Meio Bit » Games » IA em games traz mais danos que benefícios, revela estudo

IA em games traz mais danos que benefícios, revela estudo

Estudo detalhado revela: usar IA em games é catastrófico para grandes estúdios e não favorece em nada quem não tem talento

24/06/2026 às 15:10

A inclusão de soluções generativas de Inteligência Artificial (IA) em todos os aspectos da vida moderna é um assunto espinhoso que reúne apoiadores e opositores de ambos os lados, cada um com seus argumentos, e games não são exceção.

A ala a favor defende seu uso para agilizar lançamentos ou para permitir que quem não sabe programar ou não tem talento entre no mercado, enquanto os contra argumentam que a IA só serve para roubar empregos, copiar conteúdo alheio, causar danos ao meio ambiente e encarecer tudo, mesmo para quem não consome nada feito por algoritmos.

AI game development (Crédito: Reprodução/acervo internet)

Games no Steam feitos com IA recebem menos reviews e avaliações positivas, inferindo que vendem bem menos que os produzidos apenas por humanos (Crédito: Reprodução/acervo internet)

Com a presença da ferramenta cada vez maior no desenvolvimento de games, lojas como o Steam começaram a identificar títulos que usam soluções generativas em alguma medida, de modo que o consumidor saiba o que está comprando; pensando nisso, uma pesquisa recente revelou que usar IA para criar o seu joguinho pode não só ser um mau negócio, mas uma decisão de design catastrófica para estúdios grandes.

Além de, ao contrário do que muitos pensam, algoritmos não beneficiarem em nada pretensos designers que sonham em criar o maior game de todos os tempos, mas que não sabem nada além de digitar prompts.

IA em games, a cruz e a espada

A pesquisa foi conduzida pelo Dr. Ross Burton, cientista de dados e líder de Produtos e Dados da Game Oracle, companhia criadora do Steam Map, ferramenta que analisa similaridades entre games na plataforma da Valve, de modo a dar aos desenvolvedores os meios para se destacar no ecossistema.

A primeira parte do estudo se concentrou em descobrir quantos games exibiam a etiqueta "contém conteúdo gerado por IA", o que levou a um dado interessante: pelo menos 21% dos games lançados na loja em 2025 implementaram soluções generativas em alguma capacidade, e desde então esse número só tem crescido; como a designação é compulsória, dá para ter uma ideia bem precisa de quantos games com tais recursos existem porque, afinal, pessoas mentem; basta lembrar de casos recentes como Crimson Desert e Clair Obscur: Expedition 33.

A segunda parte da pesquisa, por sua vez, é bem mais complexa: como o Steam não divulga dados oficiais de vendas de jogos, Burton teve que se valer do indicador mais próximo de popularidade disponível, as avaliações deixadas nas páginas dos games pelos jogadores. A declaração de uso de IA foi simplificada para "usamos IA", sem especificar como nem onde, se no código-fonte, arte, música, etc.

Isso levou ao desenvolvimento de um "diagrama causal", usado para avaliar as impressões de 10 mil games lançados no Steam entre janeiro e outubro de 2025; os resultados iniciais mostram que na média, um game que implementou IA em alguma capacidade recebe cerca de quatro avaliações no primeiro mês, e 20% deles não recebem um review sequer, contra 7 postagens de um título que não usou IA.

Exemplo de notificação do Steam sobre uso de IA em games (Crédito: Reprodução/Valve Corporation)

Exemplo de notificação do Steam sobre uso de IA em games (Crédito: Reprodução/Valve Corporation)

Para evitar que variáveis externas não contaminassem a amostragem, Burton construiu um modelo estatístico (de novo, PhD em Ciência de Dados, é sua área de expertise) que leva em conta coisas como experiência anterior de um estúdio ou desenvolvedora, suporte para distribuição, gênero dos games e época de lançamento, a fim de realizar uma comparação mais fidedigna de lançamentos aparentemente idênticos. O cálculo final, ainda que baseado em avaliações, é bastante estarrecedor:

Games que declaram o uso de IA recebem, em média, 53% menos avaliações quando comparados a outros que não usam soluções generativas. Dando um exemplo simples, imagine dois devs de igual talento lançando games similares; o tradicional receberia 100 avaliações, contra 47 dedicadas ao que implementou soluções generativas.

