Meio Bit » Games » Beyond Good & Evil — A arte para não morrer da verdade

Beyond Good & Evil — A arte para não morrer da verdade

Beyond Good & Evil - 20th Anniversary Edition é a melhor versão de um jogo muito importante, que há duas décadas abordou temas que hoje estão nos holofotes

25/06/2024 às 19:27

Em 2003 a Ubisoft lançou um jogo que se mostraria um fracasso comercial, mas um sucesso de crítica. Escrito por Jacques Exertier e Michel Ancel, que também o dirigiu, Beyond Good & Evil nos colocava na pele de uma fotojornalista que passava por dificuldades financeiras, mas que representaria um papel importante na luta contra o autoritarismo. Duas décadas depois, está na hora de revivermos aquela aventura cujo enredo parece mais atual do que nunca.

Beyond Good & Evil

Crédito: Divulgação/Ubisoft

Tendo se tornado um clássico cult, a criação de Ancel já havia recebido uma remasterização em 2011 e agora retorna como Beyond Good & Evil - 20th Anniversary Edition, versão que traz ainda mais melhorias.

Disponível para PlayStation 4 e  5, Xbox One e Series S|X, Nintendo Switch e PC, agora podemos aproveitar o jogo em 4K e rodando a 60 fps. Além disso, os gráficos ganharam um novo sistema de iluminação dinâmica, sombras e efeitos especiais, assim como aperfeiçoamentos nos modelos de mais de 20 personagens.

Jogar essa 20th Anniversary Edition também é encontrar texturas muito mais nítidas e termos a sensação de estar vendo não um jogo de última geração, mas um clássico devidamente adaptado para os dias atuais. Eu sempre achei o mundo do jogo muito bonito, mas agora ele está ainda melhor.

Para quem gosta de se desafiar, um modo Speed Run foi implementado e 20 novas conquistas foram adicionadas à lista que estava presente naquela versão HD, de 2011. Já para os que preferem conhecer um pouco do passado, uma galeria foi adicionada ao menu, onde podemos ver mais de 300 conteúdos que vão de artes conceituais a curiosidades, passando por screenshots e ilustrações que nunca haviam sido divulgadas.

Beyond Good & Evil

Crédito: Divulgação/Ubisoft

O pessoal da VirtuosGames e da Ubisoft Montpellier também aproveitou para implementar algumas melhorias de qualidade de vida, como saves realizados automaticamente, suporte a controle no PC, a possibilidade de pularmos cenas não-interativas e transferir o progresso entre plataformas, usando o Ubisoft Connect.

Contudo, uma das novidades mais interessantes (e intrigantes) é uma inédita Caça ao Tesouro. Essas missões nos mostrarão um pouco da infância da protagonista, ligando o enredo do primeiro jogo ao do Beyond Good & Evil 2. O que chama atenção aqui é o fato de a “continuação” ter sido anunciada em  2008, mas pouco foi mostrado e desde então o projeto passou por diversas dificuldades.

Porém, mesmo com algumas pessoas apostando que tal jogo — que deverá funcionar como um prequel — nunca sairá, essa mudança no 20th Anniversary Edition reacendeu a esperança dos fãs e depois a própria editora confirmou que o seu desenvolvimento continua.

Assim, pode ser que a explicação esteja na filosofia de Friedrich Nietzsche, quando o alemão disse quetudo que é grande talvez tenha sido loucura no início.”

O olhar onipotente do povo

Beyond Good & Evil

Crédito: Divulgação/Ubisoft

Mas se você estiver se perguntando se essas melhorias são suficientes para que o Beyond Good & Evil - 20th Anniversary Edition mereça uma chance, lhe digo que não só por elas. Esse é um jogo que entrega uma jogabilidade interessante, em que novos elementos são adicionados conforme avançamos e que, de certa forma, sempre me lembrou a franquia The Legend of Zelda.

A trilha sonora também se destaca, mas acredito que sua maior virtude esteja mesmo no enredo e na maneira como ele aborda algo que existe desde os primórdios da sociedade: a luta entre civis rebelados e tiranos ou governos opressores. E para fazer isso, não é por acaso que Ancel e Exertier nos colocam do lado de algo tão combatido por aqueles que querem controlar o poder: a imprensa.

Beyond Good & Evil se passa em 2435 em um planeta minerador quase todo tomado pela água e chamado Hillys. Nele, a raça alienígena DomZ tem atacado e sequestrado os habitantes e para combater essa força invasora, um grupo militar chamado Alpha Section é formado. Prometendo combater os invasores e garantir a segurança do local, os militares passam a controlar todos os aspectos do planeta, incluindo a fontes de informação.

