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Vênus nunca foi habitável, aponta estudo

Novo estudo contraria hipótese de que Vênus já foi capaz de sustentar vida; ao contrário da Terra, magma do planeta esfriou devagar

1 ano e meio atrás

Vênus sempre fascinou os cientistas, um dos motivos, ser um dos dois planetas mais viáveis para exploração e pesquisa, junto a Marte. O outro, sua densa atmosfera sugeria que o ambiente lá fosse úmido, talvez até mesmo fosse habitado por seres primitivos, próximo do que foi o período Cambriano.

Em uma das falas de Carl Sagan mais tiradas de contexto, extraída do 4.º episódio da série Cosmos: A Personal Voyage, em uma demonstração de lógica ruim, um ambiente não-observável poderia levar pessoas a chutarem qualquer coisa, no caso, se Vênus tem atmosfera, deve ter água, logo, há pântanos, o que obviamente significaria dinossauros, o que ele NÃO disse como um fato.

Vênus fotografado em 1974 pela sona Mariner 10 (Crédito: NASA/JPL-Caltech)

Vênus fotografado em 1974 pela sona Mariner 10 (Crédito: NASA/JPL-Caltech)

Só quando as sondas Venera e Vega pousaram em Vênus, essa percepção mudou: o planeta é completamente rochoso, tem uma temperatura média de 460 °C, ventos de mais de 400 km/h, chuvas de ácido sulfúrico, e uma pressão atmosférica 92 vezes maior que a da Terra.

Tudo graças a um Efeito Estufa extremo e permanente, que fez do lugar o mais próximo do que entendemos como o Inferno deveria ser; só para dar uma ideia, o clima em Vênus é mais quente que o de Mercúrio, mesmo este estando mais próximo do Sol.

Afinal, já houve vida em Vênus?

Essa é a grande pergunta que cientistas se fazem há décadas. Havia um consenso de que o Efeito Estufa do planeta sugeriria de que ele poderia ter sido, um dia, ser muito parecido com a Terra, com oceanos de água em estado líquido, o que seria possível, já que ele também está dentro da Região dos Cachinhos Dourados.

Uma das hipóteses é de que formas de vida microbiana, que teriam se desenvolvido em Vênus antes do cataclisma, migraram para atmosfera e estariam lá até hoje, que explicaria um achado de anos atrás, quando moléculas de fosfina, ligada diretamente à presença de vida, foram encontradas.

Claro, nem tudo é tão simples. A fosfina, embora seja facilmente encontrada na Terra no cocô de pinguins, não depende de organismos vivos para se combinar; ela também é encontrada em ambientes com bastante hidrogênio, pouco oxigênio, e muita energia para as reações químicas, como em Júpiter e em Saturno.

A ideia que sustenta a hipótese de vida em Vênus se baseia em um fato simples: em algum momento, o planeta obrigatoriamente teve água em estado líquido, o que uma pesquisa recente aponta que isso talvez nunca tenha acontecido.

A pesquisa detalhada no artigo (cuidado, PDF), conduzida por Tereza Constantinou, doutoranda do Instituto de Astronomia da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, consistiu em analisar composição atual da atmosfera de Vênus, a relação dos gases liberados por vulcões, e como os elementos são repostos.

Vulcão Idunn Mons, que cogita-se estar ativo (Crédito: NASA/JPL-Caltech)

Vulcão Idunn Mons, que cogita-se estar ativo (Crédito: NASA/JPL-Caltech)

Funciona assim: no processo de formação da Terra, o mar de magma resfriou rapidamente (na escala cósmica), permitindo que o vapor de água se condensasse e ficasse preso ao material cristalizado, para ser expelido durante erupções. Isso faz com que essa água, na forma de vapor, vá para a atmosfera com o dióxido de carbono (CO₂) para a superfície.

Isso no modelo terrestre. Em Vênus, que esfriou de forma bem mais devagar, toda água que existia evaporou, impedindo que ela ficasse presa no magma cristalizado; como consequência, as erupções do planeta são muito mais "secas", o vapor de água responde por somente cerca de 6% do total dos gases expelidos.

Por causa disso, quase toda a água que Vênus já teve escapou para o Espaço, há bilhões de anos, e sem água, sem vida, ao menos, como nós reconhecemos como tal. Dessa forma, a equipe de Constantinou sugere que o planeta nunca foi habitável.

O estudo sugere que o resfriamento lento de Vênus pode ser mais comum em planetas situados próximos da borda interna da Região dos Cachinhos Dourados (a Terra está mais para "dentro"), indicando que exoplanetas na mesma situação teriam poucas chances de manter água em estado líquido. Segundo Constantinou, pesquisadores deveriam priorizar planetas mais distantes, os que estariam em uma distância proporcional de suas estrelas equivalente a entre o Sol e a Terra.

A nova pesquisa acaba não só por jogar um balde de água fria em todo mundo que pensou que Vênus já foi habitável, como indica que planetas capazes de sustentar vida são ainda mais raros do que se pensava, reforçando a hipótese de que só estamos aqui porque a Terra ganhou várias vezes na Loteria Cósmica.

Por outro lado, isso não quer dizer que Vênus e outros planetas sejam privados de vida, ela pode ter se desenvolvido em outras paragens de formas completamente alienígenas ao nosso entendimento, se baseando até mesmo em outros elementos que não o carbono; na época em que estudava nosso planeta vizinho, Sagan disse, no filme As Nuvens de Vênus, que se o planeta abrigasse vida (isso foi nos anos 1960, bem antes da Venera pousar lá), ela seria "diferente de tudo o que conhecemos".

É uma forma de encarar o dilema do Paradoxo de Fermi como o copo meio cheio; ao menos, é melhor que a hipótese da Floresta Sombria.

Referências bibliográficas

CONSTANTINOU, T., SHORTTLE, O. RIMMER, P.B. A dry Venusian interior constrained by atmospheric chemistry. Nature Astronomy (2024), 10 páginas, 2 de dezembro de 2024.

DOI: https://doi.org/10.1038/s41550-024-02414-5

Fonte: ExtremeTech

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