Ronaldo Gogoni 48 semanas atrás
Urano é talvez um dos planetas mais esquisitos do Sistema Solar: mesmo estando relativamente mais próximo do Sol que Netuno, ele é o mais frio da família, a temperatura mais baixa registrada é dele, de incríveis −224,2 °C.
Urano possui um eixo de rotação de absurdos 98º, o que o faz receber mais luz nos polos, e ainda assim, sua região equatorial ainda é mais quente, algo que ninguém sabe por que acontece. Para completar, seu eixo magnético não é alinhado com seu centro geográfico.
Quando a sonda Voyager 2 passou por lá em 1986, ela enviou dados à Terra sugerindo que Urano não irradiasse energia na mesma intensidade que os demais gasosos, mas agora, duas pesquisas independentes apontam que o planeta gelado emite sim mais calor do que recebe, tal qual seus irmãos.
Pesquisadores de duas instituições diferentes, as Universidades de Oxford, no Reino Unido, e de Houston, nos Estados Unidos, conduziram estudos não relacionados sobre a temperatura de Urano e por que ele é diferente de Júpiter, Saturno e Netuno, e chegaram à mesma conclusão. Para isso, analisaram décadas de dados coletados com equipamentos mais recentes, e novos sistemas de modelagem computacional.
Como um gigante gasoso, Urano possui um pequeno núcleo rochoso, cercado por um manto "gelado" composto de água, amônia e outros elementos voláteis, como nitrogênio e metano. Ele não possui muita atividade interna, mas a pressão atmosférica é tão intensa, que átomos de carbono são condensados e se precipitam sobre a superfície. Sim, Urano tem chuvas de diamantes, da mesma forma que já foi teorizado nos demais gasosos.
Por outro lado, ele é bem diferente dos demais quanto à quantidade de energia dissipada. Todos os três emitem mais que o dobro do calor que absorve do Sol, enquanto Urano ficava do déficit, conforme os dados enviados pela Voyager 2, que não detectou nenhum excesso relevante.
Os estudos de Oxford e Houston (cuidado, PDF) se concentraram em descobrir o motivo dessa diferença, o culpado seria o mesmo que causou a absurda inclinação do eixo do planeta, supostamente o impacto de um meteoro maior que a Terra, ou até mesmo de um cometa, entre 3 e 4 bilhões de anos atrás, quando Urano ainda era relativamente jovem.
O que os pesquisadores descobriram, revisando toneladas de dados, foi que o 7.º planeta de fato irradia mais calor do que recebe; enquanto Oxford fixou a diferença em 15%, Houston anotou 12,5%. Os valores, embora próximos, ainda são muito mais baixos quando colocados ao lado da energia dissipada por Júpiter e cia.

Diagrama dos caminhos percorridos por ambas sondas Voyager; a 2 passou por Urano em 1986 (Crédito: NASA)
O que aconteceu aqui, então? Como diria o Jack, vamos por partes:
Primeiro, a origem dessa energia se dá provavelmente pela dissipação do calor restante de seu tempo jovem, que ainda não foi completamente eliminado; ao mesmo tempo, a hipótese do impacto de um corpo celeste gigante ganha força, ele teria eliminado grande parte da energia que Urano possuía, o que acabou fazendo com que o planeta se tornasse extremamente frio.
Segundo, os dados da Voyager. É possível que a sonda tenha sofrido interferência por uma alta atividade solar na época em que passava por Urano, e este também estava entrando em um novo solstício, com verão no hemisfério sul; vale lembrar que cada estação do planeta dura 21 anos. Pode ser que um dos cenários, ou ambos, tenham comprometido as leituras.
Ambas pesquisas, que derivam de novas formas de análise de dados, podem levar a um maior interesse na pesquisa do clima e condições geológicas e atmosféricas de outros planetas do Sistema Solar, e também de exoplanetas, sem falar que tudo o que for aprendido pode e será colocado em prática na Terra, podendo auxiliar na prevenção de desastres naturais, e numa melhor análise climática para prover melhores condições de plantio, por exemplo.
WANG, X., LI, L., ROMAN, M. et al. Internal Heat Flux and Energy Imbalance of Uranus. Geophysical Research Letters, Volume 52, Edição 14, 10 páginas, 14 de julho de 2025.
IRWIN, P. G. J., WENKERT, D. D., SIMON, A. A. et al. The bolometric Bond albedo and energy balance of Uranus. Monthly Notices of the Royal Astronomical Society (junho de 2025), Volume 540, Edição 2, 11 páginas, 16 de maio de 2025.
DOI: 10.1029/2025GL115660, 10.1093/mnras/staf800
Fonte: University of Houston