Burton conclui que, para estúdios que contam com equipes talentosas, verba e ferramentas adequadas para o desenvolvimento de games de qualidade, a experimentação com IA, não importa como seja aplicada, só causa prejuízo; o ranço geral do público com a tecnologia se reflete em uma perda de 40% a 60% das vendas.

É fácil entender por quê: mesmo que a IA ofereça diversas funcionalidades para profissionais que a entendem como uma ferramenta que acrescenta a seu portfólio e habilidades, o público só a vê como um produto desenvolvido por corporativistas com o intuito prioritário de acabar com empregos em todos os cenários possíveis, além de ser baseada na coleta indiscriminada de conteúdos alheios, sejam eles protegidos ou não por leis de direitos autorais, e nos supostos danos ao meio ambiente (o que é questionável, mas entra na conta mesmo assim).

Não obstante, a crise de componentes vem causando o encarecimento de diversos produtos e serviços, sejam eles ligados à cena tech ou não; o consumidor hoje vê ferramentas generativas como se fossem o Diabo em pessoa, e a única IA boa e aceitável é IA nenhuma.

Dev sem talento e bem-sucedido é um mito

Tendo como base a ideia de que o público é completamente avesso a games com a menor fração de IA presente no desenvolvimento, a pesquisa também demoliu o mito promulgado pelos defensores da tecnologia, de que uma pessoa comum que não possui as habilidades necessárias para criar um game, e falo do básico (conhecimentos de programação, saber desenhar e compor músicas, arte-finalizar e modelar, ter habilidade com roteiros, etc.), pode ter algum sucesso no mercado.

Os dados são bem cruéis em sua sinceridade: se você é um aspirante a desenvolvedor indie que não sabe nada além de digitar prompts e não tem dinheiro para bancar profissionais, a IA não lhe causará nenhum prejuízo, mas, por outro lado, não lhe proverá nenhuma vantagem significativa. Com ou sem algoritmos, quem não tem talento não terá público e não será nada além de uma nota de rodapé. Ou nem isso.

A solução? Estudar desenho e música, modelagem, programação e construção de roteiros para desenvolver habilidades reais, ou contratar aqueles que as possuem; se você não tem dinheiro e nem talento, não é a IA que o converterá no próximo Hideo Kojima ou Warren Spector.

Cena de "Homem-Aranha" (2002): J. Jonah Jameson (JK Simmons) analisa as fotos do Aranha tiradas por Peter Parker (Tobey Maguire) e as classifica como "crap, crap, mega crap" (Crédito: Reprodução/Columbia Pictures/Disney/Sony)

Como o público vê games criados por devs sem talento, não importa se com ou sem IA (Crédito: Reprodução/Columbia Pictures/Disney/Sony)

Burton aponta, como forma de não jogar toda a culpa no público anti-IA, que a confiança exacerbada de estúdios na tecnologia, que prefere contar com ela para poupar alguns cascalhos em vez de contratar profissionais, leva frequentemente a decisões de design ruins e execução desleixada, resultando em bugs visuais e de jogabilidade tão crassos e óbvios, que mesmo o maior apologista não conseguiria ignorar.

Como dito antes, IA é a Caixa de Pandora e, uma vez aberta, não há volta; por mais que o público deseje o estouro da bolha (que invariavelmente causaria bilhões em prejuízo e mais desemprego para conter custos), o mais certo de acontecer é o que vimos quase 30 anos atrás, com a implosão das .com: as empresas menores e oportunistas foram atomizadas, as gigantes perduraram por terem receita suficiente para conter seu prejuízo, e as disruptivas (Google, Amazon, Yahoo!, etc.) sobreviveram e prosperaram.

Há um clima de exagero de ambos os lados; a IA não é o Anticristo nem o Messias, é uma ferramenta e deve ser tratada como tal. Em um cenário futuro em que apenas as grandes companhias do setor permaneçam, soluções generativas acabarão sendo incorporadas nos mais diversos produtos e serviços, incluindo games, como parte do pacote básico, por mais que os antis protestem.

Ao mesmo tempo, a ala apaixonada deve entender que a tecnologia não vai resolver todos os seus problemas e, em alguns casos, poderá ser inclusive uma fonte de dores de cabeça e prejuízo.

Leia mais sobre: , , , .

relacionados


Comentários