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Os planetas "fofinhos" que desafiam a Ciência

Cientistas descobrem dois novos planetas "super-fofos" no mesmo sistema: similares a Júpiter em tamanho, mas menos densos que algodão-doce

26/06/2026 às 11:16

Como já dissemos várias vezes, o Universo é um lugar mais estranho do que podemos imaginar: uma dessas esquisitices são os planetas "super-fofos" ou "super-inchados" (super-puffs, conforme designação da NASA), gigantes gasosos de tamanho considerável, mas incrivelmente pouco densos, que ninguém sabe direito como se formam.

Planetas do tipo são conhecidos desde 2014, quando os descobertos pelo Telescópio Espacial Kepler dois anos antes demonstraram tal curiosa capacidade. O trio nomeado Kepler-51b, 51c e 51d, distante cerca de 2.615 anos-luz da Terra, tem tamanhos próximos ao de Saturno, mas agora dois novos planetas um pouco mais próximos (a 1.110 anos-luz, "logo ali" na escala cósmica) foram revelados como ainda maiores e menos densos.

Representação artística do sistema TOI 791 e os dois novos planetas "super fofos" (Crédito: Daniel Rutter/NASA)

Representação artística do sistema TOI-791 e os dois novos planetas "super fofos" (Crédito: Daniel Rutter/NASA)

Planetas gigantes de algodão-doce?

Um planeta "super-fofo" é um gigante gasoso que obedece à seguinte proporção: ele precisa ter um raio igual ou maior que o de Netuno, mas uma massa pouca coisa maior que a da Terra, resultando em uma densidade muito menor que a do nosso planeta, de 5.513 g/cm³. Em comparação, Saturno possui densidade de 0,69 g/cm³, o que significa que, se o Espaço fosse um oceano (a água, que é o parâmetro, possui densidade de 1 g/cm³), ele boiaria.

Como se a imagem mental do gigante dos anéis flutuando em uma banheira cósmica já não fosse desconcertante, um planeta "super-fofo" tende a ser ainda mais "leve": o trio do sistema Kepler-51, por exemplo, possui densidades de massa de 0,06 g/cm³ (Kepler-51b), 0,14 g/cm³ (51c) e 0,038 g/cm³ (51d) e, enquanto os dois primeiros são pouco maiores que Netuno e Urano, Kepler-51d tem quase o mesmo diâmetro que Saturno.

Só para dar uma ideia de quão leve um "super-fofo" é, a densidade de uma colher de açúcar é de 0,05 g/cm³, por isso esses gigantes gasosos foram apelidados de "planetas de algodão-doce". Eles seriam mais frios do que os Júpiteres quentes e são corpos celestes bastante raros; cientistas consideram a presença de dois ou mais planetas do tipo em um mesmo sistema como uma ocorrência ainda mais improvável.

Por isso, a comunidade científica está coçando a cabeça com a descoberta de dois novos exemplos no sistema TOI-791, próximo da constelação de Peixe-voador, que não só são maiores que o trio de Kepler-51, como têm densidades ainda menores.

Infográfico comparando as dimensões entre os dois "super-fofos" de TOI-791 com outros planetas (Crédito: Daniel Rutter/NASA)

Infográfico comparando as dimensões entre os dois "super-fofos" de TOI-791 com outros planetas (Crédito: Daniel Rutter/NASA)

Tanto TOI-791b quanto TOI-791c possuem um diâmetro similar ao de Júpiter, mas ambos apresentam densidades de massa várias vezes menores, de respectivamente 0,038 g/cm³ e 0,047 g/cm³; nosso guardião silencioso, por sua vez, conta com 1.326 g/cm³, apenas quatro vezes menos que a da Terra e, embora a densidade de TOI-791b seja igual à de Kepler-51d, o primeiro é consideravelmente maior.

Ambos planetas do sistema TOI-791 foram analisados por meio de dados captados pelo TESS, o satélite da NASA especificamente voltado à busca por novos e estranhos exoplanetas e sucessor da missão Kepler; ele mapeia um céu 400 vezes maior e, como já explicamos, não é capaz de fazer imagens reais; o que ele detecta são flutuações na luz de estrelas, causadas pela gravidade de corpos massivos o bastante para isso.

Os dados dos dois planetas fofinhos vêm sendo analisados há pelo menos 8 anos, e várias particularidades incomuns foram identificadas. Primeiro, cientistas encontraram evidências de que ambos se formaram juntos, tendo surgido do mesmo disco planetário com muito pouco tempo de distância entre eles; eles também possuem ressonância de movimento médio 5:3, ou seja, uma rara relação gravitacional que faz com que o planeta mais externo (mais distante de TOI-791) complete quase três voltas ao redor da estrela, enquanto o interno realiza cinco no mesmo período.

O time de cientistas responsável pelo presente estudo, liderado pela Dra. George Dranfield, astrofísica da Universidade de Oxford, acredita que a incrivelmente baixa densidade desses planetas ajudará a decifrar enigmas que pesquisadores ainda não entendem por completo sobre a formação desses corpos celestes.

Dra. George Dransfield (2.ª da esq. para a dir.) e qeuipe diante do telescópio ASTEP, usado na análise dos planetas do sistema TOI-791 (Crédito: Karim Agabi/IPEV/PNRA)

Dra. George Dransfield (2.ª da esq. para a dir.) e qeuipe diante do telescópio ASTEP, usado na análise dos planetas do sistema TOI-791 (Crédito: Karim Agabi/IPEV/PNRA)

Uma das hipóteses é de que esses planetas leves possuem uma atmosfera rica em hidrogênio e hélio, que se formam enquanto os protoplanetas orbitam as áreas mais afastadas e frias do disco planetário; outros defendem que a atmosfera aparente é poeira, como ocorre em GJ-3470b, e outros ainda que se tratam de planetas pequenos com sistemas de anéis massivos, como HIP-41378f.

De qualquer forma, a ideia de que planetas extremamente leves, mais do que um algodão-doce, possam existir não é uma possibilidade tão estranha assim, se voltarmos à imagem mental de Saturno boiando.

Referências bibliográficas

DRANSFIELD, G., PETIT, A. C., TRIAUD, A. H. M. J. et al. ASTEP confirmation of a pair of long-period Jupiter-sized planets with extremely low densities transiting TOI-791. Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, Volume 549, Edição 4 (julho/2026), 22 páginas, 25 de junho de 2026.

DOI: 10.1093/mnras/stag864

Fonte: Popular Science

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