ter nos dados muito mais, sentimento reforçado pelos dois últimos projetos em que trabalhou — Wild e Beyond Good and Evil 2 — e que não foram concluídos.

Wild - Michel Ancel

Crédito: Divulgação/Wild Sheep Studio/Ubisoft

Começando pelo Wild, o jogo foi anunciado em 2014 como um exclusivo para o PlayStation 4, com o seu desenvolvimento acontecendo por meio de uma parceria entre o estúdio fundado por Ancel, o Wild Sheep Studio, e a Ubisoft Paris.

Funcionando como um jogo de sobrevivência, a promessa era de que nele poderíamos controlar qualquer criatura e considerando o talento do francês para criar mundos fantástico, não surpreende tantas pessoas terem ficado empolgadas com o Wild, com o seu trailer de divulgação nos dando um gostinho do que estava por vir.

Porém, os anos foram passando e quando em 2020 o game designer revelou que deixaria a indústria para se dedicar a uma reserva da vida selvagem, os fãs temeram pelo pior. Mesmo dizendo que tanto o Wild quanto o Beyond Good and Evil 2 estavam em boas mãos, tornou-se mais difícil acreditar que eles poderiam um dia sair do papel e hoje sabemos que ao menos o primeiro foi cancelado.

Ao conceder uma entrevista ao site Superpouvior, o francês falou sobre o que levou o projeto a ser interrompido e como a situação acabou lhe afetando diretamente.

“O Wild teve um destino infeliz. Em 2018 tínhamos uma versão jogável muito bacana, mas levamos um longo tempo para atualizar o jogo para o PS5, o que atrasou sua produção. Do lado da Sony, houve grandes mudanças de gestão e o jogo foi paralisado.

A Ubisoft se ofereceu para assumi-lo e pouco depois, a Sony decidiu pegar [a produção] para si, até oferecendo duplicar o orçamento. Infelizmente, os contratos com a Ubisoft estavam bastante avançados e recusamos a oferta da Sony. Que pena!

Foi durante esse período que sofri um burnout e, infelizmente, o jogo caiu nas mãos do departamento editorial da Ubisoft em Paris, que é o próprio caos. Eu não estava mais lá para defender o jogo, que foi literalmente esmagado pelas pessoas daquele departamento e que pediram todo tipo de mudanças sem realmente o jogar. Um verdadeiro escândalo. Após dois anos de andanças, o jogo foi abandonado sob o pretexto de que não correspondia mais ao jogo inicial.”

Wild - Michel Ancel

Crédito: Divulgação/Wild Sheep Studio/Ubisoft

Michel Ancel ainda afirmou que as acusações de assédio sexual que caíram sobre o vice-presidente editorial da Ubisoft Paris, Tommy François, contribuíram para atrapalhar o desenvolvimento do Wild, fazendo dele mais um “projeto amaldiçoado”, o que transformou 2018 no “começo do fim” para o game designer.

Aqui Ancel se refere diretamente a um dos títulos mais promissores e conturbados de todos os tempos, o Beyond Good and Evil 2. Os rumores sobre sua produção datam de 2007, embora o anúncio oficial tenha acontecido apenas no ano seguinte. Continuação de um jogo subestimado por muitos na época em que foi lançado, mas que conquistou um status de obra cult, seu desenvolvimento vem se arrastando desde então, o que já lhe rendeu o título de jogo de grande porte há mais tempo em produção.

E na opinião de Michel Ancel, a falta de comando foi algo que acabou prejudicando seriamente a criação.

“A paixão é uma energia fabulosa, mas ela também pode levar a conflitos entre entusiastas,” explicou. “No BGE 2, por exemplo, houve muitos problemas entre os gestores. O diretor artístico queria refazer tudo constantemente, o diretor do jogo queria criar um jogo de calabouços e eu sonhava com uma aventura espacial. Nós simplesmente não conseguíamos concordar e o diretor do projeto o levou para outras direções.”

Crédito: Divulgação/Ubisoft

Ainda na opinião do francês, quando algo assim acontece e as pessoas não percebem quem está a frente do projeto, deveria caber ao produtor assumir as rédeas, mas não foi o que acontece. Em determinado momento, o próprio CEO da Ubisoft, Yves Guillemot, teve que ir a Montpellier para fazer tentar fazer as “coisas voltarem para os trilhos”, mas nem isso adiantou.

Então, a gota d’água veio quando Ancel viu um jornal francês afirmando que ele seria o responsável por impor mudanças no jogo, sendo que ele nunca teria questionado qualquer decisão tomada pelos outros diretores. “Esses problemas de gerenciamento certamente são muito prejudicais para as equipes,” disse. “Tudo isso mostra que esse não é um trabalho fácil: muito ego e muitos problemas de gestão humana que podem claramente ser melhorados.”

Com a desistência de Ancel, a direção foi passada para Emile Morel, mas em 2023 tivemos a triste notícia de que ele havia falecido, com apenas 40 anos. Como sempre aconteceu com o Beyond Good and Evil 2, seguimos sem mais informações sobre o seu atual estágio de desenvolvimento, muito menos sem a confirmação de que um dia ele finalmente será lançado.

Crédito: Divulgação/Ubisoft

Para Michel Ancel, não podemos dizer que houve um grande vilão neste processo, com a complexidade do projeto tendo sobrecarregado muitos profissionais da Ubisoft. Além disso, ele não se exime da responsabilidade, admitindo que deveria ter defendido melhor o jogo e estado mais presente, até para conciliar as ideias das pessoas.

Por fim, o criador de obras como Rayman, Peter Jackson's King Kong e o próprio Beyond Good & Evil disse que deveria ter parado antes. “No começo de 2020 decidi parar tudo, principalmente porque minha vida familiar foi seriamente afetada pelo meu esgotamento,” contou. “Administrei mal minha energia e não tive mais forças para continuar nos videogames. Após um período de regeneração, iniciei meu projeto ecológico.”

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