Desta forma, o que o Alpha Section faz é instaurar uma ditadura, ininterruptamente divulgando propagandas que ressaltam os feitos do regime e decidindo o que a população deve ou não saber. Ao controlar a opinião pública, o grupo passa a explorar outro dos pensamentos de Nietzsche, que falava que as pessoas tinham uma necessidade inata de obedecer, de aceitar aquilo que lhes é imposto.

Crédito: Divulgação/Ubisoft

Mas enquanto parte da população se contenta em ser massa de manobra, alguns buscam desafiar esse status quo e assim nasce a IRIS Network, uma facção que buscm revelar a real intenção do Alpha Section. Para fazer isso eles precisam de provas e aí entra a personagem que viveremos, Jade.

Vivendo com seu tio adotivo Pey'j, a jovem é uma apaixonada por fotos e para sobreviver, funda sua própria empresa de fotojornalismo. Ao mesmo tempo, ela ajuda o tio a cuidar do Orfanato Lighthouse, onde cuidam dos órfãos deixados pela guerra contra os DomZ. Com muita dificuldade para manter as contas em dia, garota aceita uma arriscada missão que, na verdade, não passa de um teste de recrutamento feito pela IRIS.

Como não quero estragar a surpresa de quem ainda não jogou Beyond Good & Evil, me limitarei a dizer que Jade possui uma arriscada, mas importantíssima tarefa pela frente. Será ela a responsável por acabar com uma enorme conspiração que paira sobre Hillys e assim libertar o povo da tirania, que usa uma ameaça como argumento para vender segurança e assim se perpetuar no poder. Isso te lembra algo?

Crédito: Divulgação/Ubisoft

Bom, mesmo tendo chegado aos videogames muito antes da popularização das redes sociais e de tomarmos contato com o termo fake news, BG&E fez um excelente retrato do quão perigosa (e influente) pode ser a desinformação e a disseminação do medo entre a população. Da mesma forma, ele ilustra de maneira magistral a importância de uma imprensa livre, ética e investigativa para a manutenção da democracia.

Com os esforços de Jade e do IRIS, a população daquele planeta oprimido passa a entender que o Alpha Section é o verdadeiro mal a ser combatido e levantes começam a surgir por todos os lados. Citando aqui outro filósofo, Jean-Jacques Rousseau, as revelações feitas pelas reportagens produzidas por Shauni — pseudônimo adotado pela protagonista — deixam claro que aquele que está no comando só conseguirá continuar mandando se “transformar sua força em direito e a obediência em dever.”

E desta forma, Michel Ancel e seus companheiros conseguiram entregar um jogo brilhante, uma demonstração de como a arte é capaz de abordar assuntos do nosso dia-a-dia e até mesmo se antecipar a tendências que só eclodirão muitos anos após seu lançamento.

Crédito: Divulgação/Ubisoft

Ver um tema tão delicado, mas igualmente importante como esse ser abordado em um filme ou livro, é algo que nos acostumamos. Mas quando se trata de videogames, especialmente um lançado há mais de 20 anos, é impossível ficarmos indiferentes a tamanha ousadia, contatando como um jogo também pode servir para muito além de apenas divertir.

Talvez Beyond Good & Evil não fale da liberdade de imprensa e de governos autocráticos com a profundidade que tais temas merecem, mas nos detalhes ele consegue explorar a interatividade da mídia para nos fazer ver essas questões por outro prisma e isso está presente até na profissão de sua protagonista. Num primeiro momento, a ideia de fotografar animais para um catálogo pode parecer algo frívolo, mas logo a câmera de Jade se mostrará uma arma poderosíssima, um martelo com força suficiente para derrubar um império, pois como defendia Rousseau “a liberdade pode ser conquistada, mas nunca recuperada.”

Felizmente, muitos de nós ainda vivemos em países em que a crítica aos governos autoritários podem ser feitas até através de um videogame. Para alguns, usar um jogo com esse objetivo pareça uma bobeira, um desperdício de mensagem em uma mídia em que o usuário não está dedicado a pensar. Para mim, ver a defesa da liberdade e da verdade sempre funcionará como um combustível para continuar tendo esperança e ver isso em algo que tanto amo, é um motivo para nunca desistir dos games. Afinal, “aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal.”

relacionados


Comentários